CORES-AGEM

“Viver é melhor que sonhar” diria Elis Regina. A vida acontece na vida, passar a vida pensando é como ensaiar a existência. O pensamento é o adversário mais cruel da coragem e o melhor aliado da cautela, que por vezes nos faz recuar. Precisamos constantemente esquecer de tudo que pode dar errado no dia, caso contrário perdemos a possibilidade até de sair de casa. O desamparo e ansiedade se trata disso, o excesso de lembrança que a vida é frágil.

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Viver é melhor que sonhar. Mas sonhar é uma forma de criar fôlego para viver. Sonhar não é pensar. O sonho acontece justamente quando o controle sai da cena, quando dormimos.

Sonhar é melhor que controlar. Mas não passemos a vida dormindo, afinal, viver é melhor que sonhar! Não pensamos em despertar…não é algo racional! Acontece num impulso de agir, de viver.

É tão bonito quanto perigoso despertar do que anda adormecido! A coragem são as cores que agem em nós. Se nos permitirmos sermos um pouco esquecidos e menos adormecidos, é um risco que vale a pena! As cores-agem em nosso favor.

Eduarda Renaux

Me distraio com Borboletas

“Se distrai com qualquer borboleta que passar”, sou dessas. Essa bailarina com asas quando se apresenta tem platéia garantida. E sei que não estou sozinha, bem por isso esta associada à distrações e devaneios.

Seja pela suavidade, pela calma, cores, câmera lenta, elegância, elas não passam despercebias nem mesmo junto as multidões. Mesmo tão frágeis remetem à força. Mesmo suaves nos lembram da potência de uma mudança. Mesmo com asas parecem não ter pressa.

Como admiro as pessoas que parecem borboletas. Elas não precisam se manter em nossas vidas. Só de passarem por nossos caminhos nos dispersamos com elas. Nos entregamos ao presente. Não é necessário nem interagir. E do jeito que chegam, borboleteiam e vão embora. Não questionamos sua chegada e nem ressentimos sua partida….

É interessante como nos sentimos importantes quando tocam em nós. Como se fossemos especiais, escolhidos pela borboleta. Não deixamos ao acaso. Nos sentimos, nem que seja num breve intervalo, amados. Não brigamos quando voam novamente, mas ficamos maravilhados por terem repousado em nós. Aceitamos de forma inspiradora sua liberdade.

Seria um bocado interessante se assim fosse com as pessoas. Respeitando seu compasso, contemplando suas cores, se acalmando com seu ritmo, vibrando com sua aproximação e se inspirando em sua liberdade.

Por mais pessoas-borboletas e menos rinocerontes em cristaleiras. Isso não é uma crítica aos rinocerontes e sim as cristaleiras!

Eduarda Renaux

  

Já sei!

Onde foi que nos perdemos e que passamos a acreditar que inteligência é nota boa ou falar bonito?  Os conceitos de inteligência emocional, resiliência desconstroem a ideia de que ser intelectual é ser inteligente. Inteligência é a possibilidade que temos de criar saídas diante das dificuldades que aparecem no cotidiano. Inteligência e criatividade estão muito ligadas, pois elas não são mecânicas, são subjetivas e singulares. Existe uma diferença crucial entre reproduzir conhecimento e buscar dentro de si o que se sabe.

Uma das cenas que mais me encanta na clínica com crianças é a forma como elas associam livremente através de perguntas difíceis que convocam os adultos a serem criativos e inteligentes o suficientes para responder de forma clara e simples o que estamos acostumados a transformar em complexo e rebuscado. “De onde vem os bebês? Para onde vão os mortos?”. Não se trata de ler uma cartilha de reprodução sexual, tampouco de discursar a obra de um filósofo que teoriza a morte.

E para criar respostas e soluções as crianças não deixam por menos e pronunciam o famoso “Já sei!” ou “tive uma ideia”. A brincadeira esta a pleno vapor e assim que uma problemática aparece a criança se antecipa e afirma “Já sei! E se….fizéssemos tal coisa”. Parece tão obvio, mas não é.

O adulto perde muito essa posição de permitir-se afirmar que sabe, que não precisa ir no livro, na sala de aula ou perguntar ao mestre, mas de acessar algo dentro de si. Sem medo ou vergonha de deixar vir, deixar aparecer, deixar revelar. A verdade é que sabemos muito sem saber que sabemos. E bloqueamos de diversas formas o acesso a esse saber. Freud diz que temos acesso a essa sabedoria velada através dos sonhos, dos chistes, dos atos falhos e da livre associação.

A vergonha e o medo são afetamentos particularmente muito presentes na vida do adulto, que vacila diante do que sabe. A criança sabe, o adulto duvida. A criança cria, inventa. O adulto recua, alimenta a insegurança. Enquanto a criança diz que sabe, o adulto diz que não sabe. O “já sei” é desejoso, é emoção, é ato. O “não sei” é inseguro, é racionalização, é engasgo.

Nesse ano que se inicia, que possamos reconhecer o que sabemos, menos teóricos e mais experimentais, mais viventes. Isso pode ser um bocado inteligente. Para isso, Haja sonhos, lapsos, falhas e livre vivência.

Eduarda Renaux

 

 

 

 

 

 

 

Viva o Luto – Descansa em Paz

Viver é perder. A cada não que nos é dito, a cada privação,  nos preparamos para as grandes perdas que teremos no caminho. Pessoas que foram poupadas de perder, muito protegidas das frustrações, vão tendo dificuldades bem evidentes de lidar com essa dor.  Quando pensamos em perdas, associamos a coisas mais concretas ou palpáveis. Perda de alguém, de um emprego, um  divórcio. Mas existe um tipo de perda mais abstrata, trata-se dos desaparecidos.

Vou nomear dois tipos de desaparecidos: O ente querido que desapareceu (seja por tragédia, acidente ou sem explicação, o sujeito sumiu e o corpo nunca foi encontrado), e também o ser amado, que se foi, mesmo ele estando vivo e ao lado. Na primeira circunstância, o desaparecido vira uma miragem no deserto, uma proximidade ilusória, um oásis que não se alcança. Já na segunda condição, é como estar sedento dentro de um rio impróprio para o banho. A água esta lá, mas não há o que fazer com ela, além de deseja-la como um dia já foi, límpida e pura.

Relacionamentos podem acabar por tragédia, por desgaste, por morte, por amadurecimento e também por mudanças gradativas que descaracterizam o amado de quem um dia foi. E ele era amado pelo que foi e não pelo que se tornou, inicia-se uma saga do amor “zumbi”. Vasculha-se em todos os lugares aquela pessoa em vão. A recíproca também é verdadeira, quando nossas mudanças foram tantas que já não é possível reconhecer-se naquela forma de amar.

O grande conflito de famílias que possuem um ente desaparecido é que se supõe que esta vivo, a esperança torna o luto impossível. Ali a ausência produz uma série de fantasias angustiantes. Já em relacionamentos onde o desaparecido é metafórico pois a presença física se mantém, a dificuldade esta na assimilação da perda. Do desaparecimento, prevalece a fantasia, o ressentimento, a esperança. Acabar com a esperança é reconhecer que ela estava em Pandora, o jarro de todos os males do mundo.

Freud, no belíssimo texto Luto e Melancolia, escreve que toda a perda é narcísica, ou seja, é o que de nós se perdeu com o objeto perdido que dói. Aceitar perder é aceitar perder-se em alguma parte e construir algo novo em si mesmo. Viver é perder. Viver é perder-se. Perder-se é se reencontrar de outro modo.

Após o atravessamento do luto algo se cria, uma versão diferente de nós aparece. Mas é preciso ver o morto para enterrá-lo, tirá-lo da condição de desaparecido.  Nomear o que essa perda significa é uma forma de materializa-la, em forma de palavra, de história.

Matar a esperança não é desistência, mas insistência de se reinventar apesar de uma perda…é insistir na vida, é transformar esperança em saudade! É também poder descansar em paz…os vivos também precisam…

Eduarda Renaux

 

 

A Neurótica – Pedra do Sol

Um sol de cegar os olhos! Sentada na praça, tão atordoada quanto a multidão que ali passava. Mas não era isso que justificava sua cegueira daquele dia. Se era olhar cego ou vago, nem Cristo sabia. Ela se mantinha sentada sem saber bem no que reparava, tudo e nada lhe chamavam a atenção. Lhe faltava corpo.

Existe uma angústia que não se nomeia quando o pensamento parece não ter direção ou intenção. A claridade ofuscava a clareza das idéias, mas também, clareava as idéias obscuras. E o conceito de existência sufocou o peito, engessada na definição crua de que de coração e respiração que se faz do corpo uma vida. Essa foi a primeira anotação que fez no pedaço de papel que trouxe consigo: “Fazem um corpo viver, mas não garantem a vida.”

Ela era multidão, ela era a dor de cada peito e a respiração pesada de cada angústia. Mas também era o sorriso fácil e o frio na barriga, e até samba no pé. E foi assim, tal qual uma mãe que vai nomeando cada parte de seu bebê para dar-lhe um corpo linguareiro, que a Neurótica conseguiu ser mais que um coração e um pulmão. Dando com a língua nos dentes, safou-se de ser Psicótica e manter-se Neurótica. Ela era cara de pau para lidar com situações extremas mas fazia corpo mole com aquilo que não parecia urgente de resolver.

Ela era mão boba quando estava com um amor engatado, sangue nos olhos quando sentia-se desafiada e o calcanhar de Aquiles daquela antiga paixão. Era também dedo duro do chefe e costas quentes de muita gente. Por vezes, falava pelos cotovelos e metia o nariz onde não era chamada. Defendia com unhas e dentes uma vitória, mas parecia ser feita de açúcar quando fisgada por uma boa história.

“De caco em caco construo meu mosaico”, prosseguiu escrevendo. De palavra em palavra, construo um corpo. Ela já não era só multidão, mas a identificação com a particularidade de cada um que passava. Ela não mais só existia, ela era vida. E podia a compor como queria….

Ser,

Vida,

Ser vida,

Servida…..

Do que lhe dá vida!

E o que se escolhe na vida para dar vida a vida vai fazer toda a diferença para a vida que se tem.

Eduarda Renaux

Manejo das Importâncias

Não existe ato que não seja impulsivo, até pensar muito sobre algo é uma impulsividade. Somos eternos imprudentes. As significações vão aparecendo depois, naquele passo para trás para poder ver de fora. Engana-se quem pensa que avaliamos a vivência pelo que foi bom ou ruim, mas pelo que foi importante. Quem consegue viver só de memória boa não deve ter boa memória.

Lembro-me de uma criança que ao desenhar suas amigas, me falava da colega que lhe infernizava a vida, justamente a “bendita” que ela desenhou por primeiro. E é isso que vai fazer sentido em algum momento da vida, o manejo das importâncias. Tem tanta coisa que é importante e não é prioridade. Não se faz sofrimento apenas com tragédia, sofremos também por enormes miudezas cotidianas.

Tem tanta gente que é acontecimento num dia e uma brisa no outro. Tem os que viram pedra no sapato por uma vida. Tem gente que é tropeço, tem quem é caminho, tem quem é parada, abrigo, janela, tormenta. Tem os que floreiam a gente para sempre. Nos contamos sempre através do outro, através das pessoas que nos cercam.

Nesse manejo das importâncias entra o manejo de quem consideramos importante. Isso fala muito de nós, isso só fala de nós. A vida é a conjugação na primeira pessoa do plural. Quem desenhamos por primeiro, quem toma o nosso tempo, nosso pensamento, nossa fala enquanto vamos desenhando nosso quadro da vida?

De todos os conflitos do cotidiano, é sobre as pessoas que mais vale a pena se perguntar. De alguma forma, dependendo do contexto, o ser humano é paisagem. Confunde-se com o lugar, com as coisas, camuflado na multidão.  Uma parcela de angústia nos arremessa a essa sensação de mobília da cena, quem se dá conta disso tem trabalho redobrado para se tornar gente de novo.

Em contextos de multidão, onde o olhar é muito mais predominante do que as palavras, podemos ser tocados por essa sensação. Mas assim como a pequena das canetinhas do início desse texto nos ensina, vale a pena falar enquanto brinca ou falar do que se brinca. Não apenas olhe. Fale, conheça alguém pelo genuíno interesse de saber do outro. Porque uma boa dose de palavras nos preserva, a linguagem nos humaniza. Um ato corajoso, e claro, impulsivo. É nessa impulsividade que acontece o manejo das importâncias, sejam elas boas ou ruins….

Eduarda Renaux

Copo Meio Vazio

Junto comigo, na sala de espera do hospital havia um senhor que iria operar o joelho, primeira anestesia geral da vida daquele homem. Eu, com supostamente metade de sua idade celebrava meu quinto aniversário dessa anestesia que simula muito bem a morte, a força entrega de quem resiste em querer viver. Ele estava muito nervoso com a demora, com o atraso de seu procedimento. Ali como eu imaginava ganhar em experiência, lhe disse: “se preocupe quando o hospital avaliar que não possas esperar, que não tenhas mais tempo. Quanto mais esperas, teu caso se mostra mais brando do que dessa gente que tem má sorte na saúde.” Ele me respondeu que essa mania de ver copo meio vazio sempre o fizera mal. Só que vinha coisas ruins na cabeça.

Me pus a pensar no copo meio vazio, respirando fundo o ar aromatizado de drama que certamente colocam em cada hospital. Pois quem esta em hospital, esta com o copo meio vazio. Vazio de palavra, de fantasia, de imaginação, de história.

Tua vida é o bocado de exames que carregas nas mãos. Teu histórico é se tens alergias, hipertensão, diabetes, depressão. Teu tipo sanguíneo é o mais próximo que você chega sobre o significado dessa palavra. Tua roupa é um uniforme, pouco digno por sinal. Sim, teu corpo esta quase reduzido a copo vazio, puro corpo, pura matéria.

No andar do hospital contava também a maternidade, o choro de cada bebê que nascia lembrava o milagre da vida. Mas era também aquele choro que remetia ao desamparo que esquecemos desde tão cedo. O trabalho de nos encher o corpo com palavra e alegria, entusiasmada recepção. Tanta história desde a descoberta da gestação e tantas outras por vir. Não poderia ser choro de medo, mas de alegria, de quem goza de um copo cheio, que pode ser passado de mão em mão para que todos possam degustar a maravilha que é um por vir, uma história que se inicia.

Mas hospital é lugar de sofrência, nascença e também de renascença, mesmo com diferentes anestesias. É aposta de vida nova de quem já tinha desaprendido que a vida podia ser melhor. Embora rodeado dessa atmosfera de mal aventurados, esquecemos que na sala de emergência existe um sopro de vida, existe um resgate daquilo que se perdeu, um desejo de resistir a ser copo vazio.

Mesmo os desafortunados que não podem esperar, desejam tornar-se novamente o milagre da vida. Recuperar-se é colar os cacos, é humanizar-se aos poucos, é encher-se novamente ali onde as palavras são rasas. A recuperação é mais que a certeza da sobrevivência, é tornar-se você novamente, tempo mais trabalhoso esse de se encontrar dentro de si próprio, sabendo que vais te encontrar diferente do que eras.

Eduarda Renaux

O MURO DAS PALAVRAS ABAFADAS

“Uma imagem vale mais que mil palavras” nos diz Confúcio, filósofo chinês. Esse dito que já virou mantra popular revela uma verdade mas esconde uma outra versão: uma imagem nos poupa mais de mil palavras. Palavras tão caras, tão difíceis de se encontrar para falar do que se viu, sobre uma experiência que se viveu.

Agora, vou tentar recorrer as minhas mil palavras de direito para falar das imagens que me marcaram feito ferro escaldante, feito navalha nos braços, feito um soco no estômago. Eu até desejaria alguma poesia, porque essa sou eu, acredito profundamente na potência transformadora das palavras na vida de cada um. E a forma como cada um escolhe usar suas mil palavras podem sim resignificar uma imagem em outra coisa que seja possibilitadora, inventiva, transformadora. Mas creio que esse texto não terá uma função de desdobramento de uma realidade mas uma denúncia, um desabafo.

As pessoas me perguntam como foi uma viagem que fiz recentemente. Percebia que inicialmente só conseguia dizer que tinha sido intenso. Mas eu queria falar mais, eu queria que outro quisesse verdadeiramente saber. Eu queria que me perguntassem quando pudéssemos falar e não de passagem na rua. E o que eu sinto é solidão, porque quando a imagem prevalece sobre a palavra, a vivência se cola na imagem, parecendo não precisar se fazer falar para ser decifrada.

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Aonde estive? Israel, Palestina e Jordânia. Mas me ocuparei em falar brevemente sobre a Palestina, que se tornou o estado de Israel em 1948 e desde então vem sofrendo todo o tipo de violência que um povo pode sofrer: moral, cultural, física, geográfica, emocional, psíquica, econômica, social, entre outros. E tudo isso por de trás do muro, na invisibilidade.

Eu nunca vi um país tão militarizado como Israel, isso me chamou profunda atenção. No final dos primeiros quatro dias, infelizmente, já estava quase habituada a ver garotos e garotas (muito jovens) com fuzis e metralhadora andando tranquilamente pelas ruas.

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Passados os quatro dias, cruzamos o muro para ir a Belém que fica em território Palestino. Eu sofri de claustrofobia mesmo estando numa cidade. Toda a Palestina é murada com cerca elétrica e comandadas por militares Israelenses. Não existe nenhuma entrada/saída que seja coordenada pela Palestina. Eu não tenho outro nome para dar a isso que não seja prisão.

Ser expulso e preso na própria casa, ter sua voz abafada e sua causa escondida, é aniquilante subjetivamente. Essas pessoas são sobreviventes e estão no limite do que um ser humano pode atravessar de dor e sofrimento. Todos os muros são intensamente grafitados com essas vozes que só podem sair por imagens. Quem sabe devo concordar com Confúcio, quando não se pode falar, uma imagem pode valer mais que mil palavras. Pois não se trata de palavras poupadas, mas abafadas e silenciadas, sendo assim, valem ouro.

Depois de muitas horas na cidade e arredores, posso afirmar que nada mais fazia sentido para mim. Me lembro de ir na Igreja da natividade em algum momento, mas não lembro de nada daquela igreja. Mas lembro com uma vivacidade surreal da praça que ficava em frente a igreja, onde havia um manifesto dos crimes de guerra cometidos por Israel.

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Eu queria um spray, eu queria ir no muro, eu queria ficar sem silêncio de luto, eu queria gritar bem alto…Eu queria ir embora e parar de ver tudo aquilo, eu queria ficar e lutar junto e dar um ombro amigo…Eu queria minha ignorância de volta, eu queria nunca ter sido ignorante. Eu queria agradecer por ter vivido, visto e sabido, eu queria me bater por ter escolhido tudo aquilo…

Ou seja, eu não sabia o que queria. E não sei se agora eu sei.

Mas não posso ficar na imagem que carrego todo dia comigo, posso trazer um pouco dessa história para perto, trazer um pouco dessa voz para fora do muro. O PalavrAcolhida vai acolher esse delicado assunto, espero que vocês acolham e que ajudem a dar voz. Vale mencionar que das paisagens mais lindas, as da Palestina foram as mais belas, a mais tocantes e por incrível que possa parecer, mais acolhedoras. Transformar a tensão do conflito em acolhimento, se não é um dom é uma mágica, que atribuo a eles toda minha admiração.

Para finalizar esse primeiro escrito, gostaria de contar como foi nossa saída. Saímos de ônibus e na “fronteira” todos que eram “de fora” ficaram sentados e os Palestinos tiveram que sair do ônibus e prestar contas (ou mostrar suas autorizações) para os militares Israelenses. Pela primeira vez eu experimentei o verdadeiro significado de vergonha. E entendi porque é comumente conhecido o muro que divide Israel e Palestina como o Muro da Vergonha.

Eduarda Renaux

A Neurótica – Turmalina

Quem choraria minha morte? Uma pergunta que a Neurótica sempre se fazia como uma tentativa de medir sua importância nesse mundo, tão cheio e tão ruidoso. Justamente ali onde o outro já não importaria mais. Onde não iria abrir os olhos e vê-los lá, com seus problemas e onipotências. Às vezes não tinha certeza se o Shakespeariano romance “Romeu e Julieta” se tornara uma épica história de amor ou a realização de um desejo macabro: poderia o outro sobreviver sem mim? Pode-se morrer de “brincadeirinha” para assistir essa gloriosa importância?

Descansa em paz o morto porque quem sofre é quem fica. “O inferno são os outros”, já dizia Sartre, moço sábio esse. Mas engana-se quem pensa que é de morte morrida que se inventa um luto.  Existia vida antes da sua chegada ao mundo, essa foi a constatação feita pela Neurótica com cinco anos de idade ao perguntar de onde vinham os bebês. Seus pais não nasceram com ela, tiveram inclusive uma interessante história juntos. O luto do desde sempre e para sempre, do infinito.

Como ousaram ter uma vida feliz sem mim? Sofria a pobre criança desamparada das próprias ilusões. Até a profe da escolinha, já teve outros alunos e terá outros e mais outros depois da Neurótica mirim, golpe sujo, golpe baixo, traição!  O mundo se fez mundo desde sempre, apenas seu mundo começou ali onde nasceu. Que pesado não carregar o mundo nas costas. Que grande dor essa de não ser a única causa e conseqüência da humanidade. Preferia não saber de onde vinham os bebês. Quem sabe por isso tinha sérios problemas para se relacionar. Ali onde essa pergunta lhe retornava mesmo sem saber.

– Tú, tú, tú, tú!!! Não te ocorre que a vida do outro não gira mais em torno do teu umbigo desde que saísse da barriga da tua mãe? Perguntou a voz do outro lado da linha.

As vozes sempre tão certeiras em trazer incômodos. Precisava falar justamente sobre a mãe? Será que as pessoas não entendem que não é por acaso que “ Seu filho da mãe” virou um social lembrete desconfortável? Pobres mães, deveriam inventar algo que as ajudasse nesse fardo. Algo como: Sua mãe de filho! Pior dos xingamentos, riu de si mesma, aliviada com a divisão prática do problema. Mas por alguma razão, ser mãe de filho não ofende. Experimenta ser um filho da mãe?

– Vá ler história antes de criar histórias. A voz importuna pronunciou. O antigo Código Cívil não legitimava filhos fora do casamento, por adoção ou mães solteiras. Ser filho da mãe era ser um bastardo sem direitos. Ponto. E já lhe disse para procurar um psicólogo.

Mãe vitima de uma sociedade machista e patriarcal ou algoz da minha vida? Prefiro minha história inventada. Advogado racional, entende de leis, códigos e não entende de pessoas! Entre seu blábláblá fico com meu mimimi.

Mas de alguma forma se sentia amparada pelo blábláblá regado de pompa, regras e códigos cíveis. Ele choraria minha partida? Me dá trela porque não quer desligar? Desligar é tão diferente de desconectar. Sensação que há tempo não tinha. Desligar é separar. Licença para entrar é tão árduo como a licença para sair. Esse lamento de sair sem saber se é possível voltar. Constatar que a vida dele segue mesmo sem mim…

Eduarda Renaux

Velório em Festa

A próxima da fila era eu, certamente. A última de minhas amigas de nossa geração havia acabado de falecer de infarto fulminante. Coitada! Me corrijo prontamente em pensamento, coitada nada! Essa sim sabia aproveitar a vida. Tinha 88 anos e posso contar nos dedos seus dias de mal humor. Inclusive tenho uma forte impressão que ainda namorava nos finais de semana o que contribuía muito para sua vitalidade.

Entre um cigarro e outro, tinha um olhar charmoso que até os mais jovens sentiam vontade de conhece-la melhor. Não era das amigas mais ouvintes que eu tinha, mas posso afirmar sem dúvida que os momentos mais intensos foi ela que me permitiu viver.

Ela amava velórios! Não das pessoas desconhecidas, claro! Mas tinha uma estranha filosofia de que a perda a motivava a compreensão do que o falecido havia lhe deixado como legado. Dizia que em vida aproveitamos as pessoas, na morte aproveitamos as lembranças.

Ela pensava que caso não tivesse motivos para agradecer a boa relação com o morto, ia ao velório não para lamentar a perda, mas lamentar o desencontro em vida. Os que não a conheciam podiam jurar que os mais distantes foram os que mais lhe despertaram sofrimento. Como poderia mostrar tamanha tristeza para os distantes e tamanho brilho para os próximos?

Penso que essa era uma possibilidade que apenas ela conseguia usufruir e eu a invejava por isso. Ela ficava matracando durante os enterros, lembrando com alegria cada particularidade que teve com o defunto. Eu achava até graça, pois de alguma forma, ela dava vida ao corpo pálido. Como se com as palavras dela o sangue voltasse a produzir rubor naquela face já sem vida.

Eis outra característica dela que me intrigava, apenas a ela permitíamos que nos enchesse de vergonha em público. Era um vexame atrás do outro. Mas eram os momentos que mais nos sentíamos vivas. Os enterros de cada uma de nós, graças a ela, também eram vergonhosos. Risos, cantorias, falatório. Definitivamente não pegava bem.

Comigo já era diferente, eu chorava, sentia dor, nó na gargante, medo, angústia. Me perguntava como era morrer, o que se sentia, como seria não existir mais. Nesses momentos sofria de uma dor egoísta. Não sabia se lamentava pelo morto ou pela minha própria finitude. Lembrava com frequência de algo que tinha lido da Clarice Lispector: “Quando eu morrer vou sentir tanta falta de mim mesmo”.

Sim, era isso! Eu iria sentir falta de mim, porque sem mim, tudo ao meu redor não faria mais sentido. O mundo não sobreviveria sem a minha presença. Não o meu mundo. Era demais para minha cabeça. O pior da finitude é que você não perde apenas a vida, perde tudo que conhece dela.

Minha amiga prezava muito as lembranças e recentemente havia sido diagnosticada com Mal de Alzheimer grau leve. Tenho certeza que optou fazer o coração parar de funcionar a perder gradativamente tudo que os mortos lhe deixaram. Isso seria como perder uma herança de uma vida inteira numa mesa de cassino. Seria acabar na sarjeta psíquica.

O velório dela foi o único que festejei. Pois ela me permitia fazer coisas que eu sozinha não conseguia. Agora ela não mais existia para celebrar o que eu mesma não conseguia enquanto agonizava em lágrimas. Esse foi seu legado, já não posso mais me envergonhar de sua filosofia, devo encorporá-la em mim.

Me despedi grata e com o sol torrando meu rosto. Não poderia ser diferente, ela não permitiria nem mesmo o céu chorar sua partida. Saí do enterro, fui para a praia e com alegria passei o dia relembrando nossos momentos memoráveis. Sai da fila dos mortos e entrei no laço da vida. Realmente tem relações que só conseguimos dar significado com a partida! Disso ela já sabia…

Obrigada amiga!

Eduarda Renaux

 

 

Um lugar chamado Vó

Algumas avós são mães com açúcar e muito mais….

O tempo que vira sabedoria, cresce feito fermento com o que ensina, deixa muita gente mais doce, macia e porosa. Algumas avós até parecem bolos que falam…

fuxicoQuem não se entregou aos mistérios dos objetos da casa de uma avó? O cinzeiro que vira barco cuja a toalha de renda sob a mesa vira a imensidão do mar. Algumas Avós são lugares da bagunça e da fantasia…

A caixa de costura, a gaveta com fotos preto e branco e até coloridas, os armários e seus segredos. Algumas avós são baús de histórias e mistérios…

Avós são também incensos da alma. basta um aroma para instantaneamente sermos capturados por um tempo vivido. Cada fragrância, um sentimento, uma experiência.

Elas Não criam uma criança, mas tecem uma infância, são artesãs da segunda pele dos netos….quem sabe não se confundem com açúcar mas emprestam tantas doçuras que quem não é bobo, se lambuza!

Eduarda Renaux

Amanhã pode ser outro dia

Jogada no sofá no auge de seus três anos de idade, sem muito entender sobre o desenho que assistia, apenas ria muito com os tombos dos personagens na neve, dos ataques de fúria do Pato Donald que chegava a deixa-lo com as penas vermelhas, dos abraços apertados da Pata “sem nome” e a alegria dos patinhos de uma festa sem fim.

Nesses poucos porém intensos anos de vida o que valia era cada constatação de familiaridade com seu cotidiano, como a raiva quando contrariada, as péssimas tentativas de afofamento dos adultos quando o que se quer é liberdade de ir e vir, e principalmente, o desejo de uma farra sem limite todo dia, o dia todo.

Quando completou seu terceiro aniversário, divertiu-se tanto que pediu aos pais para dormir com o vestido da festa pois não queria que o dia acabasse. Embalada nesse tema, os olhos vidraram no desenho sobre esses três patinhos que por amarem tanto o Natal desejaram que todos os dias fossem dia 25 de dezembro. É comum na infância desejos virarem ordens. De tão desejado, aconteceu: Natal para sempre.

Não tardou para que os patinhos ficassem exaustos e entediados com a festa diária. O que antes era único e por isso especial, virou mesmice. Que sina! No último dia de repetição natalina, os patinhos não infernizaram mais o Pato Donald, aceitaram os afagos apertados da pata, serviram a mesa, convidaram Tio Patinhas para tocar piano. O calendário voltou ao normal, pois essa era a maldição: a página só pode ser virada com o verdadeiro aprendizado.

Aprender é custoso e leva um tempo impreciso. Por vezes ficamos estagnados num mesmo lugar até que dessa prisão se desate o que nos manteve numa infinita paixão pelo mesmo momento.

A repetição é inimiga da novidade, abrigo da identidade, enigma do sofrimento, trilha para a sabedoria.

Como a onda que toma força antes de avançar na areia, fôlego rude comparado a delicadeza do toque com que a água vai avançando ao chão, viemos e voltamos do desconhecido das águas até a segurança da terra firme. Desse vai e vem, inventamos o que fazer com as ondas. Definitivamente se a felicidade virasse rotina, ela se transformaria em alguma outra coisa que não alegria. Os tons vibrantes só se destacam diante dos tons neutros.

No fundo todos podemos ser um pouco “surfistas” com a vida, com a paciência necessária para esperar a melhor onda. Por vezes a pegamos, outrora levamos caldos. A dificuldade dos movimentos fica por conta da sensibilidade adquirida com as vivências e um tanto de criatividade de cada um.

Só é possível celebrar o dia de alegria suportando o dia de luta. Só reconhecemos a valiosa e rara vida confrontando a morte. Não caia como um pato de que o bom mesmo é férias e vida sem fim!

Enxergar e sentir o tempo com menos medo do amanhã…

Amanhã pode ser outro e novo dia!

Eduarda Renaux

Vai como Pode e Deixa falar

Não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire

a alegria das coisas simples da vida” (FREUD, S.)

As escolas de samba e o carnaval passaram a se tornar uma importante atividade comercial a partir da década de 60. E como em quase todas as datas festivas, a comercialização muitas vezes ofusca suas raízes culturais. Nesses cenários, mais do que comercializar um produto, se vende um modelo de comportamento.

Lamentações de que o extrato da “felicidade” no final do feriado consta negativo e queixas do fracasso da euforia nessa época do ano são comuns. Ressentidos de não terem atingido o suposto ideal, mascararam a frustração, definindo o carnaval como engarrafamentos imensos, aglomerações, “pão e circo”, brecha para jogadas políticas, etc. Não que assim não o seja por vezes, mas essa é apenas uma das facetas e o Carnaval não se reduz a isso.

Em uma breve história do Carnaval, Me. Teles Pinto conta que no Brasil o Carnaval iniciou no período colonial e que uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o Entrudo, uma festa de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Estes saiam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas. Esta prática foi marginalizada e reprimida, porém encontrou outros rumos para continuar existindo.

Já as marchinhas de carnaval surgiram apenas no século XIX, cujo o nome originário mais conhecido é o de Chiquinha Gonzaga com sua música “O Abre-alas”. Entre as classes populares cariocas surgiram as primeiras escolas de samba na década de 1920. Sendo elas: “Deixa Falar” – futura Estácio de Sá; e “Vai como pode” – atual Portela.

Retomando o aspecto singular e subjetivo do ser humano, podemos pensar a infância como o carnaval por excelência, onde na fantasia e na brincadeira tudo é possível. Uma vassoura vira cavalo, uma boneca vira filha, um lençol vira capa de super-herói, uma panela vira chapéu, um galho na rua vira espada, um papel crepom vira saia de bailarina. Quando a brincadeira termina, volta-se a ser o que se é para depois voltar a brincar do que se deseja vir a ser. E com isso, não só brinca de ser um ideal, como também, aproveita de um momento de prazer.

A vida em civilização é difícil, onde frustrados pelos limites, pelos interditos para se viver em sociedade, o brincar pode ser um momento de elaboração dessas angústias, além de uma importante cota de alegria – tanto para crianças quanto para adultos. Veste-se a fantasia mas não se confunde com ela.

O carnaval é uma dupla lembrança: a primeira diz de sua tradição Brasileira, onde mesmo nas situações mais dolorosas, de submissão e frustração, há de se buscar um momento de liberdade e transmitir algum prazer compartilhado com o outro.

A segunda,  diz do faz-de-conta da infância, onde tirávamos proveito do brincar como recurso para criar folego, voltando fortalecidos e criativos para a realidade que se impõe.

E como toda a euforia canalizada em grande intensidade em um período curto de tempo, vem o necessário momento de maior apatia, onde o colorido cede espaço ao cinza. São os contrastes desses tons que se vai compondo um modo de viver.

Não existe um modelo pronto de brincar o carnaval, não importa como ou onde você esteja, o importante é se permitir tirar bom proveito dessa rica transmissão cultural brasileira. Que possamos nos lembrar dos ensinamentos de que a vida é um “vai como pode” e um “deixa falar”, resgatando o Entrudo brasileiro que existe em cada um de nós. E esse ensinamento podemos tirar proveito em qualquer momento do ano e nas coisas simples da vida.

A euforia é como um grande evento em ventania, já a alegria é como uma brisa que pode ser  vivida nas simplicidades do dia-a-dia.

Não precisa ser intenso para ter valor de vivência e experiência. Então, vale a pena lembrar que viver é travar árduas lutas, mas também, obter delas um prazer, independente da sua intensidade.

 

Una Personalidad muy Propria

Quando chegou, há quase 17 anos, a criadora acreditou que não iria “vingar”. “É muito pequena, se não sobreviver pode vir pegar outra.” No desejo da nova família, ela era na medida. Inclusive a família desenvolveu nela uma espécie de mania de grandeza, ela nunca aceitou o seu tamanho. Até com Pastor Alemão já bateu boca pelas andanças da vida. Se não fosse com alguém do dobro de seu tamanho, nem gastava tempo.

Ainda muito nova e desbravadora, resolveu tomar água que pingava da samambaia, que por azar aquele dia havia sido regada com veneno. Precisou ir para UTI veterinária. “Apenas um em cada três sobrevivem aos danos que ela se meteu”, disse o veterinário, desencorajando as esperanças.

Mas no desejo de sua família, ela aguentaria, porque era uma pequena grande guerreira. Vingou novamente. Se tornou mais uma nas estatísticas veterinárias e ainda maior no coração da família.

Parece história de maluco, mas até guarda de transito ela colocou para correr. A autoridade pediu para encostar o carro. Ela o colocou em uma situação muito inusitada com sua cena dramática, histérica e vergonhosa. Ele resolveu não contrariar e ser responsável por uma tragédia canina, solicitou que o carro seguisse seu caminho. Ela vitoriosa se acalmou. Soberana e sem noção do seu tamanho, a família seguiu viagem ruborizada por sua incompetência educativa.

Eis o dia que encontrou um rival a sua altura, o veterinário de origem guatemalteca, conhecido por fazer pitbulls parecerem puddles em sua presença. Riu de nós quando dizíamos que ela era “um tanto quanto difícil” quando fora do ambiente familiar.

Mas quem ri por último ri melhor, e ela mostrou toda sua inquietude com as coisas que não podia mudar ou entender. Para não esganá-la optou por olhar para as mulheres da família e proferir a épica frase: “ela tiene una personaidad muy própria”.

Finalmente a família pode respirar aliviada, enfim tínhamos um veterinário que lhe deu um tamanho de peso pesado, daqueles de gente grande, a reconheceu no tamanho que acreditava ter. Ela não podia estar melhor assistida. E nós agora sabíamos que nome dar para suas crises de tamanha vivacidade: una personalidade mui própria!

Ele virou seu rival para sempre, e acho que ele chegou até a gostar dela. Devido a um câncer no útero, teve que remove-lo cirurgicamente. O guatemalteco nada garantiu, mas também não trouxe estatísticas. Nos restava nos apoiar na grandeza de espirito da pequena grande guerreira.

Até câncer virou doença pequena com sua mania de grandeza, voltou sã e salva. Mas a velhice e a morte são rivais impossíveis de se vencer. Lutou bravamente contra tudo e todos. E como num conto de fadas canino, teve crise respiratória em um sitio, foi enrolada numa manta simulando sua chegada ao mundo e foi morrendo em paz, reconhecendo a força de seu oponente: o tempo.

Ter um cachorro é ter uma ampulheta em casa, é ver todas as etapas da vida numa cronologia muito acessível a nós humanos. Perde-la é lembrar de um tempo que não volta, de um tempo que já passou. Perde-la é lembrar de tudo que gastamos tanto tempo tentando esquecer: a finitude. Ela sempre lutou pelas batalhas que podia ganhar, ou seja, desde muito nova sabia seu significado. E essa é a verdadeira força de sua personalidade e da marca que foi sua vida conosco.

Enquanto a lembrança não vira saudade, é um presente amargo, dolorido que assola o coração. Não vi minha cachorrinha nascer, nem morrer. Mas tenho clareza do que nasceu em mim com sua chegada e o que de mim vai com ela, na sua partida.

cindy