Bob-Esponja e o infantil no adulto

O desenho Bob-Esponja Calça Quadrada é um programa que “vingou” nessa geração. E se deu certo é porque a história dá algum suporte, mesmo que imaginário, a algo do nosso modo de viver. Não é incomum que adolescentes e adultos gostem da Esponja e até exibam adesivos do desenho em suas mochilas, janelas e cadernos. Os “memes” também são muito presentes utilizando os personagens como apoio, e até, nas telas do cinema ele apareceu. Minha hipótese é que o tamanho sucesso é que Bob-esponja é uma metáfora do infantil.

Aqui se faz importante situar que infantil e infância não são sinônimos. Embora o infantil comece na infância, ele não fica por lá. E essa carísmática Esponja pode nos ajudar a entender como isso funciona.

Bob-Esponja trabalha numa lanchonete cujo o dono, o Siri Cascudo é o símbolo do capitalismo. A ambição incalculável do caranguejo faz alusão a prevalência dos objetos e marcas sobre as relações humanas, algo bem contemporâneo. Mas Bob parece levar numa boa, pois isso que é o brincar na infância, brincar de ser adulto e lidar com isso.

Bob trabalha com um molusco que retrata o adulto frustrado, mal-humorado, obediente por opção, submisso, cuja os ideais da infância que tanto lhe deram trabalho para recalcar, a esponja faz questão de revelar. E por isso a convivência é “mal-dita”. E como o adulto sempre esta ás voltas com o infantil, não por acaso, eles são vizinhos de casa!!

Aqui a primeira metáfora do infantil – não conseguimos separar a vida pessoal da profissional. Pois somos quem somos e nosso infantil vai conosco para onde quer que vamos. O que podemos fazer é trabalha-lo em nós e faze-lo ser menos barulhento, ou seja, menos sintomático.

Essa é outra característica da esponja: ela é muito barulhenta, não passa despercebida. Assim como o infantil em nós. É barulhenta porque tudo absorve e cria uma teoria “extraordinariamente imaginativa” para dar conta do que não compreende. A esponja no mar é como o humano na terra, respira a cultura, esta imersa e inundada pela linguagem. Vale reparar que a esponja retratada no desenho é a esponja tal como conhecemos – a de cozinha. Diferente de todos os outros personagens que são mais fieis aos animais marinhos. E não é por acaso, pois a esponja alude aquele objeto que tudo absorve, excessivamente inflada por aquilo que a rodeia.

Lançados nessa linguagem simbólica, onde não somos mais movidos pelo instinto animal, mas pela nossa história e civilização, a Esponja vem revelar esse desamparo não morando com os pais. Eles até existem, mas poucas vezes dão “as caras” ao universo da pequenina esponja.

O infantil é se deparar com esse constante desaparecimento e aparecimento dos pais, que quando aparecem, surgem para tirar satisfações sobre as escolhas feitas. Os pais do Bob, são os pais da demanda, os pais do infantil. E por isso, na clínica trabalhamos com os “pais do infantil” mesmo no adulto.

O desenho passa a sensação de uma Esponja sem identidade sexual muito bem definida.  O que certamente é o que de mais complexo se apresenta no psiquismo na infância, onde a diferença sexual e a origem dos bebês é um enigma a ser decifrado. Muitas vezes é muito conflituado para os pequenos, e para os grandes também.

Como lidam com essa diferença é o que vai dar bordas a sua personalidade. E por isso a calça quadrada e o riso são as marcas inaugurais do personagem. O infantil acha muita graça daquilo que desconhece, principalmente da diferença sexual. Crianças costumam rir do “pipi”, da falta dele, do beijo dos adultos, do cocô, dos puns, das bundas, de tudo aquilo que pode servir de base para suas curiosidades “infantis”.

Quando Bob-Esponja foi para as telas do cinema, fez jus ao que se propos. Ali a metáfora é do crescimento, como se tornar um adulto.  A trajetória foi cheia de aventuras, perigos, choques de realidade, retirando a onipotência da infância e seu mundo mágico.

bob-esponja

Sim, Bob-esponja que mora num abacaxi e frita hambúrgueres em baixo da água foge da lógica consciente e racional. Mas esta totalmente coerente com a lógica do infantil, que é aquela que nos interessa, provoca e que persiste no adulto. Todos temos o infantil dentro de nós. Mas como fica mais leve quando damos um formato a ele: até podemos tentar enquadrá-lo, porém é acima de tudo maleável e poroso, e por isso, passível de transformação.

 

Eduarda Renaux

 

A Vida por um Fio

QUANDO A GESTAÇÃO APONTA UM PERIGO…

Todo o parto deixa a vida por um fio, ora porque marca uma passagem, ora porque cela um discurso, um saber profundo sobre aquele que nasce e sobre aquela que dá a vida. Por um lado, todos nós advimos de um fio de vida, o cordão umbilical. Por outro, a experiência clínica mostra que ele não é garantia da sobrevivência psíquica do bebê.

Com 28 semanas de gestação o bebê já faz caretas, sonha e distingue sons. Com 32 semanas já consegue adquirir uma memória primitiva do que vive e sente. É um grande equivoco pensar que o bebê não participa da vida familiar, dos conflitos da vida da mãe mesmo que dentro da barriga.

      Na tão esperada hora do parto, no lugar de um, nascem dois: Uma mãe e um filho. Diferente de todos os outros psicanalistas até então, Françoise Dolto sensibiliza a importância da gestação e do parto na vida psíquica do bebê. Para nascer, precisamos sobreviver a uma separação que por vezes pode ser traumática tanto para mãe como para o bebê. E para seguir vivendo, sobrevivemos ao que historicizou nossa chegada ao mundo.

Nos casos em que a descoberta da gravidez ou o momento do nascimento do bebê foram de risco real de morte e perigo, a clínica mostra que o campo da vida e da morte,  seguem se confundindo vida a fora.

Zel, tinha queixas de profunda angustia e ataques de pânico. De tão magra parecia desaparecer na poltrona. De tão calada e dependente do outro, parecia se esconder para não ser vista nem escutada.

Em dado momento, ela consegue compartilhar bastante angustiada e entristecida, que sua mãe por temer que o pai atentasse contra o bebê, escondeu a gestação até os sete meses. Zel veio ao mundo, sem vir. Uma barriga escondida que selava um destino: Ela era apenas da mãe e não do mundo. Qualquer terceiro era uma ameaça que colocava a vida de ambas em risco. Após uma infância que dava continuidade a essa neurose familiar, para Zel viver sempre foi ter medo da morte.

O nome Zel foi escolhido a partir conto Rapunzel. Vale lembrar a história original feita pelos irmãos Grimm:

Um casal de mendigos sem filhos que queria uma criança, vivia ao lado de um pomar de uma velha. A esposa, no fim da gravidez, viu uma árvore com apetitosos frutos. Por duas noites, o marido saiu e invadiu o jardim da velha para recolher frutos para a esposa, mas na terceira noite, a velha apareceu e acusou-o de roubo.

O homem implorou por misericórdia, e a velha má concordou em absolvê-lo desde que a criança lhe fosse entregue ao nascer. Desesperado, o homem concordou; uma menina nasceu, e foi entregue à bruxa, que nomeou-a Rapunzel. O nome da planta que o marido roubou.

Sabendo que a puberdade e adolescência marcam a separação do ninho familiar para o campo social, quando Rapunzel alcançou doze anos, a bruxa trancou-a numa torre alta com apenas um quarto no topo.  Quando a bruxa queria subir a torre, mandava que Rapunzel estendesse suas tranças, para subir através delas.

Um dia, um rapaz que cavalgava nas proximidades ouviu Rapunzel cantando na torre. Encantado pela voz, foi procurar a menina. Um dia viu uma visita da bruxa e aprendeu como subir a torre.

Após algumas visitas do rapaz que realizaram uma paixão, Rapunzel pergunta “inocentemente” para a velha má porque seu vestido estava começando a ficar apertado em torno de sua barriga. Através dessa pergunta ela revela para a bruxa que esta grávida. Na raiva, a velha cortou cabelo de Rapunzel e lançou um feitiço, para que ela vivesse em um deserto. Cortando assim o elo de proteção e para um mundo duro e hostil.

Podemos perceber que as tranças simbolizam esse cordão que apenas assegura a entrada da mãe (mesmo que em sua versão má) em seu mundo, impedindo assim não só a entrada de outros, mas também a sua saída para outros destinos. Quando Rapunzel começa a dar seus passos para o mundo, ela é castigada com a solidão e desamparo.

Sumir do mundo é sua sina! Não existir, existindo!

Não precisamos nascer para já termos uma história, ela começa muito antes do primeiro choro e riso. O “era uma vez” – discurso do outro- funda nosso psiquismo e nossas relações com o outro no mundo.  Antes narrar a vida, somos narrados. Ficar eternamente na proteção da barriga, da torre, da voz do outro é o que verdadeiramente nos põem em risco e deixa nossa vida por um fio.

Reflito: No final da História o rapaz encontra Rapunzel no deserto através de sua bela voz. Ali vivem em família após Rapunzel dar a vida a gêmeas. Sendo assim, a solidão e desamparo foram os preços pagos para nascer para o mundo. É um pouco trágico mas necessário. A dor faz parte do crescimento, assim como, o que não nos mata, nos fortalece para a vida! É impossível dissociar o desamparo e a concretude da vida com a melancolia. Quando passamos a nos descobrir mais solitários no mundo, a tristeza e o luto fazem parte do trajeto. Mas isso não é o destino final, apenas parte do caminho, para quem ousa continuar a caminhar, mesmo que no desconforto do deserto rumo a uma nova miragem.

(Continua…)

Transtorno das Raízes

Uma das primeiras tarefas que os professores dão na escola é a atividade da arvore. Primeiro as raízes, depois o tronco, a copa e dependendo da estação, os frutos ou flores. Nunca esqueço dessa tarefa pois o fato das raízes ficarem a vista me causavam profundo incomodo. Não achava esteticamente bonito. E quando ousava entregar sem, a professora e sua fiel caneta vermelha desenhavam as raízes que estavam ocultas do papel.

Vejam bem, não é que elas não existiam, apenas não estavam á vista. Hoje tenho a impressão que as raízes não me causavam tamanha cólera devido ao estético, mas porque eram presentes de forma tão conflituosa na minha vida que sofria com isso. Minha família é de diversas localidades, e em especial, meus pais sempre tiveram muito apreço por sua cidade natal que é diferente da minha. Qual nossa raiz e onde nos localizamos na história familiar é a novela necessária para se constituir gente em um mundo que transborda de pessoas. Ninguém quer ser apenas mais um em meio a multidão!

Sugiro que no próximo Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais (DSM), incluam a Síndrome das Raízes, já que nos últimos tempos toda a forma de sofrimento deve ser descrita e catalogada. Como sou contraria a patologizar as angústias do que é Ser Humano, acredito num outro caminho.

Percebo que não é por acaso que uma análise visa alcançar e tratar a raiz da questão. Já vislumbrando o buraco negro que isso pode se transformar, Freud escreve um belo texto “análise terminável e interminável”. O que ele busca explorar com esse texto é que o inconsciente é infinito, não iremos parar de sonhar, de cometer lapsos, de nos utilizar de chistes, atos falhos. Porém uma análise possui um método claro e finito sim. É poder dar sentido e vazão a nossa árvore da vida e nossas raízes que não seja de forma sintomática, demasiada dolorida e repetitiva. É sempre muito difícil nos localizar nessa árvore, na nossa cadeia geracional. Nosso lugar no mundo não esta dado, e não existe genética que dê conta disso. Para alguns, criar alguma raiz, uma filiação é trabalho para muitos anos.

O que muitos resistem em perceber é que não somos um corpo biológico puramente dito. Somos seres falantes e com possibilidade de transmitir para o outro um lugar. Por isso ser pai e mãe é tão fundamental, pois vai possibilitar essa primeira construção. Não basta gerar uma criança, é necessário adota-la como sua e dar-lhe as ferramentas para que construa seu caminho.

Já dizia o ditado: “Não temos filhos para si, mas para o mundo”. Existe uma certa ordem necessária para que possamos nos aventurar ao mundo, ou seja, para sair e alçar voo preciso saber que tenho essa tal da raiz. Só me aventuro se tenho a sensação de pertencimento. Quem já não se sentiu estrangeiro em sua própria casa? Me recordo de um caso de uma garota que na saída de sua adolescência todos em sua família foram “presenteados” com a Gripe H1N1, menos ela. Aquilo para ela foi a certeza de que não se encaixava na família, foi sua fantasia.

Entretanto, a adolescência é justamente o momento que buscamos nos diferenciar do núcleo familiar severamente. Se por um lado ela achava que havia fracassado no seu “corpo fechado”, a  sua “não doença” realizava a fantasia inconsciente dela. Vejam bem, gripe é um vírus contagioso cujo nossos anticorpos visam combater, isso é organismo, biologia. Mas no caso descrito a gripe esta perpassada pela linguagem, pela cadeia de linguagem que um sujeito esta inserido.

É genético, é químico, é fisiológico é o que mais escuto no cotidiano! Como se isso fosse a formula da irresponsabilidade de decidir o próprio destino, se isentar da parcela do sofrimento, não se implicar na fantasia que foi construída na vida. Nos escondemos por de trás de um instinto que o humano já desconhece há muitos anos.

Uma raiz é aquilo que mantem a vida, absorve os nutrientes necessários e dá sustentação, a mantem em pé. Mas não precisamos criar raízes na raiz. Escrevo esse texto pois percebo pessoas imobilizadas, padecidas na solidão, sem saber quem são. Nessa hora um rótulo patológico cai bem, mas não faz bem. Construir, desconstruir e reconstruir o novo com certeza é mais laborioso, porém mais libertador. A raiz não visa a prisão, mas a vida.

Com as cheias que vieram nesse final de semana em Blumenau, em meio a tristeza também senti uma sensação de pertencimento por escolha. Com pais cariocas, sempre estive imersa no Rio deles. Hoje, tenho também o meu rio que ora dá contorno, ora transborda a cidade. É uma cidade que se funda do rio, assim como eu também, em parte. Essas são raízes, e como a água do rio, que seja dinâmica e com contornos. Nem mesmo um rio ou fenômeno é natural quando se trata de pessoas…

Uma semana recheada de palavras que se inicia a todos!

Carinho,

Eduarda Renaux

Que seja eterno enquanto dure…

O amor não faz sentido, ele dá sentido. E ai que mora o perigo e por isso também tão difícil de ser explicado. Diria que o que compõe o cenário da vida esta sempre em torno do amor e da perda. Nascemos e vivemos amando e perdendo. Atualizamos a cada relação a nossa forma de amar e ser amado.

O amor protetor, o amor controlador, o amor ausente, o amor deselegante, apaixonado, possessivo, exclusivo, atrapalhado. O amor possui várias facetas e não pode ser definido em um dicionário universal. Cada um defini a sua forma e a partir de sua história e experiência. Diferente da paixão, o amor é uma forma mais profunda de fazer laço, absolutamente singular de cada um e que toma forma mais autentica com a intimidade.

Bem, comecemos pelo início! Todos nós já fomos dois em um. Experienciamos desde o nascimento que mesmo com dois corpos já separados eramos uma extensão da mãe, uma relação de dependência física e psíquica extrema. A mãe, nosso primeiro amor, foi também nossa primeira privação e frustração. Se tudo correr bem, a mãe não se contem apenas com o filho, ela vai querer mais da vida. Ali começamos a ter de lidar com a perda do amor todo. E é essa perda que restaura/possibilita nossa capacidade de amar outras pessoas.

Como vou seguir amando se me basto sozinho? Algo deve faltar para que possamos abrir espaço para que um outro entre na turbulência da nossa vida. Por isso a perda do primeiro amor simbiótico é a nossa perda originária, primordial. Amamos para perder e para poder voltar a amar!  A simbiose com alguém não abre espaços, não possibilita faltas, diferenças, ausências.

Seria amar, no fundo, uma tentativa de fazer duas vidas uma só novamente? Aquela plenitude primitiva registrada em cada um de nós?  Hoje mesmo ouvi uma fala muito interessante de uma mulher angustiada com o alvo de seu amor: “Sabe como é, homem de mais de 40 anos que não casou ou não gosta de mulher ou é da mamãe“. Não contive a gargalhada. Não se trata de ciência, mas de um saber já compartilhado. Se não saiu do lugar é porque não precisou!

Não se trata de perder a mãe, ficar órfão (é uma condição psíquica e não concreta, por isso órfãos põem manter essa condição), mas perder o amor simbiótico e adquirir uma singularidade.Lacan nos dizia: “Amar é dar aquilo que não se tem”.

Por isso repito que o amor e a perda (falta) são indissociáveis. Mas fingimos muito bem não saber disso, e seguimos querendo tudo e mais um pouco. Muitas pessoas seguem a vida buscando amores plenos. Quem mais entende disso são os ciumentos extremados. Para os ciumentos de plantão o medo de perder o objeto precioso é devastador.

Sem a pessoa ficam sem identidade, algo em torno: “se ele me ama, sou mulher. Se ela me ama, sou homem”. Isso toma tamanha a proporção que perder o amado não é apenas perder uma referência, mas cair em ruína. O amor em sua totalidade é inegociável. E justamente por ser insustentável essa demanda,que  o ciumento é especialista em promover perdas. A psicanalista Angela Bulhões lembra que no idioma havaiano, ciúme também pode querer dizer despedida. É extremamente sagaz a tradução pois temer é uma forma de antecipação.

“Como pode ter outros interesses além de mim?”, uma novela que todo mundo já viveu. Freud já dizia: “Como fica forte o humano quando tem a certeza de ser amado“. Disso não tenho dúvida! Pois padecemos de amor e nos curamos através dele. Não é estático, nem natural, o amor é demasiado humano bem como suas complexidades! E como tudo na vida, inclusive a vida, não é para sempre.

Mas que seja eterno enquanto dure…

Função Mãe

NEM TAO PERTO QUE SUFOQUE, NEM TAO LONGE QUE ABANDONE…

Há dois dias mais ou menos, vi uma frase no Facebook que dizia o seguinte: “A vida não vem com manual de instruções, mas vem com uma mãe“. Essa frase, dentre tantas outras divulgadas, foi a que mais cativou minha atenção e hoje no dia em que é celebrado o dia das mães acho que compreendi em parte o porque de sua veracidade.

Muitos podem vir a pensar que esse dito alerta a importância de se ouvir o que uma mãe tem a dizer e seguir a risca seus conselhos. Porém desconfio que sua beleza esta no fato de que é na relação com a mãe que nos constituímos e inscrevemos uma forma de operar. Sabemos algumas coisas de nossa forma de viver no mundo, outras já não temos tantas notícias assim. Agimos sem saber ao certo a que regras e a que instruções estamos seguindo. A mãe é a pista, a peça fundamental do quebra-cabeça.

Todos sabemos disso de alguma forma, pois não por acaso elas protagonizam as nossas narrativas queixosas, reivindicativas ou de admiração, amor incondicional. A ambivalência amor e ódio é o cenário que colore os mitos familiares que cada um vai construindo para apresentar sua história.

Freud, em toda sua teoria fala dos desejos e amores familiares. Ele inaugura e apresenta um dado clínico fundamental: um bebe é uma extensão da mãe e o processo de separação é dolorido, e por vezes traumático. Mas sem essa separação se fundam as neuroses e as perturbações psíquicas graves. Traduzindo: Se cai antes da queda, se soprar a casa cai!

Mas é humanamente insuportável para uma mãe deixar de sua cria tão facilmente, é necessário uma ajuda. Essa ajuda, na maioria das vezes compete naquilo que o desejo da mãe esta para além do seu bebe. Na maioria das vezes é o pai. Mas pode ser o trabalho, o grupo de amigas, a escola, o namorado. O problema é quando a mãe vive só pelo seu bebe. Qualquer separação é por demais dolorida para essa mulher que dedica exclusivamente seu tempo a sua criança.

Winnicott um psicanalista muito interessante que ocupou boa parte da carreira em compreender a relação mãe-bebe traduz a importância de uma mãe suficientemente boa. A mãe suficientemente boa é aquela que se faz presente mesmo quando não esta colada ao lado. Ou seja, é uma presença na ausência. É desta forma que passamos as dificuldades na vida sem cair no desamparo, não nos sentindo tão só no mundo, sem criar uma relação de profunda dependência. Lembrando que deslocamos essa relação de dependência para outras pessoas.

Para pensar um pouco nessa questão da dependência e desamparo me ocorre a mãe canguru. A mãe canguru é aquela que carrega o filho literalmente dentro de si, não o deixa desbravar o mundo. Trata o filho como um eterno bebe e frente a qualquer dificuldade seu primeiro intuito é joga-lo para dentro da bolsa. Nesses casos, tanto para a mãe quanto para o filho, a casa é o único lugar seguro.

Prefiro pensar na mãe coruja, que já é carinhosamente conhecida por todos. Para a mãe coruja o zelo e proteção se da pelo o olhar, mesmo que distante. Quando percebe o perigo, agirá com agressividade se necessário. Mas saberá a hora de retornar ao galho. Ela observa os filhotes aprenderem a voar e intervem quando necessário. O filhote sabe que não esta sozinho, mas não exige que a mãe faça por ele. Afinal, ah de se responsabilizar também os filhos dependentes, ao contrário do que as mães se queixam, nem sempre a culpa é da mãe! Deixemos as culpas de lado e façamos valer as responsabilidades. De culpas já sofremos demais na vida!

Ser mãe não é instinto, inclusive deixamos ele em segundo plano desde o momento que o ser humano aprendeu a falar. Ser mãe é um desafio diário, é relembrar a condição de filha, é errar tentando acertar, é acertar sem se dar conta. Ser mãe é fazer presença, e também saber se ausentar. Por isso ser mãe é a arte do nem tão perto que sufoque, nem tão longe que abandone.

Ser mãe é uma função! Qual? Dar vida! Tanto a fisiológica como a psíquica, possibilitando que o filho possa criar uma imagem unificada de si, achando um lugar no mundo, saindo da condição de pura extensão da mesma. Enquanto a vida só gira em torno da mãe, não teremos uma vida própria, mas a vida dela.

Mães tem defeitos não porque são mães, mas porque são humanas. Quem sabe o defeito que de fato é mais frequente em uma mãe é achar que tem de dar conta de tudo sozinha. As mães cangurus sofrem mais disso.

Se seu filho se queixa de você, não se preocupe! Esta para nascer o filho que acha que tem a mãe que gostaria. Compreender e admirar a mãe pelo o que ela é e fazer proveito disso vem com a sabedoria que apenas o tempo dá. Você também teve o seu…

Parabéns as mães, vocês sem dúvida merecem este dia..

Eduarda Renaux

Martírios de Domingo

PORQUE DEPRIMIMOS NO ANOITECER DE UM DOMINGO…

Se pudêssemos fazer uma previsão, provavelmente a maior parcela da população no domingo compartilha da escuridão, da imensidão negra que encena a noite que vai chegando. Nem mesmo as estrelas iluminam a vastidão dos pensamentos e da angústia que cada um carrega no peito.

Por que será tão difícil sobreviver a um domingo que se encerra? Alguns em uma recusa de que o final de semana acabe, elegem essa noite para não dormirem. A insônia da sétima noite. Praticamente viram a noite na esperança mal-sucedida de estender a folga. Digo que é mal-sucedido pois começaram o expediente mais cedo do que o necessário ao invés de prolongar o final de semana.

Desejando não se deparar com o retorno das atividades e responsabilidades da semana, os humanos são especialistas em contradições! Pois é justamente ai que começam a arquitetar as pendências e compromissos da semana antes mesmo de seu início formal. Como o pensar é infinito e tudo pode, vamos ainda mais longe e fazemos um balanço de como estamos nos saindo na vida! E é claro que achamos os mínimos detalhes que podíamos ter feito melhor, que deveríamos ter realizado de forma diferente.

Nessa hora o caminho esta dado: Fantasiamos nossa melhor versão sonhando com a capa da revista de renome que estaremos, o príncipe encantado que conheceremos, os filhos prodígios que colocaremos no mundo, o corpo perfeito que teremos com a dieta que obviamente começará na segunda-feira, as fortunas que próprio negócio irá render.

De repente, naquele súbito desespero, percebemos que para isso precisaremos botar a “mão na massa”, lembramos dos limites reais da vida, da bronca do chefe na semana anterior, no descontentamento do cliente com o serviço prestado, nos problemas de relacionamento que andamos enfrentando nos últimos dias, no mercado competitivo e voraz que enfrentamos. Entramos em pânico, em terror. E para certificar o quão mal estamos, rebobinamos ainda mais a fita e lembramos dos momentos mais árduos, conflituosos que passamos na nossa história e tudo que poderíamos ter feito melhor.

Excessos de pensamento dessa ordem é uma covardia especialmente humana. Digo covarde pois o passado não será mudado e o futuro não poderá ser executado na hora de dormir. Ora, sabemos disso. Mas também sabemos que durante a semana não teremos tempo para pensar nisso. Quem sabe o domingo, seja por excelência o dia de pensar na vida e por isso difícil sobreviver. Mas pensar na vida não deveria ser tanto sacrifício…então o que se passa?

Pois bem, para falar do domingo a noite é necessário lembrarmos da sexta-feira a noite! Essa sim é uma armadilha que só nos damos conta que caímos dois dias depois. Ninguém faz retrospectivas após o expediente diluído na cervejinha ou no bate papo com amigos. A sexta-feira feiticeira cria uma ilusão de que a próxima semana será um recomeço e que não existe com o que se preocupar, apenas descansar e celebrar. Partilhamos de uma sensação de onipotência, de indestrutibilidade, de força heroína. Não por acaso as fatalidades acontecem nos finais de semana.

O martírio do domingo é proporcional ao colorido da sexta-feira. O que certamente é nosso equívoco é o nosso extremo. Tudo ou nada! Não pulverizamos, diluímos nossos dias. Pensar não significa cobrar, punir, cair em martírio. A vida é um caminho que passa pelas mais diferentes paisagens, assim como a semana lembra a execução, a sexta é propícia a diversão e o domingo convida a reflexão.

Apenas aprecie com moderação!

Quem Tem Boca Vai(a) Roma

A antiga expressão “quem tem boca vai a Roma” já ajudou alguns temorosos as novidades a se orientarem em meio a multidão. Quando utilizamos esse dito popular, certamente nos referimos de que quem fala chega ao lugar que for. Não se acanhe! De pergunta em pergunta, você chega lá!

Mas na verdade a expressão original é “quem tem boca vaia Roma“! O verbo não é ir, mas vaiar! Isso porque os impostos na antiga Roma já eram bastante acentuados e era comum que a população utilizasse o dito como forma de revolta.

Esse deslocamento de “vaia” para “vai a” não é só uma questão de fonética, mas de adequação a uma cultura que esta em constante transformação. Provavelmente vaiar Roma já não condiz com nossos tempos e a possibilidade de mobilidade tem seu destaque maior!

Porém, tem um elemento comum as duas expressões que dizem respeito a voz, ou seja, quem tem voz se faz ouvir! Seja pela via da reivindicação, seja pela via do conhecimento. No dia 16 de abril, comemora-se o dia internacional da voz! Essa data não poderia passar “muda” nesse espaço e é através desse dito popular que pretendo aqui prestar minha homenagem.

Objetivamente falando, a voz humana é o som emitido através das cordas vocais para falar, cantar, rir, chorar, resmungar. Enfim, pode ser desde um som orgânico até a forma mais simbólica de relação com o outro.

Provavelmente não lembramos, mas quando bem pequenos fazíamos muitos sons estranhos e cabia a quem se ocupava de nós traduzir o que cada som representava. De um som sem grande significado, os pais dão voz ao bebe, colocam um sentido, uma linguagem. Sendo assim, voz é mais que som, mas uma forma fundamental de relação com o outro.

Feito mágica, temos a sensação de onipotência pois todo o desejo é traduzido. Não por acaso algumas crianças sofrem da sensação de que pensam em voz alta, pois ainda carregam o que restou dessa primeira etapa da vida. Me lembro que quando criança sempre perguntava para minha mãe diante de uma comida estranha se eu gostava ou não daquilo. Como a resposta era sempre sim, comecei a constatar de que algo estava errado. Ela não poderia saber tudo, cabia a mim provar e tirar minha conclusão.

Com o tempo, não precisamos mais que alguém interprete nossos “ruídos”, nossas dúvidas, podemos falar por si só. Porém não raro, percebemos que essa posição mais primitiva permanece. O pedido é que adivinhem o pensamento, o que sentimos. A interpretação é via feição, pelo olhar e não pela palavra. Ou até mesmo a espera de que o outro fale por nós. No trabalho isso é frequente, nossas insatisfações com uma empresa buscam na figura de alguém um “porta-voz”.

Na etapa adulta ter voz é ter vez, é contornar limites, ter posição ativa na vida. Quem tem voz se revela mais, clareando para si e para o outro onde mora o desejo, seja ele insatisfeito ou impossível. Não ficamos no aguardo que o outro atribua significados por nós. Falamos em nome próprio.

A perda da voz implica em uma série de complicações, como sensação de não pertencimento, aprisionamento dos próprios ideais, dificuldade de autonomia e confiança. E problematizando o hoje, podemos pensar que cada vez mais, o pedido é de calar qualquer manifestação daquilo que se expressa em nós. Não queremos saber o que as crianças nos dizem com sua agitação, não queremos saber de nossas próprias tristezas ou oscilações de humor. Queremos silencia-las.

Se ao perder sentimos dor e a necessidade de se recolher é porque isso é um recurso psíquico importante para a restauração do eu frente a um objeto perdido, fenômeno que damos o nome de luto. Mas facilmente buscamos a medicação, antes mesmo de escutarmos no que implicou essa perda em nossas vidas. Ouso dizer que a vida é uma série de pequenos lutos e novas conquistas.

Se por um lado, o pensamento pode ser um convite ao “jogo de adivinha”, por outro tem os guardiões do pensamento, pensam em tudo e não revelam nada. Já dizia Drummond, “Há um certo gosto em pensar sozinho, é ato individual como nascer e morrer.” Sendo assim, o pensamento é intimo, privado. Cabe a nós saber quando convidar ou não o outro a participar do que pensamos. Convidar o outro a fazer parte de nosso universo individual é sair da solidão pensativa e ir rumo a novos destinos.

Dar voz não se trata apenas de falar, mas de possibilitar que aquilo que habita em cada um possa se revelar de alguma forma que não através de sintomas. Consequentemente, a fala flui. Quando o sujeito dá voz aquilo que adormecia em si mesmo, sua posição diante da vida se modifica. Nos apropriamos de uma liberdade única.

Para aqueles que a vida é uma arqueologia de problemas, uma análise é construir e resgatar voz para soluciona-las. Atualmente penso que “Quem tem boca e um analista/divã vai(a) a si próprio“. Por um lado ficamos mais críticos a nossa forma de se posicionar no mundo (vaia), ou seja, nos damos conta que pagamos preços altos demais por nossa neurose. Por outro, temos acesso a caminhos jamais desbravados por nós (vai a). Freud já dizia que uma análise se destina a dar ao paciente uma informação para si mesmo, que é pertinente, que lhe pertence inteiramente, e da qual não tem consciência. 

Nessa semana da comemoração do dia mundial da voz, desejo que todos possam encontrar os melhores recursos possíveis para exerce-la na vida!

Queria Sorvete mas era Feijão

Quem já não abriu o freezer em busca de sorvete e teve uma grande decepção ao encontrar o almoço da semana no pote branco de tampa azul/vermelha? Mas pelo visto não é só nas embalagens de nosso freezer que nos deparamos com surpresas!

O ocorrido com a marca Ades deixou de cabelo em pé muitos daqueles que contavam em sua mesa o saudável suco de soja. Deixavam seu refrigerante de lado, cheios de aromatizantes, corantes e açucares para saborear uma opção bem mais nutritiva com uma imagem de família feliz!

Meu objetivo aqui não é criticar ainda mais a marca Ades, afinal a mídia e redes sociais como um todo já se encarregaram disso. E não se engane! A Ades é só a marca da vez, pois são inúmeros os exemplos de quebra de confiança entre marcas e consumidores. Um exemplo que sempre me deixa boquiaberta são os pães integrais. Você deve olhar os valores nutricionais atrás da embalagem para se certificar que são integrais mesmo, isso porque uma pequena porção de trigo integral já é suficiente para se dizer integral. Será que não seria mais honesto colocar na embalagem: Pão semi-integral, então?

Mas a questão que proponho aqui é que tudo isso é reflexo de um mal-estar onde a embalagem não condiz com o conteúdo. Amplio isso para as relações humanas, já que estas são as que mais me interessam pensar.

Vivemos um tempo em que o discurso preconiza o “querer é poder e você pode ser tudo o que você quiser“. E quanto mais se comercializa a felicidade, mais antidepressivos são vendidos. Quanto mais se dita o ideal de beleza, mais a obesidade se torna um problema de saúde. Mais divórcios, mais trocas de emprego, mais mais. E onde tem excesso, tem sofrimento. A diferença entre o idealizado e o adquirido, mostra uma sociedade que vive o excesso e em consequência o sofrimento. Do que tanto sofremos, afinal?

Volto para o início desse texto: queríamos uma coisa e no lugar encontramos outra, e temos uma fragilidade tremenda em reconstruir aquilo que se quebrou na diferença do almejado e o encontrado. O problema em si não é a frustração, mas essa ser tomada como fracasso e perda irreparável.

Como vivemos um momento da história em que perder esta fora de qualquer plano, vamos trocando de parceiro em parceiro, de emprego em emprego, de amigo em amigo, para não se frustrar e não mostrar nenhuma falha para o outro. Tento explicar: Existe um tempo específico cronológico e subjetivo para começarmos a lidar com as falhas recíprocas que vão aparecendo em qualquer relação. Todo o início de namoro é perfeito, todo o início de emprego é novidade e aprendizado. Vai chegando o momento, que só o tempo vai possibilitando, que são essas trocas de limitações. Se consigo cortar o vínculo antes que as limitações apareçam, logo sou um eterno potencial, um projeto piloto perfeito, “só não consegui, pois não tentei.”

Abaixo uma tira que achei de uma delicadeza e de uma verdade que merecia ser compartilhada…

Sair do anonimato penso que se trata disso: Correr riscos, apostar! O laborioso não é o aparecer em si mas o que fazer com aquilo que aparece, com aquilo que não controlamos…o previsto e o imprevisto.

Essa medida trata-se justamente da possibilidade que temos de decepcionar e ser decepcionado, surpreender e ser surpreendido. Saindo do campo apenas do idealizado corremos menos riscos de sermos confundidos socialmente com um pote de sorvete numa prateleira, e nos tornamos com mais jeito e cara de gente.

Meio Triste, Meio Feliz

UM RECORTE SOBRE DESPEDIDAS, PASSAGENS, CONQUISTAS E RENÚNCIAS….

Era o último dia de atendimento a uma criança. Ela estava bem, os conflitos estavam na dinâmica familiar. Abordado isso com a família, era chegado então o momento da despedida do jovenzinho. Não era uma despedida fácil, afinal tínhamos construído algumas histórias, passado alguns impasses juntos.

Eis que ele ficou muito brabo ao saber que era o momento de separar-se, de dizer adeus. Recusava-se a falar uma só palavra. Digo que se não era possível me falar o que o deixara tão brabo, quem sabe poderia desenhar o que estava sentindo. Ele desenha dois olhinhos e no lugar da boca um desenho semelhante a um “S”.

Retorno dizendo que não havia entendido, que precisava que ele me explicasse o que isso significava. Para minha surpresa, ele fala: “ estou meio triste e meio feliz“. Meus sentimentos não eram diferentes, mas ele traduziu com uma sagacidade que é própria das crianças.

Por um lado estava feliz por ele estar bem, mas por outro também estava triste com a despedida. Ele estava indo para a primeira série, uma maravilhosa passagem, mas também a coragem do pequeno em deixar a creche para trás. Por isso, esse texto tem como intuito transmitir, que tanto para os pequenos como para os grandes, a vida a fora será assim mesmo.

No cotidiano a recorrente pergunta:
Como anda a vida?
Mais ou menos!

Quem não ouviu ou disse essa frase nas últimas 24 horas? A tal da felicidade plena e constante é uma miragem no deserto. Mas acredito que miragens já salvaram algumas vidas, bem como, já condenou algumas também.

Se temos a felicidade como um horizonte, sempre distante mas potencialmente alcançável  a jornada é longa mas pode ser de bom proveito. Nessa caminhada sabe-se lá quantos momentos felizes teremos até a chegada na miragem da felicidade. Na reta final, podemos concluir que era uma ilusão, mas os encontros que a vida ofereceu foram tantos que a frustração provavelmente não acarretará uma severa depressão. No máximo o luto dessa ilusão, o que já é dolorido o suficiente.

Alguns por saberem que são miragens, recusam-se a caminhar. Criam raízes na areia, pois já que a morte é certa não teria cabimento investir. Os melancólicos sabem muito bem disso. Sabem da concretude da vida e dificilmente são tomados por grande tragédias, pois de trágico já basta a vida. Outros sentem-se tão enganados pela miragem, que desiludidos abortam os planos e ficam no eterno ressentimento da felicidade que lhes foram negada. “Fiz tanto e não fui reconhecido, fiz tanto e não alcancei os resultados que esperava”.

Caminhar cansa, ficar parado dá tédio, e cada passo dado é uma paisagem que se deixou para trás. Deixar para trás é um dos custos mais caros da vida. Acredito que o “mais ou menos” é aquela descrença misturada com esperança. Quando se prolonga demais, é também uma procrastinação. Não faz nada pelo “mais” pois pode ficar com “menos”. O mais anula o menos, o menos anula o mais.

“Meio triste, meio feliz” dessa forma é muito diferente do “mais ou menos” como o jovenzinho nos apresenta. Não existe absolutamente nada de errado em também ficar triste com as boas passagens. Conquistar novos horizontes não é garantia de felicidade, pois também implica em uma perda, em uma mudança, por vezes, assustadora. Apenas estamos avançando na jornada.

Por isso quando alguém lhe disser que só tem motivos para comemorar e que a tristeza não tem lugar, saiba que a vitória é proporcional a renúncia que se fez para conquista-la. Logo temos sim, todo o direito de estarmos felizes e tristes simultaneamente.

Tristes e felizes, avante!!

O Vespeiro

Ando atenta às polêmicas. Ando atenta às opiniões estabelecidas, rígidas. Ando atenta às trocas de ofensas devido às diferenças. Ando atenta aos críticos e mensageiros do apocalipse. Mas ando calada, não quero mexer no vespeiro.

E por que não? Porque quem tem a crença estabelecida é surdo, é cego, mas não é mudo. É surdo porque só ouve as opiniões que fortalecem seu ponto de vista. É cego porque só enxerga os fatos que lhe dão razão. Mas não é mudo porque anuncia aos sete ventos seu discurso revolto, e não medirá palavras para destituir aquele que ousa pensar e então verbalizar o diferente.

De fato, há certos temas com os quais não se mexe. Argumentos até a exaustão e você é vencido pelo cansaço. Desculpe Senhor (a), era apenas uma opinião!

Me pego boquiaberta com aqueles que se sensibilizam com a morte, mas desejam que morram aqueles que não sentem o mesmo. Tem momentos em que seu sangue ferverá, você esboçará uma resposta. Mas em vespeiro não se mexe, apaga-se letra por letra.

Para falar, o outro tem que estar disposto a ouvir. Se não, salve-salve os monólogos!

Após apagar letra por letra, sigo letra após letra, esboçando um devaneio de quem escolheu não mexer no vespeiro e ainda assim sair da mudez.

Apostas que valem um Futuro

Nosso papel enquanto geração esta ligado desde um sentido mais amplo, onde fazemos parte de uma sociedade, e como agentes sociais, temos o dever de promover a diferença em meio as repetições mortíferas que testemunhamos no nosso mundo. A pobreza, a poluição, os abusos, a violência. Todos nós temos alguma ligação com isso e um papel de intervenção.

Num sentido mais específico, estamos também, inseridos em uma família, carregamos o sobrenome que nos antecede. Nossa história começou muito antes de nosso nascimento e não acabará no dia de nossa morte. Por isso, os filhos são a promessa da imortalidade, pois sabemos que as próximas gerações irão carregar as marcas que deixamos, os desejos não realizados.

Fazer parte de uma geração não é simples, carregamos muitas vezes fardos pesados e histórias difíceis. Não raro os filmes que mais lotam as bilheterias e premiações de cinema são baseadas em histórias de superação. Algumas ficcionais e outras embasadas em fatos reais. Na minha opinião ambas se equivalem, pois toda a ficção carrega verdades e toda história real é também uma ficção.

Nossas histórias são atravessadas por uma série de fantasias e versões, mas nem por isso menos verdadeiras. Os fatos batem com a realidade? Tratam-se de recordações não muito confiáveis? Pouco importa! Operam em nós como se fossem o que há de mais verdadeiro. Algumas marcas são tão doloridas que somos acometidos pela sensação de que são insuperáveis. Sentimo-nos aprisionados pelas impressões que deixaram.

E por isso nada melhor do que tomar emprestado as histórias que gostaríamos de viver. Através da tela do cinema, deslizar na vida. Se existe um elo comum nessas histórias, diria que não reside apenas na força de vontade do protagonista que tanto sofre. Mas na aposta que alguém fez nesse personagem. Exemplo: O papel do Fonoaudiólogo no filme “O discurso do Rei”; O papel da torcedora fanática no jovem jogador de futebol americano no filme “Um sonho possível”; ou até mesmo o burrinho na vida do Shrek. Afinal, não esqueçamos que o Burrinho sempre duvidou dessa “panca” de mau que o Ogro encarnava, ou seja, de burro não tinha nada…

Um filme em cartaz do momento é Cloud Atlas, na versão em português “A viagem”. Simpatizo com o título original. E só tenho uma palavra a dizer: assistam! Para aqueles acostumados aos 100 minutos habituais e confortáveis de filme, preparem os ânimos e disposição pois “A viagem” conta com exatos 180 minutos.

O filme condensa passado, presente e futuro em torno de uma mesma problemática: Quando fazemos do outro o objeto de nossas necessidades. O tema é antigo, atual e tem perspectivas para continuar moderno por muito tempo. Mas a reflexão sobre a prevalência de uma raça superior e os abusos que frequentemente testemunhamos, deixo para uma próxima.

Vou me deter a frase que marcou meus pensamentos durante as duas últimas semanas: “Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculadas a outras, passadas e presentes. E de cada crime e cada ato generoso nosso nasce o futuro.”

O ato de generosidade citado, em minha leitura, se trata das apostas que decidimos fazer ou não nas pessoas. Esse texto não será sobre aquele que sofre, mas sobre pessoas que frente ao sofrimento ou condição vulnerável do outro, investem em uma possível mudança, um caminho diferente. E exatamente por isso, é dado a chance de esse alguém renascer e fundar um futuro.

Para o suposto jovenzinho fraco que sempre se percebe sem condição de enfrentar as dificuldades da vida, o que vale é passar-lhe a mão na cabeça ou dar-lhe outro lugar? Dar-lhe coragem para enfrentar e não incentivar ainda mais seu medo. E a menina, que vai mal na escola, rotulada de “tolinha” pelos próximos? Será mesmo frágil cognitivamente ou de tão desinvestida não consegue vislumbrar um futuro diferente para si?

Me pergunto quantos estudantes foram salvos por colegas de classe que viram neles algo que ninguém mais enxergava. Fala-se tanto de Bullyng, mas colegas de sala não apenas rebaixam, mas também apostam. Assim como aqueles professores que mais nos marcaram.

O ato generoso, desse modo, não esta apenas nas doações para o abrigo do bairro. O ato generoso pode ser emergencial dentro de casa, no vizinho, nas panelinhas de quinta-feira, no local de trabalho.

As vezes tenho a impressão de que subestimamos as pessoas, achamos que elas não possuem recurso ou possibilidade de reinventar-se. Devem ficar desde onde pararam. Mas quem sabe precisem de um incentivo, de um novo olhar, de uma diferença e não de alguém que faça por elas. Ou seja: Apostar na possibilidade que cada um tem de dar conta de sua própria vida e por vezes iluminar isso quando estiver escurecido, isso é ato  que pode fazer nascer um futuro para alguém.

Para os que possuem a convicção de que apostar é proteger, diria que a vida não irá proteger o filho, o amigo, o pai, o irmão protegido. O que seremos quando crescermos? Não seremos apenas uma profissão, espera-se que mesmo diante de falhas e dificuldades, sejamos grandes. E tornar-se grande num lugar diminuído é particularmente difícil

Acredito que somos capazes de mudar a direção de muitas vidas, basta nos atentarmos a isso.

Não me siga, Eu também estou Perdido

As férias escolares são tão duradouras que poucos alunos chegam ao primeiro dia de aula sem aquele sentimento de saudade e expectativa. Rever os amigos, conhecer os novos professores, a nova sala de aula, as novas disciplinas, e principalmente, ver a concretude de seu avanço na vida. Afinal não se trata apenas de um novo ano, mas uma nova série que carrega um novo lugar na multidão escolar.

Os jovenzinhos ficam mais próximos de ser adolescentes ou até mesmo adultos. Com frequência se goza dos baixinhos que estão nas turmas anteriores, e assim consecutivamente. Os parâmetros de que esta se desenvolvendo ou se aproximando de algum lugar é mais palpável. Há quem inveje isso nos dias de hoje…

Existia um tempo em que a possibilidade de escolha era para poucos ou para quase ninguém. O casamento já estava arranjado até mesmo antes dos noivos nascerem. Ao primeiro filho cabia a profissão de padre, ao segundo de médico. Se explodisse uma guerra, nenhum homem escapava. As mulheres se ocupavam da maternidade. Tudo era limitado, inclusive a classe social. O destino estava selado por Deus, pelo padre, pelo pai, pelo professor, pelo chefe.

Esse cenário nada nos parece familiar hoje. Temos autonomia de escolher desde as pequenas coisas da vida até as mais significativas. Criamos a nós mesmos constantemente. Mas como nada vem sem consequência, o fato de gozarmos de muita liberdade faz com que recaia sobre os nossos ombros o peso do sucesso e fracasso de nossas escolhas.

Se podemos ser aquilo que queremos, como nos sentimos quando não gostamos do que somos? Provavelmente os fracassados do agenciamento da própria vida. O problema não mora na liberdade, mas sim na representação de que liberdade significa felicidade imediata. Mas escolher também significa frustrações, arrependimentos, renúncias, paciência em suportar o tempo que as coisas levam.

As possibilidades de escolha hoje são tão vastas que o cenário mudou. A questão não esta na liberdade, mas no que escolher. Não raro, ouço pessoas absurdamente desesperadas por perguntar o que deveriam fazer, que caminho seguir. Sentem-se desamparadas. É a famosa frase: Não me siga, eu também estou perdido. De modo geral, todos sentem um pouco esse mal-estar.

Por que o ano novo pode ser especialmente importante nos nossos tempos? Acredito que para quem esta perdido, a virada de ano pode significar um ponto de referência. Balanços do ano, metas para o próximo. E ai tudo e qualquer coisa esta valendo…

Na maioria das vezes pensamos muito mais nas mudanças de hábitos do que nas mudanças em nós mesmos. E porque isso pode ser complicado? Porque a ordem esta um tanto quanto inversa. A partir do momento que mudamos nossa posição frente as situações, a mudança de hábito vira uma consequência que não requer muito esforço. Então antes de fazer planos para as mudanças de hábitos e comportamentos, acho que vale nos questionarmos da importância deles na nossa vida. E isso é trabalho não só para um ano, mas para o tempo que levar. Mas nada impede que esse ano seja seu começo…

Adoramos celebrar a virado do ano, mas a bem da verdade é que ficamos horrorizados com o novo! Pois assusta…mudanças requerem romper com algo antigo e produzir algo diferente. E do diferente temos pouca experiência, é necessário recomeçar. Quantas oportunidades não topamos por medo do que a novidade irá exigir. Pedir um prato diferente ou ir no garantido? Por isso, muitas vezes, perder-se é se encontrar pois possibilita desconstruir-se e se remontar de outra forma.

Mesmo com maior autonomia, tornar-se protagonista e autor da própria vida nos dias de hoje continua sendo um desafio. Num mundo nada pessoalizado, o que vale é o terceirizado. Queremos um especialista que nos diga o que fazer, que nos diga como educar os filhos. Um olhar de fora, pode mostrar aquilo que não queremos ver, é sedutor transferir o trabalho para um outro. Mas como é saboroso quando nos beneficiamos dos olhares, construindo por si próprio o caminho. Não se trata de seguir, mas autorizar-se a caminhar.

Desejar felicidade para esse ano que se inicia? Eu desejo bússolas. Que possamos nos orientar a partir de nossa bagagem, história, ideais. Mesmo com duras quedas no caminho. Pois só tropeça e cai quem caminha. Quem caminha, sai do lugar.

Delírios Noturnos

Em um dia conturbado, nada como dormir e torcer pelo recomeço. A esperança é que no próximo dia possamos apagar as lembranças de um dia ruim, com a possibilidade de acordar e não esquecer de quem somos.

Um comediante que sou fã, Jerry Sienfield, fala que acordar é como voltar a ser bebe. Mal conseguimos caminhar ao banheiro, vamos cambaleando, tropeçando pelos móveis no caminho e falar é o pior desafio, gaguejamos, esquecemos palavras e as que saem são sem sentido. Desaprendemos tudo aquilo que nos foi ensinado durante o dia.

Uma noite de sono é mais do que um divisor do dia para o outro, é o momento introspectivo mais intimo. Os que sofrem de insônia sabem muito bem o que pode significar se entregar aos aconchegos do travesseiro. O que pode acontecer se deixar-se desligar? Dormir é perder o controle racional, para ter acesso àquilo que conhecemos, sem saber. De fato pode ser apavorante!

Os sonhos vem lembrar aquilo que o sono prometeu esquecer! As lembranças, os conflitos, as preocupações, as aspirações e desejos condensados e deslocados num delírio noturno. Quando nos recordamos deles, é difícil passar imune durante o dia. Acordamos com a sensação de que se tratou de algo exterior a nós, algo que foi injetado em nossa mente enquanto dormíamos, um tanto quanto sem sentido. Tanto isso ocorre, como facilmente se associa sonhos com premonição, como se fossemos os enviados divinos para a enunciação do apocalipse. Mas não é disso que se trata…

Ao descobrir o inconsciente, a obra mais importante de Freud é A interpretação dos sonhos. Através da clínica, ele revela a importancia do sonho no processo psíquico de cada um de nós. Não é místico, não é coletivo, não é apenas processamento dos acontecimentos diurnos. É uma construção sem censura e por isso tão surreal aos nossos olhos.

Recordo-me de uma Jornada que fui em que a palestrante conta sua experiência no posto de saúde de sua cidade e sua aposta nos laços afetivos. Ela compartilha ao final que na noite anterior sonhara com a frase: http://www.amor.com !! Nessa hora alguns se aventuraram no “ponto” e no “amor”. Eis que a psicanalista discorda e coloca: O que me ocorreu foi que o que vim aqui dialogar com vocês foi os desafios de trabalhar com a rede de saúde. Quanta delicadeza!! Sim, o significante era a rede (não virtual, mas de saúde).

Tenho uma amiga psicanalista que sempre me fala que quando esta perdida, torce para sonhar, pois os sonhos são como bússolas que falam de nossa posição. Sempre dou risada, pois acho uma fala muita verdadeira. Por mais que sejamos acometidos, muitas vezes, por sonhos de plena angústia, eles sempre estão no campo da possibilidade, de nos orientar e auxiliar a seguir nossos ideais, ou minimamente a mostrar aquilo que ainda temos que avançar.

Hoje, desconfio quando se quer dormir para apagar, pois o sonho vem lembrar aquilo que a rotina te faz esquecer.

A bicicleta e UMA vida a DOIS

Hoje meus avós completam sessenta anos de casados. Como moram no Rio de Janeiro, a prestação de uma homenagem fica a distância. Bendita seja a tecnologia do telefone. Claro que ver a pessoa, tocar, olhar nos olhos, tem um sabor especial. Mas acredito que a voz e as palavras são os ingredientes essenciais para fazer presença.

Mas um casamento não. É literalmente no tato do dia-a-dia, na convivência, na cumplicidade e, diga-se de passagem, na paciência. Poucas coisas na vida são tão complicadas como uma vida a dois. Queremos ser UM o tempo todo! Fazer as mesmas coisas, ter os mesmos gostos, recusar a diferença, sem nenhum terceiro. Acredito que alguns casamentos estremecem após ter filhos por isso. Um novo membro nessa relação passa a ser insuportável. Mas em geral, casamentos sobrevivem a esses tipos de simbiose, sobrevivem até aos delírios de ciúme. Mas viver uma vida inteira a DOIS, juntos, porém tendo sua singularidade é para poucos. Seria como os olhos poderem ver, o coração sentir e suportar o que se viu e o que se sentiu.

Minha mãe que estava lá essa manhã me conta que hoje Berto acorda e fala para Julia: Nunca imaginei que iria viver tanto. Ela responde: eu também não. Nas trocas carinhosas, ele diz que só ficaram tanto tempo juntos, pois nunca achou uma mulher tão bonita como Julia e Julia diz que apenas ela poderia suportar as manias de Berto. Ali se fundou o resumo de uma relação entre homem e mulher.

No fundo o que uma mulher deseja é ser amada, ser a mais bonita aos olhos do parceiro. Ela sobrevive aos mais fatídicos acontecimentos desde que se sinta olhada, quista pelo marido. E por isso comumente vemos os famosos “pitis” tipicamente femininos, em busca de um lugar desejado na relação. As feministas que me perdoem, mas isso não tem a ver com igualdade dos sexos, mas a diferença necessária para que um casal seja de fato um casal e não duas pessoas que rivalizam em todos os aspectos. Ponto para Seu Betinho, acertou em cheio o que a Dona Julia poderia querer ouvir: nunca achou alguém mais bela!

Julia fala uma verdade, quando diz sobre “aguentar as manias”. Para além do apego a rotina e a organização que muitos homens exercem, o que escutei dessa frase é que uma mulher precisa dar lugar ao seu marido. Nada mais devastador para uma relação que mulheres que destituem seu companheiro, não dão espaço para que ele brilhe de alguma forma e sinta-se com a virilidade necessária. De fato, por mais que minha família sempre buscasse mais as opiniões da matriarca, minha Vó nunca excluiu meu Vô da cena. E isso testemunhei muitas vezes (não por telefone, é claro!).

Devorei livros de psicologia para tentar entender como se dá uma relação amorosa (doce ilusão tentar teorizar a prática! É canoa furada!), mas minha Avó mata a charada na ligação quando pergunto: Qual a receita desse casamento? Eis a resposta: Amor e respeito. Ao contrário do que se imagina, o amor não passa pelo corpo perfeito, pelos bens financeiros (não só, pelo menos). Para durar, a ponto do corpo decair, o dinheiro se acabar e ainda permanecerem juntos, uma mulher deve se sentir amada com palavras e o homem sentir-se respeitado através de ações. Na minha opinião, dessa forma, ambos sentem-se amados e respeitados.

Se tem uma recordação que sempre carrego comigo, são as cenas de meu Avô andando de bicicleta. Quando eles ainda moravam na Gávea-RJ, lembro-me de uma cena em que andaram juntos no Parque da Gávea. Sempre achei bicicleta e guarda-chuva objetos que me parecem representantes dos apaixonados. Bicicleta, hoje sei porque. Espero um dia lembrar da história do guarda-chuva!

Obrigada queridos Avós, pelas bodas e palavras de diamante!