PORQUE DEPRIMIMOS NO ANOITECER DE UM DOMINGO…

Se pudêssemos fazer uma previsão, provavelmente a maior parcela da população no domingo compartilha da escuridão, da imensidão negra que encena a noite que vai chegando. Nem mesmo as estrelas iluminam a vastidão dos pensamentos e da angústia que cada um carrega no peito.

Por que será tão difícil sobreviver a um domingo que se encerra? Alguns em uma recusa de que o final de semana acabe, elegem essa noite para não dormirem. A insônia da sétima noite. Praticamente viram a noite na esperança mal-sucedida de estender a folga. Digo que é mal-sucedido pois começaram o expediente mais cedo do que o necessário ao invés de prolongar o final de semana.

Desejando não se deparar com o retorno das atividades e responsabilidades da semana, os humanos são especialistas em contradições! Pois é justamente ai que começam a arquitetar as pendências e compromissos da semana antes mesmo de seu início formal. Como o pensar é infinito e tudo pode, vamos ainda mais longe e fazemos um balanço de como estamos nos saindo na vida! E é claro que achamos os mínimos detalhes que podíamos ter feito melhor, que deveríamos ter realizado de forma diferente.

Nessa hora o caminho esta dado: Fantasiamos nossa melhor versão sonhando com a capa da revista de renome que estaremos, o príncipe encantado que conheceremos, os filhos prodígios que colocaremos no mundo, o corpo perfeito que teremos com a dieta que obviamente começará na segunda-feira, as fortunas que próprio negócio irá render.

De repente, naquele súbito desespero, percebemos que para isso precisaremos botar a “mão na massa”, lembramos dos limites reais da vida, da bronca do chefe na semana anterior, no descontentamento do cliente com o serviço prestado, nos problemas de relacionamento que andamos enfrentando nos últimos dias, no mercado competitivo e voraz que enfrentamos. Entramos em pânico, em terror. E para certificar o quão mal estamos, rebobinamos ainda mais a fita e lembramos dos momentos mais árduos, conflituosos que passamos na nossa história e tudo que poderíamos ter feito melhor.

Excessos de pensamento dessa ordem é uma covardia especialmente humana. Digo covarde pois o passado não será mudado e o futuro não poderá ser executado na hora de dormir. Ora, sabemos disso. Mas também sabemos que durante a semana não teremos tempo para pensar nisso. Quem sabe o domingo, seja por excelência o dia de pensar na vida e por isso difícil sobreviver. Mas pensar na vida não deveria ser tanto sacrifício…então o que se passa?

Pois bem, para falar do domingo a noite é necessário lembrarmos da sexta-feira a noite! Essa sim é uma armadilha que só nos damos conta que caímos dois dias depois. Ninguém faz retrospectivas após o expediente diluído na cervejinha ou no bate papo com amigos. A sexta-feira feiticeira cria uma ilusão de que a próxima semana será um recomeço e que não existe com o que se preocupar, apenas descansar e celebrar. Partilhamos de uma sensação de onipotência, de indestrutibilidade, de força heroína. Não por acaso as fatalidades acontecem nos finais de semana.

O martírio do domingo é proporcional ao colorido da sexta-feira. O que certamente é nosso equívoco é o nosso extremo. Tudo ou nada! Não pulverizamos, diluímos nossos dias. Pensar não significa cobrar, punir, cair em martírio. A vida é um caminho que passa pelas mais diferentes paisagens, assim como a semana lembra a execução, a sexta é propícia a diversão e o domingo convida a reflexão.

Apenas aprecie com moderação!