PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

Não me siga, Eu também estou Perdido

As férias escolares são tão duradouras que poucos alunos chegam ao primeiro dia de aula sem aquele sentimento de saudade e expectativa. Rever os amigos, conhecer os novos professores, a nova sala de aula, as novas disciplinas, e principalmente, ver a concretude de seu avanço na vida. Afinal não se trata apenas de um novo ano, mas uma nova série que carrega um novo lugar na multidão escolar.

Os jovenzinhos ficam mais próximos de ser adolescentes ou até mesmo adultos. Com frequência se goza dos baixinhos que estão nas turmas anteriores, e assim consecutivamente. Os parâmetros de que esta se desenvolvendo ou se aproximando de algum lugar é mais palpável. Há quem inveje isso nos dias de hoje…

Existia um tempo em que a possibilidade de escolha era para poucos ou para quase ninguém. O casamento já estava arranjado até mesmo antes dos noivos nascerem. Ao primeiro filho cabia a profissão de padre, ao segundo de médico. Se explodisse uma guerra, nenhum homem escapava. As mulheres se ocupavam da maternidade. Tudo era limitado, inclusive a classe social. O destino estava selado por Deus, pelo padre, pelo pai, pelo professor, pelo chefe.

Esse cenário nada nos parece familiar hoje. Temos autonomia de escolher desde as pequenas coisas da vida até as mais significativas. Criamos a nós mesmos constantemente. Mas como nada vem sem consequência, o fato de gozarmos de muita liberdade faz com que recaia sobre os nossos ombros o peso do sucesso e fracasso de nossas escolhas.

Se podemos ser aquilo que queremos, como nos sentimos quando não gostamos do que somos? Provavelmente os fracassados do agenciamento da própria vida. O problema não mora na liberdade, mas sim na representação de que liberdade significa felicidade imediata. Mas escolher também significa frustrações, arrependimentos, renúncias, paciência em suportar o tempo que as coisas levam.

As possibilidades de escolha hoje são tão vastas que o cenário mudou. A questão não esta na liberdade, mas no que escolher. Não raro, ouço pessoas absurdamente desesperadas por perguntar o que deveriam fazer, que caminho seguir. Sentem-se desamparadas. É a famosa frase: Não me siga, eu também estou perdido. De modo geral, todos sentem um pouco esse mal-estar.

a vida

Por que o ano novo pode ser especialmente importante nos nossos tempos? Acredito que para quem esta perdido, a virada de ano pode significar um ponto de referência. Balanços do ano, metas para o próximo. E ai tudo e qualquer coisa esta valendo…

Na maioria das vezes pensamos muito mais nas mudanças de hábitos do que nas mudanças em nós mesmos. E porque isso pode ser complicado? Porque a ordem esta um tanto quanto inversa. A partir do momento que mudamos nossa posição frente as situações, a mudança de hábito vira uma consequência que não requer muito esforço. Então antes de fazer planos para as mudanças de hábitos e comportamentos, acho que vale nos questionarmos da importância deles na nossa vida. E isso é trabalho não só para um ano, mas para o tempo que levar. Mas nada impede que esse ano seja seu começo…

Adoramos celebrar a virado do ano, mas a bem da verdade é que ficamos horrorizados com o novo! Pois assusta…mudanças requerem romper com algo antigo e produzir algo diferente. E do diferente temos pouca experiência, é necessário recomeçar. Quantas oportunidades não topamos por medo do que a novidade irá exigir. Pedir um prato diferente ou ir no garantido? Por isso, muitas vezes, perder-se é se encontrar pois possibilita desconstruir-se e se remontar de outra forma.

Mesmo com maior autonomia, tornar-se protagonista e autor da própria vida nos dias de hoje continua sendo um desafio. Num mundo nada pessoalizado, o que vale é o terceirizado. Queremos um especialista que nos diga o que fazer, que nos diga como educar os filhos. Um olhar de fora, pode mostrar aquilo que não queremos ver, é sedutor transferir o trabalho para um outro. Mas como é saboroso quando nos beneficiamos dos olhares, construindo por si próprio o caminho. Não se trata de seguir, mas autorizar-se a caminhar.

Desejar felicidade para esse ano que se inicia? Eu desejo bússolas. Que possamos nos orientar a partir de nossa bagagem, história, ideais. Mesmo com duras quedas no caminho. Pois só tropeça e cai quem caminha. Quem caminha, sai do lugar.

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Publicado às 8 de janeiro de 2013 por em Saúde Mental, Vivências cotidianas e marcado , , , .
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