PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

A Vida por um Fio

QUANDO A GESTAÇÃO APONTA UM PERIGO…

Todo o parto deixa a vida por um fio, ora porque marca uma passagem, ora porque cela um discurso, um saber profundo sobre aquele que nasce e sobre aquela que dá a vida. Por um lado, todos nós advimos de um fio de vida, o cordão umbilical. Por outro, a experiência clínica mostra que ele não é garantia da sobrevivência psíquica do bebê.

Com 28 semanas de gestação o bebê já faz caretas, sonha e distingue sons. Com 32 semanas já consegue adquirir uma memória primitiva do que vive e sente. É um grande equivoco pensar que o bebê não participa da vida familiar, dos conflitos da vida da mãe mesmo que dentro da barriga.

gestação      Na tão esperada hora do parto, no lugar de um, nascem dois: Uma mãe e um filho. Diferente de todos os outros psicanalistas até então, Françoise Dolto sensibiliza a importância da gestação e do parto na vida psíquica do bebê. Para nascer, precisamos sobreviver a uma separação que por vezes pode ser traumática tanto para mãe como para o bebê. E para seguir vivendo, sobrevivemos ao que historicizou nossa chegada ao mundo.

Nos casos em que a descoberta da gravidez ou o momento do nascimento do bebê foram de risco real de morte e perigo, a clínica mostra que o campo da vida e da morte,  seguem se confundindo vida a fora.

Zel, tinha queixas de profunda angustia e ataques de pânico. De tão magra parecia desaparecer na poltrona. De tão calada e dependente do outro, parecia se esconder para não ser vista nem escutada.

Em dado momento, ela consegue compartilhar bastante angustiada e entristecida, que sua mãe por temer que o pai atentasse contra o bebê, escondeu a gestação até os sete meses. Zel veio ao mundo, sem vir. Uma barriga escondida que selava um destino: Ela era apenas da mãe e não do mundo. Qualquer terceiro era uma ameaça que colocava a vida de ambas em risco. Após uma infância que dava continuidade a essa neurose familiar, para Zel viver sempre foi ter medo da morte.

O nome Zel foi escolhido a partir conto Rapunzel. Vale lembrar a história original feita pelos irmãos Grimm:

Um casal de mendigos sem filhos que queria uma criança, vivia ao lado de um pomar de uma velha. A esposa, no fim da gravidez, viu uma árvore com apetitosos frutos. Por duas noites, o marido saiu e invadiu o jardim da velha para recolher frutos para a esposa, mas na terceira noite, a velha apareceu e acusou-o de roubo.

O homem implorou por misericórdia, e a velha má concordou em absolvê-lo desde que a criança lhe fosse entregue ao nascer. Desesperado, o homem concordou; uma menina nasceu, e foi entregue à bruxa, que nomeou-a Rapunzel. O nome da planta que o marido roubou.

Sabendo que a puberdade e adolescência marcam a separação do ninho familiar para o campo social, quando Rapunzel alcançou doze anos, a bruxa trancou-a numa torre alta com apenas um quarto no topo.  Quando a bruxa queria subir a torre, mandava que Rapunzel estendesse suas tranças, para subir através delas.

Um dia, um rapaz que cavalgava nas proximidades ouviu Rapunzel cantando na torre. Encantado pela voz, foi procurar a menina. Um dia viu uma visita da bruxa e aprendeu como subir a torre.

rapunzel I

Após algumas visitas do rapaz que realizaram uma paixão, Rapunzel pergunta “inocentemente” para a velha má porque seu vestido estava começando a ficar apertado em torno de sua barriga. Através dessa pergunta ela revela para a bruxa que esta grávida. Na raiva, a velha cortou cabelo de Rapunzel e lançou um feitiço, para que ela vivesse em um deserto. Cortando assim o elo de proteção e para um mundo duro e hostil.

Podemos perceber que as tranças simbolizam esse cordão que apenas assegura a entrada da mãe (mesmo que em sua versão má) em seu mundo, impedindo assim não só a entrada de outros, mas também a sua saída para outros destinos. Quando Rapunzel começa a dar seus passos para o mundo, ela é castigada com a solidão e desamparo.

Sumir do mundo é sua sina! Não existir, existindo!

Não precisamos nascer para já termos uma história, ela começa muito antes do primeiro choro e riso. O “era uma vez” – discurso do outro- funda nosso psiquismo e nossas relações com o outro no mundo.  Antes narrar a vida, somos narrados. Ficar eternamente na proteção da barriga, da torre, da voz do outro é o que verdadeiramente nos põem em risco e deixa nossa vida por um fio.

Reflito: No final da História o rapaz encontra Rapunzel no deserto através de sua bela voz. Ali vivem em família após Rapunzel dar a vida a gêmeas. Sendo assim, a solidão e desamparo foram os preços pagos para nascer para o mundo. É um pouco trágico mas necessário. A dor faz parte do crescimento, assim como, o que não nos mata, nos fortalece para a vida! É impossível dissociar o desamparo e a concretude da vida com a melancolia. Quando passamos a nos descobrir mais solitários no mundo, a tristeza e o luto fazem parte do trajeto. Mas isso não é o destino final, apenas parte do caminho, para quem ousa continuar a caminhar, mesmo que no desconforto do deserto rumo a uma nova miragem.

(Continua…)

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9 comentários em “A Vida por um Fio

  1. Raquel
    15 de fevereiro de 2014

    Sua delicadeza no escrever é única, amiga!
    Belo texto!
    Que tenhamos ousadia de continuar.

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  2. Fran
    15 de fevereiro de 2014

    Adorei! “[…] o que não nos mata, nos fortalece para a vida.” – Quem sentiu isso na pele pode confirmar…Sofia vai ler quando crescer um pouquinho de sua história antes de nascer!
    O texto é incrível! Parabéns!
    Bjs querida!

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    • Eduarda Renaux
      21 de abril de 2014

      Sim Fran, tu vivesse na pele esses fios tenues da vida!!
      E fizesse uma passagem linda!!
      Admiro muito teu laço com a maternidade!!
      Quero te ler quando crescer!
      Abraços carinhosos!!

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  3. danijunkes
    17 de fevereiro de 2014

    Teu texto torna a angustia do trajeto menos sofrida, pois anuncia a possibilidade de crescimento e libertação. Adorei! Sensível e sempre acolhedor! Beijão!

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    • Eduarda Renaux
      21 de abril de 2014

      Tornar a angustia menos sofrida, nossa!!
      Obrigada!! Fico lisonjeada com esse retorno!!

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  4. Fabi
    21 de março de 2014

    Na tentativa de ser mãe, considero esses dois seres que nascerão, não somente nosso filho, mas nascerão mãe e pai. Tenho medo de matar a filha, de matar a esposa, pra me tornar somente mãe. Mas ora, se não é de medos e alegrias que é feita a vida, não é? Obrigada por dividir.

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  5. Maria Fernanda Beduschi
    17 de abril de 2014

    Muito bonito esse texto. De uma sensibilidade impar, cheio de belas metáforas e questões fundamentais. Como não existir, existindo? A vida por um fio! Pra que existir? Ficar pra sempre na torre, a espera de viver. Quanta morte existe na vida e quanta vida vem da possibilidade de encarar a morte. Breve, penso que a vida é breve. Porém vale o risco! Gosto muito do que você escreve. Ainda bem que vai ter continuação.

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Publicado às 15 de fevereiro de 2014 por em Saúde Mental, Vivências cotidianas e marcado , , , , , , , .
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