A Neurótica, Grão de areia

Quartzos granulados, rocha sedimentada, dureza esfarelada, eis a areia. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, já dizia o ditado.

Difícil assimilar que a persistência e força da água parece superar a rigidez de uma rocha.

A menina sentou lá, na areia, magoada com tantos dessabores da vida, endurecida no coração e engessada nas palavras. Ela se tornara dura. Imóvel. Previsível. Fortaleza. Continente. Estabilidade.

Com olhar vago e inerte, quase que como reflexo, sem pensar ou planejar se percebeu repetindo um movimento. Com as mãos agarrava os punhados de areia e fazia os pequenos grãos passarem pelos dedos. Sentiu ali a sensação inexplicável da leveza e da soltura.

Chamou o movimento de ‘mão peneira’. Em uma das peneiradas, um pequeno graveto ficou em sua mão. Se pôs a desenhar na maleabilidade da areia. E apagava o escrito com mais peneiradas de areia. Que delícia escrever e apagar. Se libertar do escrito em pedra. Tão permanente. Tão impossível de se desdizer, de voltar atrás, de se modificar.

Que gostoso voar com o vento. Mudar as paisagens. As direções. Essa Inconstância e Movimento livre. Se perder na multidão dos grãos, nas dunas de areia.

Não lembrava qual tinha sido a última vez que brincara. Mas lembrou rapidamente do gosto salgado do mar de lágrimas que antecedeu sua dureza. Foi um lento e continuo sofrimento que perdurou anos suficientes para o dano.

Sua dureza que parecia rocha na aparência era na verdade água profunda.

Quem sabe, os únicos conhecedores do mais profundo oceano sejam os grãos de areia. E os dissipadores de águas paradas são as brincadeiras. Naquele momento decidiu que parte dela era mar e a outra parte grão de areia.

A partir dali, diariamente passou a peneira. Desenhou e apagou. Construiu castelos e aguardou a onda derrubar seu reinado. Brincou de ser pequena como a areia. De ser grande como o mar.

Brincou com as miudezas que haviam se tornado tão estranhas. Levou a sério o imenso desconhecido do mar que lhe era tão familiar.

Texto e imagem por Eduarda Renaux

Martírios de Domingo

PORQUE DEPRIMIMOS NO ANOITECER DE UM DOMINGO…

Se pudêssemos fazer uma previsão, provavelmente a maior parcela da população no domingo compartilha da escuridão, da imensidão negra que encena a noite que vai chegando. Nem mesmo as estrelas iluminam a vastidão dos pensamentos e da angústia que cada um carrega no peito.

Por que será tão difícil sobreviver a um domingo que se encerra? Alguns em uma recusa de que o final de semana acabe, elegem essa noite para não dormirem. A insônia da sétima noite. Praticamente viram a noite na esperança mal-sucedida de estender a folga. Digo que é mal-sucedido pois começaram o expediente mais cedo do que o necessário ao invés de prolongar o final de semana.

Desejando não se deparar com o retorno das atividades e responsabilidades da semana, os humanos são especialistas em contradições! Pois é justamente ai que começam a arquitetar as pendências e compromissos da semana antes mesmo de seu início formal. Como o pensar é infinito e tudo pode, vamos ainda mais longe e fazemos um balanço de como estamos nos saindo na vida! E é claro que achamos os mínimos detalhes que podíamos ter feito melhor, que deveríamos ter realizado de forma diferente.

Nessa hora o caminho esta dado: Fantasiamos nossa melhor versão sonhando com a capa da revista de renome que estaremos, o príncipe encantado que conheceremos, os filhos prodígios que colocaremos no mundo, o corpo perfeito que teremos com a dieta que obviamente começará na segunda-feira, as fortunas que próprio negócio irá render.

De repente, naquele súbito desespero, percebemos que para isso precisaremos botar a “mão na massa”, lembramos dos limites reais da vida, da bronca do chefe na semana anterior, no descontentamento do cliente com o serviço prestado, nos problemas de relacionamento que andamos enfrentando nos últimos dias, no mercado competitivo e voraz que enfrentamos. Entramos em pânico, em terror. E para certificar o quão mal estamos, rebobinamos ainda mais a fita e lembramos dos momentos mais árduos, conflituosos que passamos na nossa história e tudo que poderíamos ter feito melhor.

Excessos de pensamento dessa ordem é uma covardia especialmente humana. Digo covarde pois o passado não será mudado e o futuro não poderá ser executado na hora de dormir. Ora, sabemos disso. Mas também sabemos que durante a semana não teremos tempo para pensar nisso. Quem sabe o domingo, seja por excelência o dia de pensar na vida e por isso difícil sobreviver. Mas pensar na vida não deveria ser tanto sacrifício…então o que se passa?

Pois bem, para falar do domingo a noite é necessário lembrarmos da sexta-feira a noite! Essa sim é uma armadilha que só nos damos conta que caímos dois dias depois. Ninguém faz retrospectivas após o expediente diluído na cervejinha ou no bate papo com amigos. A sexta-feira feiticeira cria uma ilusão de que a próxima semana será um recomeço e que não existe com o que se preocupar, apenas descansar e celebrar. Partilhamos de uma sensação de onipotência, de indestrutibilidade, de força heroína. Não por acaso as fatalidades acontecem nos finais de semana.

O martírio do domingo é proporcional ao colorido da sexta-feira. O que certamente é nosso equívoco é o nosso extremo. Tudo ou nada! Não pulverizamos, diluímos nossos dias. Pensar não significa cobrar, punir, cair em martírio. A vida é um caminho que passa pelas mais diferentes paisagens, assim como a semana lembra a execução, a sexta é propícia a diversão e o domingo convida a reflexão.

Apenas aprecie com moderação!

Entre quatro paredes

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz

(Chico Buarque – Mil perdões)

“Sou diva, Sou uma diarreia ambulante, Sou purificado pelas cicatrizes do corpo” nos dizem três personagens, de atuação impecável, na peça “Parte doente”. Três personagens, três histórias, um vazio. Não se queixavam do mesmo vazio, nem se quer lidavam da mesma forma com ele, mas estava lá, desvelado para o público.

Salve-se quem puder, pois o que vi na peça só via entre quatro paredes. O sofrimento da gente, guardamos no intimo, no privado, no pensamento, na ação escondida. E como nos é doloroso quando somos pegos no flagra de nosso conflito. A sensação é de estar nu na multidão.

Podemos ser acessíveis, interessantes, agradáveis ou até mesmo normais no dia-a-dia com pessoas. Mas ao anoitecer, quando os fantasmas noturnos aparecem, qual a parte doente que irá despertar em cada um de nós?  Todos têm uma parte sombra que se luta para que não venha á luz. Desde um homem que se veste de mulher, a diva que procura seu câncer existencial numa mancha no rosto, a obsessão pela assepsia, os desejos mais obscuros, um objeto fetichista na gaveta. Alguns sofrimentos, em particular, nos causam entorpecimento e horror.

Uma garota, que nos momentos de profunda angústia, conseguia visualizar o sangue fluindo nas veias, o coração bater acelerado, o turbilhão de sinapses no cérebro. Não era psicótica, mas nos momentos de angústia, o sofrimento denunciava a literalidade e brutalidade do existir (embora o temor fosse que naquele momento não existia e por isso recorria ao orgânico). Se por um lado temos o concreto da vida, por outro temos o abstrato. O abstrato possibilita outro tipo de problema, o excesso de sentido.

Tento me fazer entender: Estamos agora em um museu. Estamos percorrendo a era renascentista onde as pinturas eram verdadeiras fotografias. Continuamos caminhando entusiasmados com a bela arte e nos defrontamos com o movimento cubista ou até mesmo surrealista, onde os traçados, as figuras, as imagens convocam uma interpretação de um enigma. Ao mesmo tempo em que nos causa desconforto, o sentido não tem fim. Tudo tem uma razão de ser.

É como na vida, pois embora nos queixasse o tempo todo da falta de sentido da vida, sofremos do contrário, do excesso de sentido. Tudo deve ter um porque, um significado, um sinal, uma justificativa.

Estava com meu pai, reclamávamos sobre a vida e as dificuldades diárias que temos que enfrentar. Eis então que acaba a energia, ficamos sem luz. De imediato, olhamos um para o outro e falamos: “viu só! Um sinal para parar de reclamar. Nada é tão ruim que não possa piorar!”. Pode ser que isso motive para uma posição mais otimista frente a vida. Mas luzes acabam mesmo, quer ver só em dia de trovoada. E isso não tem absolutamente nada a ver com que falávamos. O sentido é nosso e não exterior.

Buscar a existência do todo é embarcar numa canoa furada, mas construir um sentido para nossa própria vida e ter a possibilidade de encarar a sua brutalidade é um desafio necessário. Pois é o que nos move, que possibilita continuar desejando. Não perguntem desejando o que. As vezes o verbo desejar é intransitivo!

Entre mil e uma coisas que a peça A parte doente me fez refletir, a que escolhi para divagar é que na vida é necessário negociar formas mais acessíveis de desejar, que não nos seja tão custosas, punitivas ou impossíveis. Mas não menos intensas e profundas….

* a imagem do post é a tela da artista plástica Silva Teske.