PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

A Neurótica, Grão de areia

Quartzos granulados, rocha sedimentada, dureza esfarelada, eis a areia. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, já dizia o ditado.

Difícil assimilar que a persistência e força da água parece superar a rigidez de uma rocha.

A menina sentou lá, na areia, magoada com tantos dessabores da vida, endurecida no coração e engessada nas palavras. Ela se tornara dura. Imóvel. Previsível. Fortaleza. Continente. Estabilidade.

Com olhar vago e inerte, quase que como reflexo, sem pensar ou planejar se percebeu repetindo um movimento. Com as mãos agarrava os punhados de areia e fazia os pequenos grãos passarem pelos dedos. Sentiu ali a sensação inexplicável da leveza e da soltura.

Chamou o movimento de ‘mão peneira’. Em uma das peneiradas, um pequeno graveto ficou em sua mão. Se pôs a desenhar na maleabilidade da areia. E apagava o escrito com mais peneiradas de areia. Que delícia escrever e apagar. Se libertar do escrito em pedra. Tão permanente. Tão impossível de se desdizer, de voltar atrás, de se modificar.

Que gostoso voar com o vento. Mudar as paisagens. As direções. Essa Inconstância e Movimento livre. Se perder na multidão dos grãos, nas dunas de areia.

Não lembrava qual tinha sido a última vez que brincara. Mas lembrou rapidamente do gosto salgado do mar de lágrimas que antecedeu sua dureza. Foi um lento e continuo sofrimento que perdurou anos suficientes para o dano.

Sua dureza que parecia rocha na aparência era na verdade água profunda.

Quem sabe, os únicos conhecedores do mais profundo oceano sejam os grãos de areia. E os dissipadores de águas paradas são as brincadeiras. Naquele momento decidiu que parte dela era mar e a outra parte grão de areia.

A partir dali, diariamente passou a peneira. Desenhou e apagou. Construiu castelos e aguardou a onda derrubar seu reinado. Brincou de ser pequena como a areia. De ser grande como o mar.

Brincou com as miudezas que haviam se tornado tão estranhas. Levou a sério o imenso desconhecido do mar que lhe era tão familiar.

Texto e imagem por Eduarda Renaux

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Publicado às 22 de outubro de 2021 por em Uncategorized e marcado , , , , .

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