PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

Entre quatro paredes

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz

(Chico Buarque – Mil perdões)

“Sou diva, Sou uma diarreia ambulante, Sou purificado pelas cicatrizes do corpo” nos dizem três personagens, de atuação impecável, na peça “Parte doente”. Três personagens, três histórias, um vazio. Não se queixavam do mesmo vazio, nem se quer lidavam da mesma forma com ele, mas estava lá, desvelado para o público.

Salve-se quem puder, pois o que vi na peça só via entre quatro paredes. O sofrimento da gente, guardamos no intimo, no privado, no pensamento, na ação escondida. E como nos é doloroso quando somos pegos no flagra de nosso conflito. A sensação é de estar nu na multidão.

Podemos ser acessíveis, interessantes, agradáveis ou até mesmo normais no dia-a-dia com pessoas. Mas ao anoitecer, quando os fantasmas noturnos aparecem, qual a parte doente que irá despertar em cada um de nós?  Todos têm uma parte sombra que se luta para que não venha á luz. Desde um homem que se veste de mulher, a diva que procura seu câncer existencial numa mancha no rosto, a obsessão pela assepsia, os desejos mais obscuros, um objeto fetichista na gaveta. Alguns sofrimentos, em particular, nos causam entorpecimento e horror.

Uma garota, que nos momentos de profunda angústia, conseguia visualizar o sangue fluindo nas veias, o coração bater acelerado, o turbilhão de sinapses no cérebro. Não era psicótica, mas nos momentos de angústia, o sofrimento denunciava a literalidade e brutalidade do existir (embora o temor fosse que naquele momento não existia e por isso recorria ao orgânico). Se por um lado temos o concreto da vida, por outro temos o abstrato. O abstrato possibilita outro tipo de problema, o excesso de sentido.

Tento me fazer entender: Estamos agora em um museu. Estamos percorrendo a era renascentista onde as pinturas eram verdadeiras fotografias. Continuamos caminhando entusiasmados com a bela arte e nos defrontamos com o movimento cubista ou até mesmo surrealista, onde os traçados, as figuras, as imagens convocam uma interpretação de um enigma. Ao mesmo tempo em que nos causa desconforto, o sentido não tem fim. Tudo tem uma razão de ser.

É como na vida, pois embora nos queixasse o tempo todo da falta de sentido da vida, sofremos do contrário, do excesso de sentido. Tudo deve ter um porque, um significado, um sinal, uma justificativa.

Estava com meu pai, reclamávamos sobre a vida e as dificuldades diárias que temos que enfrentar. Eis então que acaba a energia, ficamos sem luz. De imediato, olhamos um para o outro e falamos: “viu só! Um sinal para parar de reclamar. Nada é tão ruim que não possa piorar!”. Pode ser que isso motive para uma posição mais otimista frente a vida. Mas luzes acabam mesmo, quer ver só em dia de trovoada. E isso não tem absolutamente nada a ver com que falávamos. O sentido é nosso e não exterior.

Buscar a existência do todo é embarcar numa canoa furada, mas construir um sentido para nossa própria vida e ter a possibilidade de encarar a sua brutalidade é um desafio necessário. Pois é o que nos move, que possibilita continuar desejando. Não perguntem desejando o que. As vezes o verbo desejar é intransitivo!

Entre mil e uma coisas que a peça A parte doente me fez refletir, a que escolhi para divagar é que na vida é necessário negociar formas mais acessíveis de desejar, que não nos seja tão custosas, punitivas ou impossíveis. Mas não menos intensas e profundas….

* a imagem do post é a tela da artista plástica Silva Teske.

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Publicado às 24 de novembro de 2012 por em eventos, Saúde Mental, Vivências cotidianas e marcado , , , , , .
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