PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

Deprimidos no Natal

Desde muito crianças, aprendemos as palavrinhas mágicas para acessar o mundo do outro. Ainda que alguns defendam que é questão de boa educação, não deixa de ser uma forma de amolecer um coração, pedindo com carinho para poder entrar. A mágica acontece quando aprendemos a usar as palavras:  Por favor e Obrigado. Já diria o dito popular, a questão não é o que fala mas como fala. O obrigado e o Por favor transforma “o que fala” em “como fala”.

Então essas palavrinhas podem fazer toda a diferença na relação – por mais momentânea que seja – com alguém. Hoje minha pergunta é: Pode existir alguma magia no uso da palavra com aqueles que estão deprimidos? O final do ano é falado como o período das festividades, das celebrações. Mas a quem está mais para clima de velório do que de festa. Não é novidade, e até mesmo muitos irão olhar para dentro de si e perceber uma melancolia ou uma indiferença a esta data.

Seja porque entes queridos morreram e a data lembra uma união familiar, seja porque a data remete a uma religião e o sujeito não tem uma crença que justifique essa celebração. Seja porque a festa tornou-se um atrativo comercial para alimentar ainda mais o consumo, trazendo uma sensação de indisposição com a data. Mas os deprimidos estão ali, lembrando que nem tudo é festa. Existe um mal-estar.

Tem pequenos gestos que serão quase que mágicos com aqueles que estão mais para as lágrimas de melancolia do que de alegria. Embora não seja adepta a tópicos, desculpem, por favor, mas não achei outro recurso.

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VOCÊ NÃO ENTENDE – Sim. Você está muito bem-intencionado em ajudar o ente querido, o amigo do coração, a parceria do dia-a-dia. Mas tem algo que você precisa saber, assim como a gravidade impossibilita que se chova para cima, é impossível você entender o que o outro está passando ou sentindo. Então dizer que entende pode chegar a ficar ofensivo, e se você pegar um deprimido raivoso pela frente, levará um “corridão” sim. Pois bem, partindo do princípio que você não entende, a única possibilidade é limpar os ouvidos e uma disposição honesta e sincera de escutar, querer saber. Caso não esteja com vontade, não existe nenhum problema, é de seu todo direito. Mas então vamos deixar o deprimido elaborar sua tristeza sem essa interferência que é bem-intencionada mas sem uma real intenção de ajuda.

SAIBA QUE ESCUTAR É SUPORTAR O MAL-ESTAR – Tem algumas frases que chegam a parecer muros linguísticos. Eles não servem para outra coisa que não calar a pessoa. Frases como: “Você tem que ser forte”, “Vai passar”, “é assim mesmo”, não são contraindicadas desde que você tenha se disposto a verdadeiramente ouvir o outro. Essas frases sem uma escuta, sem um contexto, um ouvido atento ou um ombro caloroso, são apenas defesas em não querer ouvir. A mensagem fica invertida. Ao invés de passar a ideia de acolhimento, passa a mensagem de “fique bem para que eu posso ficar bem também”. Tenha em mente que numa sociedade onde a felicidade é lei, a tristeza é um mal-estar que tem que estar disposto a encarar de frente, sem muros e sem a pretensão de tapar a boca do outro.

O OBJETIVO NÃO É DEIXAR O OUTRO FELIZ – Ajudar não significa fazer o outro sair da tristeza, mas se mostrar presente e de livre escuta. Ouvir possui um alcance muito maior do que a fala em si. Evite conselhos e valorize o quanto sua presença pode fazer toda a diferença.  O maior presente para esse Natal não está na prateleira de uma loja e não custa nenhuma cifra.  E nem por isso ficou mais fácil ou barato. Ajudar quem está precisando custa e exige muito subjetivamente. Então pense bem se você tem como custear essa função. Para isso leve em conta:

SE VOCÊ NÃO ESTA BEM, SUPORTE QUE NÃO ÉS A PESSOA ADEQUADA PARA AJUDAR NESSE MOMENTO. Quando não se está bem não tomamos decisão e também não podemos ter a pretensão de ajudar o outro. Inclusive, é uma boa oportunidade de ser honesto consigo próprio e reconhecer que precisas elaborar uma tristeza tanto quanto o outro. Então para os heróis e heroínas de plantão, fiquem atentos a si mesmos antes de salvarem a humanidade.

Eu vi muitas mensagens lindas hoje, de amor, de união, de paz e de caridade. Mas escondidos na sombra da beleza dessas mensagens, estão os entristecidos. E a minha certeza de que não são a exceção. Não podemos entende-los, dar-lhes a felicidade. Mas podemos não esconde-los, os trazendo para outra luz que não os dos pisca-pisca. Podemos retirar-lhes a rolha da boca, através de uma presença efetiva e ouvidos aquecidos. Às vezes é nas orelhas que residem os melhores colos. Assim também acontece a magia do Natal.

Por favor, acolham essas palavras!

Obrigada!

Eduarda Renaux

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Publicado em 25 de dezembro de 2017 por em Uncategorized.
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