PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

A Neurótica – Pedra de Aylaat

Se a vida não podia ser mais fácil então que Deus lhe desse força para enfrentar o que viesse. “Dai-me força”, era só o que ela conseguia repetir a si mesma quando o pensamento vagava sem direção. Não podia ter certeza se pedia mais força porque desejava que assim fosse, pesada e conflituada ou se reconhecia que se sentia frágil demais para suportar o que a vida ofertava. Tinha uma percepção clara porém distorcida de que os últimos anos haviam cobrado um preço alto demais.

imagem-mulherFazia uma minuciosa avaliação de seu rosto de dia. Já a do corpo era a noite. A lógica seguia da seguinte forma – apenas a noite o corpo já daria evidencias de ter sofrido as alterações de pressão, olhares, temperatura e peso. Já o rosto, era do contrário, toda a marca da dor apareceria pela manhã, pois a noite era o momento que olhava para dentro de si. Do corpo esperava as oscilações de um dia. Do rosto, de uma vida inteira.

A vida não era uma linha reta para ela, e sim curvas onde era impossível antecipar a próxima paisagem. A Neurótica nunca poupou a idealização e a fantasia quando se tratava dessas curvas. Mas não podia percorrer concretamente isso, inibida de qualquer ação.

Não era preguiça, tampouco falta de força, era medo. Considerou que devesse pedir aos céus por coragem. Nessa mesma fração de pensamento se perguntou qual diferença entre esses pedidos que vinha fazendo.

Reconhecer o próprio desejo requer muita coragem. E encontrar coragem dentro de si gera muita força. Mas tem momentos que a força te mantém lá, mesmo onde faz sofrer, onde a paisagem já é prevista. Ela tomava força como o resultado de uma perseverança de que precisa ficar como está  para dignificar a vida. Uma perseverança em manter reta a vida, a inércia diante das escolhas feitas, um apagamento do que o medo apontava durante a noite. Não à toa acordava cansada de uma vida inteira.

Seu medo aparecia justamente quando mudanças pairavam no ar. Recorremos a coragem quando podemos mudar de lugar, atravessar a curva e encarar a nova paisagem, nunca uma escolha fácil, essa de desejar.

“Menos espelhos e mais janelas” refletiu a Neurótica, que já não olhava para os lados para seguir em frente.

Eduarda Renaux

 

 

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Publicado em 10 de junho de 2017 por em contos.
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