PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

A Neurótica – O início

Seu nervosismo já tinha doidachegado ao limite. Pelo menos era isso que os entes próximos pensavam depois que quebrou alguns itens da casa, bateu o carro por distração e recebeu advertência por má conduta no trabalho. Pelo bem da família e da ordem social, resolveu que tinha que tomar uma atitude.

Na verdade essa atitude não tinha absolutamente nada a ver com o casamento, quem dirá com a família. O Trabalho? Que fossem todos para o inferno. Pensava apenas num mundo sem pessoas. Mas quando abria os olhos, lá estavam eles, os seres humanos, feito carrapatos em cachorro vira-lata. O problema da humanidade é o ser humano e esse segredo nem para o padre poderia revelar. Lhe faltariam bolinhas de terço para rezar os infinitos pai-nosso e ave-maria. Até Deus lhe importunou a vida. E muito.

– Pai, reza comigo essa noite?

– Por que isso agora, minha filha?

– Tenho medo de Deus.

Um arrepio na espinha quando essa conversa lhe passou na cabeça. Devia ter sete anos quando parou de rezar por medo. A onipotência e onipresença divina lhe alteravam o sono, o rendimento escolar, as relações afetivas. Nem sempre queria estar acompanhada, apenas queria o alívio da solidão e gozar da liberdade mundana, sem ser vigiada por anjos e demônios.

O que lhe perturbava tanto? De modo geral, qualquer coisa que envolvesse outra pessoa.  Antes de dormir fechava bem os olhos pedindo o desaparecimento de toda a humanidade. Mas quando abria os olhos, eles estavam ainda todos ali, os outros e seus malditos problemas. Não queria que sofressem, apenas que não lhe importunassem. A presença dos outros aconteciam mesmo quando não estavam ali. Estava sempre acompanhada. Sempre… Sempre! Quando brigava (constantemente), era uma tentativa fracassada para distanciar-se do outro. Através da guerra buscava paz.

Chegou a pensar em buscar um advogado para se defender do ser humano. Propôs:

– Poderias me representar socialmente.

– E como isso funcionaria? Respondeu o advogado.

– Todos que quiserem falar comigo só poderão faze-lo na sua presença ou lhes digo que se dirijam direto a ti. Também quando ficar a ruminar sobre o meu dia e sobre os outros, posso te ligar para me assessorar os pensamentos.

A ela, a ideia pareceu genial. Mas para o coitado, foi um tanto quanto assustador. Não teve escolha e lhe sugeriu um psicólogo. Sentiu-se ofendidíssma com a sugestão de um psiquiatra ou um psicólogo, ou os dois de preferência, como havia aconselhado ele. Se fosse para buscar um terapeuta seria para xingá-lo e torná-lo alvo de suas angustias, culpas, arrependimentos, paranoias, obsessões. Mas isso já fazia de graça com o marido e com tantos outros. Advogado burro! Pensou.

A Neurótica sofria muito, mas quanta complicação trazia para quem convivia. Sabia-se da aproximação da Neurótica de muito longe. Bem na verdade já não tinha muitas pessoas próximas. Quanto mais se afastavam, mais presentes ficavam em sua vida. Não lhe saiam da cabeça. As vezes estar só é estar acompanhado de gente demais. Afinal, o que querem vocês de mim? Agonizava ela.

Afundada no feed do facebook, invejando a ilusão coletiva, um texto lhe saltou os olhos. Foi quando teve uma ideia. Teve uma ideia, mas os outros ainda estavam ali. Apesar dos outros ainda estarem ali, sentiu algo muito próximo de esperança na humanidade, na sua, provavelmente.

Eduarda Renaux

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Publicado em 2 de março de 2017 por em Uncategorized.
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