PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

Pote de Purpurina

QUANDO O BRILHO VEM DE FORA 

Sabe Doutora, tenho a impressão de que estou tão apagada, que nem se eu mergulhasse num pote de purpurina eu voltaria a brilhar. Antes eu comprava roupas, enfeitava o cabelo, passava uma maquiagem e me sentia melhor. Agora nem isso adianta…”

Um brilho artificial não se sustenta. Todos já recorreram ao fora, o corpo, os adornos para mascarar uma melancolia que se apresenta. Quando estamos radiantes, o brilho simplesmente acontece. Ela não é uma solução, é uma consequência de estar em paz consigo próprio.

Não utilizo termo paz num sentido religioso, mas num sentido de resolução para que a autenticididade e a expontâneidade sejam possíveis. Na lógica capitalista e imediatista que vivemos, o “ter” toma o lugar do “ser”, e somos bombardeados por potes de purpurina.

Essa fala que cito acima, me provocou profunda reflexão do que de fato é brilho próprio e o que é o culto ao estético, o espetáculo armado onde todos fingem se surpreender. O pensamento que prontamente me ocorreu foi que quando a mudança vem de dentro o brilho não ofusca os olhos.

img-527060-beyonce-posa-coberta-de-purpurina20130710131373474373

Existe um certo mal-estar imediato quando a cena parece não corresponder a situação. Para isso, popularmente se fala do “chamar atenção”, esta fazendo “drama”, “encenação”, etc…

A cena é uma forma de brilhar, ou minimamente resgatar o brilho para o outro. Mas se o ser só pode ser sustentado pelo olhar do outro, basta que esse olhar falte, para que o castelo de purpurina se desmonte. Afinal, purpurina não tem consistência, se esvai com facilidade, com a menor das brisas.

Com muita frequência, os humanos que possuem esse vazio tão agressivo, tiveram muita fragilidade para constituir-se. Um olhar vazio, enlutado, sem brilho, que atravessa o bebê e não lhe dá borda, nem contorno. Mães deprimidas são suscetíveis a isso. Bem como bebês que não conseguem corresponder aos investimentos maternos, uma apatia nesse circuito de troca entre um e outro.

A propaganda enganosa é aquela que ilude que para se encontrar existe atalho. Que para a dor existe remédio, que para o corpo existe adorno, para o vazio existe objeto. Não me proponho ao pessímismo, mas existe um tempo, uma construção necessária para a autenticidade que não esta a venda nas prateleiras e nem acontece do dia para noite.

Ainda essa semana ouvi sobre as injeções de hormônio para simular uma gestação e fazer com que as mulheres percam peso através desse processo. Que corpo é esse? O pote de purpurina. Ali não existe subjetividade. É corpo, hormonio, boca para deglutir. Mas como a paciente mesmo alerta, chega um momento que nem isso mais adianta…

Nos questionarmos sobre nossas purpurinas, uma interrogação diária para não se deixar seduzir pelo brilho e ofuscar os olhos…

 

 

 

 

Anúncios

Um comentário em “Pote de Purpurina

  1. Fabiana Lange Brandes
    27 de julho de 2014

    Belíssimo texto Eduarda. Me senti assim nessa semana. Acho que andei muito purpurinada por um tempo e agora preciso me reconstruir com materiaisais sólidos, e que talvez, não brilhem demais. Um abraço

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 27 de julho de 2014 por em Uncategorized e marcado , , , , .
%d blogueiros gostam disto: