PalavrAcolhida

Colhendo e acolhendo palavras

Canteiros da Saúde – O Florescer Psíquico

A Edição 78 da Revista Unimed contou com uma reportagem sobre Jardinagem e Estresse – Matéria entitulada de Canterios da Saúde. Um tema que aborda a relação, sempre intima, entre criação e saúde mental.
Aproveito o espaço do PalavraColhida para quem quiser acompanhar na íntegra as perguntas realizadas pela equipe da revista para mim!
Boa leitura!!
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A jardinagem pode auxiliar a diminuir o estresse e a ansiedade do dia a dia?
Com certeza. Entretanto, isso é uma descoberta e uma opção que cabe ao próprio sujeito realizar. Por exemplo, pessoas cujo o traço de personalidade seja de agitação e muita energia, é possível que a jardinagem gere ainda mais ansiedade. Nesses casos, corrida, escalada, esportes ao ar livre serão muito mais relaxantes. Acontece que os benefícios da jardinagem são evidentes em pessoas que enfrentam muita tensão em sua rotina pois possibilita dar um “tempo” na briga contra o próprio tempo. Isso significa que o sujeito ao dedicar parcela de sua disponibilidade ao cuidado de um jardim esta se ocupando de si mesmo, sem o imperativo dos deveres e produtividade. Pessoas que pintam, escrevem, compõem músicas, plantam, são autoras de suas próprias obras e dessa forma se reconhecem nelas. Quando se trata de criar algo, não existe neutralidade. Nossa subjetividade esta intimamente ligada naquilo que investimos, a pessoa se vê e se implica psiquicamente nas escolhas das plantas, na poda, nas cores e aromas de um jardim. Conforme o jardim vai tomando forma, o próprio sujeito vai se organizando internamente também. Uma pessoa muito ansiosa ou estressada, provavelmente esta desorganizada consigo mesma. Utilizar o potencial de criação é uma ferramenta valiosa nos dias de hoje onde carregamos o peso de um tempo sempre cronometrado e exaustivo.
Quais os benefícios que essa prática pode trazer às pessoas?
Em primeiro lugar, se dedicar a jardinagem requer tempo. A jardinagem dificilmente é uma pratica realizada com muitas pessoas. Então temos uma dimensão clara: tempo para si mesmo. O sujeito se percebe podendo cultivar plantas e através delas cultivar também suas ideias e desejos. A pessoa passa também a poder usufruir de sua própria companhia e admirar a si próprio. Já acompanhei muitos casos de insônia e depressão que a jardinagem teve efeitos surpreendentes. Isso se deve ao fato de que há anos não investiam em si e sentiam-se na obrigação de servir a todos. Também estavam tristes consigo próprias e com a vida, sentiam-se sem valor. Cuidar de um jardim foi como cuidar de si mesmo, resgatar lembranças importantes e sentir-se florescendo também. Isso na verdade é muito comum nos humanos, não diferenciamos claramente os objetos de nós mesmos. Da mesma forma que crianças cuidam de seus brinquedos como se tivessem vida própria e dependessem delas para existir, os adultos muitos vezes também fazem essa ligação com seus objetos pessoais, como se fossem uma extensão delas. Prova disso são os “acumuladores”, pessoas que fazem uma ligação emocional intensa com seus objetos e não conseguem se desfazer de nenhum pertence. Se manifestado de forma grave, não sabem mais distinguir o que é útil e o que não é. Outro ponto importante é a capacidade criativa e imaginativa e a sensibilidade. Plantas são seres vivos, isso faz muita diferença, pois trás a dimensão da vida em plena atividade para o sujeito. A planta não ficará estática e não sobreviverá sem cuidados. Fica uma relação de troca, por um lado as plantas são vida ao passo que o sujeito dá vida ao jardim criando e modificando o espaço conforme seu desejo. Por fim, a organização psíquica. Utilizamos o fora para reorganizar o dentro. Toda a produção é reflexo de nossa subjetividade, seja ela em conflito ou não. A jardinagem pode ser um espaço de elaboração para o sujeito. Mas fica um alerta: muitas pessoas tendem a transformar o que é para ser um prazer em dever. Nesses casos, o jardim vira mais um dever diário. Manter um jardim é diferente da jardinagem, enquanto manter um jardim esta no campo do dever – manter vivo – a jardinagem esta no campo da arte e criação.
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Já ouvi dizer que muitas pessoas, ao chegarem em casa, retiram os sapatos e pisam na grama. Fiz essa experiência e realmente, é muito relaxante. Você poderia me explicar o que ocorre nesse momento?
Nossas primeiras descobertas foram através do tato. Um bebe sente e descobre o mundo através da textura, por isso levam a boca e tocam em tudo que esta em sua volta. O tato é um dos sentidos que menos são valorizados no dia a dia, devido ao estilo de vida que se tem atualmente. A visão passa a ser privilegiada no cotidiano. Acontece que tudo que descobrimos fica retido em nossa memória, mas nem tudo que esta na memória, lembramos. Nossas primeiras experiências com o tato ficaram registradas em nós, seja de forma de prazer ou desprazer. Passamos a maior parte do tempo com calçados apertados, meias ou salto-alto. Ao por os pés na areia ou no gramado estamos evocando sensações primitivas importantes. Além do mais, para se por os pés na grama ou na areia se supõe um momento de mais calma e relaxamento. Nossas cidades estão cada vez mais verticais, sem verde, parques e árvores. São raros os momentos que podemos viver essa experiência do contato com a natureza, estamos diariamente em contato com o concreto.
Pessoas com depressão são indicadas, geralmente, a aprender outra língua, tocar algum instrumento ou pintar e bordar. Pode-se comparar essas ações como os aprendizados relacionados a jardinagem?
Sim. A arte pode ser uma forma de elaboração de um mal-estar psíquico. Através daquilo que produzimos resignificamos nossa relação com o mundo. Pessoas com depressão crônica ou melancólicas, de modo geral, em sua constituição, viveram momentos de desamparo, não sentiram-se seguras, cuidadas e desejadas. Isso gera um sentimento de desvalia, impotência, culpa e empobrecimento de suas relações. A jardinagem é uma possibilidade de sentirem-se fortalecidas através de um cuidado que respeita o tempo delas. Os depressivos sentem-se atropelados pela correria de nossos tempos. Enquanto todos demandam a felicidade e produtividade, o deprimido percebe o lado obscuro da vida e não possui a energia que nossos tempos ditam. Um dado importante é que o ideal de felicidade vivido hoje é impossível, por isso tantas pessoas queixam-se de depressão. Não é que estejam de fato com essa psicopatologia, mas sentem-se deprimidas em não acompanhar ou não alcançar esse ideal. A jardinagem é uma prática de exercício do cuidado, do respeito ao tempo, da criação e imaginação. Ingredientes importantes para aqueles que estão deprimidos. Mas volto a ressaltar: não existe receita pronta! Cada um deve encontrar seu caminho. Se para uns é extremamente benéfica e terapêutica, para outros pode não ser. Cada um é singular. É necessário que o sujeito se reconheça no que faz.
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Quem mora em apartamento e não possui a chance de ter grama ou horta no quintal, como ela pode fazer para relaxar “naturalmente”?
Em primeiro lugar, não é porque moram em apartamento que não podem cultivar um jardim. Quase todos os apartamentos possuem varandas e elas podem sim transformar-se num local de exercício da jardinagem. Pode não ser o ideal, mas é possível e benéfico. Jardins internos também podem ser utilizados. Mas se o que a pessoa esta buscando é o contato com a natureza e não necessariamente a jardinagem, pesquisar trilhas e parques podem ser uma alternativa interessante. Em Blumenau é surpreendente a quantidade de locais que estão fora do alcance da agitação da cidade e que desconhecemos. Mas nem tudo chega a nossas mãos, temos que nos informar e buscar o novo. Não adianta esperar pronto, temos que inventar!
É verdade dizer que os antigos não tinham tantos problemas pois tinham o contato direto com o mato, o barro, a terra ?
É próprio do ser humano achar que o “antigamente” é melhor do que o “atualmente”. Isso se deve pois o “atualmente” é o que vivemos, nossos problemas ficam maiores quando vividos de dentro. Daqui alguns anos sentiremos falta do hoje. E por ai vai… Acontece que os problemas sempre existem, eles só mudam de lugar. Podemos dizer que as pessoas são mais estressadas hoje? Não sei, tendo a achar que não. O estresse sempre existiu de forma intensa, mas sempre diferente conforme a época. Hoje usufruímos de comodidades jamais experienciadas na humanidade. Mas nossa relação com o tempo e os objetos mudaram. Parece que virou elogio dizer que se trabalha 12 horas por dia. Estamos mais isolados, nos sentimos mais cobrados, levamos preocupações para casa. Os antigos tinham muitas preocupações, mas sabiam quando seu “turno de trabalho” havia terminado e faziam proveito do tempo que lhes restavam. Para nós, tempo sobrando é inconcebível, nos sentimos culpados. E por isso acabamos adoecendo psiquicamente e fisicamente. E claro, o contato com a calmaria, lugar amplo para caminhar, convivência com a fauna e flora e relações entre humanos aumentam o bem-estar.
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3 comentários em “Canteiros da Saúde – O Florescer Psíquico

  1. Fabi
    21 de março de 2014

    Excelente matéria…. ainda procuro o que me dá prazer e que me relaxa. Acho que a terapia é um espaço que me proporciona o encontro comigo mesma, com meus fantasmas ou com as mais boas lembranças. Paralelo a isso, ainda quero encontrar algo que me distraia, além da leitura. Algo que seja laborioso… scrapbooking seria ideal…. vou pensar nisso… cultivo em casa uma pequena horta de temperos, mas o estranho é que queria mesmo cultivar flores.. está aí, algo pra se pensar.
    obrigada por dividir!

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  2. Eduarda Renaux
    21 de abril de 2014

    Agradeço delicado e florido retorno de possibilidades!!
    Abraços!!

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  3. Elias
    10 de março de 2017

    Bom.

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Publicado às 16 de março de 2014 por em Entrevistas, Saúde Mental e marcado , , , , , , , .
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