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Colhendo e acolhendo palavras

LOST: Histórias Restagadas

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Lost teve inicio em setembro de 2004 e finalizou em maio de 2010. Conheço poucas pessoas que não tiveram contato com a série, entretanto, conheço poucas pessoas que a acompanharam até o final. Isso se deve a uma razão prática: tomaram o título ao pé da letra! Chega um momento da série, se minha memória não falha, lá pela 4a temporada, que mesmo os mais fiéis telespectadores se perderam na história. Muita informação, muitos personagens, muitos cruzamentos e ficção.

Lost ainda repercute em mim, mesmo fazendo mais de dois anos de seu fim. E por isso tentarei abordar uma possível leitura da série, afinal, reitero que a trama possui inúmeras possibilidades. Do que se trata a série? Sobre a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical, após o avião que viajava de Sydney para Los Angeles cair em algum lugar do Oceano Pacífico.

A genialidade de Lost encontra-se na forma como a série é narrada. Ao passo que contam a história da sobrevivência dos personagens na ilha, contam também a história dos personagens através de flash back. Tudo ocorre de forma simultânea e cada episódio se ocupa de um personagem em especial. Quer mais? Bom, associado a isso, a série também conta a história da ilha e dos “outros” que lá já habitavam antes do acidente aéreo.

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A trama cativou jovens e adultos do mundo todo pela promessa de respostas aos enigmas da vida através do resgate de um suposto pai que detém todas as respostas. A princípio, essa figura paterna atravessada até por cunho religioso, encontra-se no personagem Jacob. Jacob passa até a penúltima temporada como uma entidade que tudo sabe e tudo faz, embora nunca tenha aparecido ou sido visto na ilha. A busca dos sobreviventes reside em finalmente encontrá-lo. Para os fãs do desenho “a caverna do dragão”, acredito que a série segue a mesma lógica. É como um cão que persegue o próprio rabo.

Trata-se de um resgate do pai da infância que é, acima de tudo, soberano e cruel, pois em nossa fantasia poderia acabar com nossa incertezas, temores e desamparo mas recusa em fazê-lo. E não sem razão isso produz fascínio nos telespectadores, pois em tempos que a autoridade e a figura paterna encontram-se em declínio, Lost traz no seu enredo mais que uma entidade, homens onipotentes e supostos detentores de alguma verdade.

Jack e Locke são personagens protagonistas da série. Líderes nessa busca pela sobrevivência, ambos possuem um pai frágil de vida e potentes enquanto representação psíquica. Amor e ódio caminham juntos nesse culto à figura paterna. O pai de Jack é medico de renome e alcoólatra, depositou todos os ideais no filho. No decorrer da vida, a separação entre eles é inevitável, já que tanto pai quanto filho não correspondem às expectativas almejadas. Para a tragédia de Jack, o pai morre em Sidney e cabe a ele buscar o corpo do pai. Logo, na queda do avião a presença desse pai fantasmático é literal. Ele é assombrado por alucinações do pai vivo na ilha. A imagem visual é alucinatória, mas sua presença sempre esteve viva nos conflitos do personagem.

Sempre impotente e reivindicando o poder do pai, Jack possui uma cobrança interna avassaladora. Se não é herói todo o tempo, cai em choro e punição. Ele vive por fazer valer o que acredita que o pai esperava dele. Fica um tanto quanto sedutor deduzir que as alucinações tratam-se de policiamentos das condutas de Jack. Caso fracassasse, o pai estava presentificado para apontar sua falha.

O pai de Locke, apresentado pela série como um verdadeiro canalha, foi responsável pelo aleijamento do próprio filho. A cadeira de rodas, passa assim, a ser representante da sua própria insuficiência, que sempre era remetida à figura paterna. A ilha teve um efeito fundamental em Locke. Após a queda do avião, volta a andar e ali inicia uma jornada de resgate de sua autonomia. Locke busca a maior parte do tempo conhecer e confrontar Jacob. Não sem razão, já que em seu mundo interior necessitava urgente desmontar seus medos e dores, e através de um pai à altura, mostrar sua possibilidade de se fazer valer e finalmente vencer a disputa.

Quando não no pai de carne e osso, a paternidade acaba habitando o imaginário de alguns personagens na figura do sogro. Exemplos disso são os personagens Jim e Desmond. No caso de Jim, o mesmo envergonhava-se de suas origens, em especial do pai agricultor. Na série, o pai de Desmond sequer é mencionado. Ambos passam a série tentando obter aprovação dos sogros. Não preciso nem mencionar que os sogros iam pela mesma via de onipotência e poder das figuras anteriormente descritas.

Na vida não basta ser alguém, busca-se ser alguém para um outro de valor. Um pai é sempre uma figura importante nessa jornada. Mesmo com uma série de problemas e falhas, as figuras paternas da série são um tanto quanto espaçosas e não dão lugar à próxima a geração de homens em construção. A série passa por várias cenas de violência, onde a agressão e a morte são inevitáveis como acesso ao mundo da virilidade. Mas esse foi um recurso imaginário de tratar a problemática, já que aos poucos vão constatando que ser homem não é apenas um exercício de poder, mas de tolerar as próprias falhas e mesmo assim ter a coragem necessária de enfrentamento. Tanto Jack, como Lock, Jim e Desmond aceitam melhor as própria limitações nessa travessia.

Aqui é importante lembrar dos personagens Ben e Michel. Ben, responsável pela morte da mãe ao nascer, é maltratado pelo pai durante toda a infância e passa a vida na ilha tentando provar seu valor como líder para os que ali habitavam. Já Michel, no momento da tragédia de avião estava no momento de reconciliação com o próprio filho.

Lost trata de temas fundamentais que falam sobre a relação pai-filho através das culpas e raivas que fogem do campo da consciência. A solidão de estar no mundo construindo o próprio caminho e o pedido impossível que fazemos aos nossos próprios pais. É muito difícil que o público não se identifique com os personagens de Lost, já que nos deparamos com o fardo que carregamos, os ressentimentos vividos, os momentos que não nos orgulhamos e nos quais nos sentimos injustiçados pela vida.

Para apresentar-se a si mesmo é necessário dizer de onde viemos, e para isso é necessário encarar e enfrentar o passado presentificado. Não por acaso, toda vez que um personagem conseguia dissolver o conflito interno, acabava morrendo na série, ou seja, assim que mudavam sua posição frente a vida, a jornada na trama chegava ao fim.

O primeiro efeito de Lost nos telespectadores diz respeito aos rótulos que atribuímos a cada personagem. Os bonzinhos, “ruinzinhos”, malvadinhos, e por aí vai. Ao conhecer a história de cada um, a série desmonta todas as representações que tínhamos e nos mostra a dimensão de constituição e desenvolvimento de cada um, ou seja: Somos produto de nossa história e das próprias escolhas.

A história de cada um é tocante e incrivelmente trágica, mas Lost não poupa a responsabilidade que cada um teve naquilo que construiu para a própria vida. Não somos vitimas das circunstâncias, por mais injustas que foram aos nossos olhos. Diariamente nos deparamos com aquilo que somos e gostaríamos de ser. Acontece que nessa novela, a enfase esta no fracasso dessa tentativa de construção de um sentido para a própria existência. Não existem vilões nem mocinhos, mas perdidos!

Acredito que o nome da série brinca com essa tônica: Perdidos na ilha ou na vida? A série vai mostrando que a ilha não é mera coincidência, eles foram escolhidos para estar ali, como alternativa para encontrarem a si mesmos, construir um sentido para si próprios, fazer as pazes com o pai da fantasia. Sobreviver ao acidente se torna um momento de renascimento e de moratória.  E isso ocorre, em certa medida, com todos nós em algum momento da vida. Quando foi ou será o momento em que iremos despertar de nossas repetições e escolhas mortíferas? Para pensar…

Na trama, assim como com todos nós, os personagens são atravessados por ordens impostas sem uma lógica estabelecida. Quase todos os personagens tornam a máscara o próprio rosto. Passamos boa parte da vida ou toda ela tentando ser aquilo que acreditamos que devemos ser. Ai já começa uma questão: a quem devemos isso? Para alguns não ser amado por todos é o pior dos acontecimentos, para outros não ser o herói de cada dia é o pior dos fracassos. Essas imposições que colocamos para nós mesmos fracassam pois gera enorme sofrimento, e não nos liberta da culpa como o prometido. Encarnamos o personagem que criamos.

Por que o último episódio de LOST deixou muitos fãs frustrados? Poderia ter sido diferente? A expectativa era tanta que duvido muito que alguém humano poderia corresponder. Mas me encaixo na fatia da população que esperava algo diferente no seu fechamento. Algumas perguntas não tem resposta mesmo, assim é a vida! Acredito que lançar mão disso a favor de uma visão religiosa foi uma tentativa de deixar a série redondinha. Mas isso não destitui a jornada de tantos anos…

Desta forma, Lost é uma série que exprime muito bem a neurose humana, pois capta os excessos de sentido, a crença de um destino e uma ordem já estabelecida, perguntas sem fim sobre o mistério da vida. E mais ainda, a dificuldade de ultrapassar a grandiosidade paterna em nossa novela familiar.

 

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3 comentários em “LOST: Histórias Restagadas

  1. Camila
    11 de janeiro de 2013

    Duda,
    De todos os belos e muito bem escritos textos de sua autoria, este foi o que mais me tocou. Obviamente, por eu estar assistindo Lost neste momento da vida. Assistindo a 3ª temporada, confesso que por vezes penso em desistir…sensações de irritação e angústia são bem recorrentes quando assisto os episódios, rs. No entanto, tua perspectiva e olhar sobre a série me encantou e me despertou curiosidade. Vontade de quero mais. Foi uma sacada muito sagaz relacioná-la com a neurose humana e, sobretudo, com a questão da posição/função paterna em nossas vidas. Acho que isso também me pega de alguma forma…
    Ótimo entrar aqui e me deparar com esse texto!
    Um beijo.

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  2. Eduarda Renaux
    14 de janeiro de 2013

    Oi Camila!
    Fico muito feliz com tua leitura e opinião. Você coloca algo que não havia me ocorrido, de que as desistências de ver a série toda não se trata apenas de ficar perdido nos episódios, mas fundamentalmente na parcela de angústia que ela causa.
    Obrigada pela tua contribuição e palavras tão acolhedoras!
    Acho que a discussão não deve acabar aqui…
    Porque não um café de filosofia cotidiana sobre Lost quando acabares a série?
    Beijos querida!

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  3. Camila Felício
    31 de janeiro de 2013

    Oi, Duda!

    Eu não tinha visto ainda esse texto sobre Lost e, como já relatei no post sobre Once Upon a Time, estou encantada com a visão que tens ao falar de séries. Tenho um amigo, Sergio, que compartilha do vício no mundo dos seriados e por várias vezes discutimos como as histórias e crescimento dos personagens nos ajudaram no mundo real.

    Meu caso com Lost era vício puro, por isso fui obrigada a comentar aqui. Baixava episódio 1 hora depois de sair no canal americano, participava do maior fórum de discussão de Lost, fazia plantão de compra de box de Lost, uma loucura atrás da outra. E meu envolvimento foi tão grande que no último episódio, após me reunir com amigos ás 5 horas da manhã para ver o season finale, eu me revoltei! E muito! Não só pelo final digno de uma novela de Manoel Carlos, mas com o fato de que o fim estava a muito tempo na cara, o mais simples que poderia ser.

    Lembro que nas discussões em fóruns debatiamos ideias absurdas sobre o final de Lost e era comum tirar sarro se alguém afirmasse o que foi de fato o final escolhido (não vou falar aqui porque sei que muita gente não viu).

    Minha reflexão foi: a gente complica as situações! O que sempre esteve na cara não poderia ser verdadeiro… porque era simples demais. E se tratando da vida eu acredito que agente sempre quer engrandecer.

    Que bom que encontrei alguém que também acompanhou por 6 longos anos Lost.

    Beijos!

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Publicado em 24 de dezembro de 2012 por em Uncategorized.
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