Tivemos a possibilidade de usufruir em Blumenau, quatro dias de Beth Goulart interpretando a peça “simplesmente, eu. Clarice Lispector”. Nas mídias sociais foram diversos testemunhos sobre a peça que encantou muita gente.  Corria-se o risco de um monólogo sobre palavras virar tédio para todos, mas os elogios vieram de todas as partes, e não dividiu gêneros.

Clarice diz: “raiva é a forma mais profunda de ser gente”. Me interroguei sobre o que isso significaria.

Estudos mostram que as mulheres podem ser tão agressivas quanto os homens, porém biologicamente são mais predispostas a serem o sexo frágil. A neuroquímica dos homens tendem, em situações de perigo, a responder com o mecanismo de luta-fuga, enquanto as mulheres buscam formas mais amigáveis de ação. Traduzindo: Previsão de sol amanhã, com possibilidade de chuva a qualquer hora.

Esses estudos são importantes e auxiliam a compreensão de alguns eventos tão curiosos que ocorrem cotidianamente. Mas isolados não dizem muita coisa. “A palavra é meu domínio sobre o mundo”, diz Clarice. Os seres humanos gozam por se acharem seres superiores. Essa suposta superioridade tem nome: somos capazes de pronunciar, transmitir e verbalizar nossa vivência. Ai já mora um problema, pois somos lançados num vazio tremendo nessa consciência de existência. As palavras podem ser uma possibilidade de contorno do vazio.

Mesmo sendo quimicamente tão parecidos, os humanos são profundamente diferentes dependendo até mesmo do país onde moram. Divagando sobre a existência e o que somos, Clarice joga uma pérola: “a angústia depende do angustiado”. Muito o que versar sobre a angústia, mas voltemos a raiva!

A indignação, o descontentamento, a raiva é uma resposta afetiva aos eventos que não podemos tolerar. Como não ficar com raiva diante da violência, desigualdade, injustiça, morte, nas desavenças com amigos, familiares etc, etc, etc? O que suscita a raiva em cada um, depende do raivoso também.

Nesse contexto aqui proposto, a raiva é um posicionamento diante de situações que não podem ser consideradas banais e nossa reinvindicação diante disso. Desejo de mudança, de movimento, de ação.

É  a partir desses afetos já não tão naturais, que vamos construindo nossa realidade e quem somos por enquanto. Como muito bem aponta a escritora, vivemos, mas saber quem nós somos é pedir demais. A raiva pode ser um afeto que, muitas vezes, nos aponta a direção que estamos caminhando, o que vem interrogando, em que posição estamos. Sendo assim, não subestimar, naturalizar e patologizar a raiva foi o que Clarice/ Goulart transmitiu valiosamente para mim…