Quem Tem Boca Vai(a) Roma

A antiga expressão “quem tem boca vai a Roma” já ajudou alguns temorosos as novidades a se orientarem em meio a multidão. Quando utilizamos esse dito popular, certamente nos referimos de que quem fala chega ao lugar que for. Não se acanhe! De pergunta em pergunta, você chega lá!

Mas na verdade a expressão original é “quem tem boca vaia Roma“! O verbo não é ir, mas vaiar! Isso porque os impostos na antiga Roma já eram bastante acentuados e era comum que a população utilizasse o dito como forma de revolta.

Esse deslocamento de “vaia” para “vai a” não é só uma questão de fonética, mas de adequação a uma cultura que esta em constante transformação. Provavelmente vaiar Roma já não condiz com nossos tempos e a possibilidade de mobilidade tem seu destaque maior!

Porém, tem um elemento comum as duas expressões que dizem respeito a voz, ou seja, quem tem voz se faz ouvir! Seja pela via da reivindicação, seja pela via do conhecimento. No dia 16 de abril, comemora-se o dia internacional da voz! Essa data não poderia passar “muda” nesse espaço e é através desse dito popular que pretendo aqui prestar minha homenagem.

Objetivamente falando, a voz humana é o som emitido através das cordas vocais para falar, cantar, rir, chorar, resmungar. Enfim, pode ser desde um som orgânico até a forma mais simbólica de relação com o outro.

Provavelmente não lembramos, mas quando bem pequenos fazíamos muitos sons estranhos e cabia a quem se ocupava de nós traduzir o que cada som representava. De um som sem grande significado, os pais dão voz ao bebe, colocam um sentido, uma linguagem. Sendo assim, voz é mais que som, mas uma forma fundamental de relação com o outro.

Feito mágica, temos a sensação de onipotência pois todo o desejo é traduzido. Não por acaso algumas crianças sofrem da sensação de que pensam em voz alta, pois ainda carregam o que restou dessa primeira etapa da vida. Me lembro que quando criança sempre perguntava para minha mãe diante de uma comida estranha se eu gostava ou não daquilo. Como a resposta era sempre sim, comecei a constatar de que algo estava errado. Ela não poderia saber tudo, cabia a mim provar e tirar minha conclusão.

Com o tempo, não precisamos mais que alguém interprete nossos “ruídos”, nossas dúvidas, podemos falar por si só. Porém não raro, percebemos que essa posição mais primitiva permanece. O pedido é que adivinhem o pensamento, o que sentimos. A interpretação é via feição, pelo olhar e não pela palavra. Ou até mesmo a espera de que o outro fale por nós. No trabalho isso é frequente, nossas insatisfações com uma empresa buscam na figura de alguém um “porta-voz”.

Na etapa adulta ter voz é ter vez, é contornar limites, ter posição ativa na vida. Quem tem voz se revela mais, clareando para si e para o outro onde mora o desejo, seja ele insatisfeito ou impossível. Não ficamos no aguardo que o outro atribua significados por nós. Falamos em nome próprio.

A perda da voz implica em uma série de complicações, como sensação de não pertencimento, aprisionamento dos próprios ideais, dificuldade de autonomia e confiança. E problematizando o hoje, podemos pensar que cada vez mais, o pedido é de calar qualquer manifestação daquilo que se expressa em nós. Não queremos saber o que as crianças nos dizem com sua agitação, não queremos saber de nossas próprias tristezas ou oscilações de humor. Queremos silencia-las.

Se ao perder sentimos dor e a necessidade de se recolher é porque isso é um recurso psíquico importante para a restauração do eu frente a um objeto perdido, fenômeno que damos o nome de luto. Mas facilmente buscamos a medicação, antes mesmo de escutarmos no que implicou essa perda em nossas vidas. Ouso dizer que a vida é uma série de pequenos lutos e novas conquistas.

Se por um lado, o pensamento pode ser um convite ao “jogo de adivinha”, por outro tem os guardiões do pensamento, pensam em tudo e não revelam nada. Já dizia Drummond, “Há um certo gosto em pensar sozinho, é ato individual como nascer e morrer.” Sendo assim, o pensamento é intimo, privado. Cabe a nós saber quando convidar ou não o outro a participar do que pensamos. Convidar o outro a fazer parte de nosso universo individual é sair da solidão pensativa e ir rumo a novos destinos.

Dar voz não se trata apenas de falar, mas de possibilitar que aquilo que habita em cada um possa se revelar de alguma forma que não através de sintomas. Consequentemente, a fala flui. Quando o sujeito dá voz aquilo que adormecia em si mesmo, sua posição diante da vida se modifica. Nos apropriamos de uma liberdade única.

Para aqueles que a vida é uma arqueologia de problemas, uma análise é construir e resgatar voz para soluciona-las. Atualmente penso que “Quem tem boca e um analista/divã vai(a) a si próprio“. Por um lado ficamos mais críticos a nossa forma de se posicionar no mundo (vaia), ou seja, nos damos conta que pagamos preços altos demais por nossa neurose. Por outro, temos acesso a caminhos jamais desbravados por nós (vai a). Freud já dizia que uma análise se destina a dar ao paciente uma informação para si mesmo, que é pertinente, que lhe pertence inteiramente, e da qual não tem consciência. 

Nessa semana da comemoração do dia mundial da voz, desejo que todos possam encontrar os melhores recursos possíveis para exerce-la na vida!

Queria Sorvete mas era Feijão

Quem já não abriu o freezer em busca de sorvete e teve uma grande decepção ao encontrar o almoço da semana no pote branco de tampa azul/vermelha? Mas pelo visto não é só nas embalagens de nosso freezer que nos deparamos com surpresas!

O ocorrido com a marca Ades deixou de cabelo em pé muitos daqueles que contavam em sua mesa o saudável suco de soja. Deixavam seu refrigerante de lado, cheios de aromatizantes, corantes e açucares para saborear uma opção bem mais nutritiva com uma imagem de família feliz!

Meu objetivo aqui não é criticar ainda mais a marca Ades, afinal a mídia e redes sociais como um todo já se encarregaram disso. E não se engane! A Ades é só a marca da vez, pois são inúmeros os exemplos de quebra de confiança entre marcas e consumidores. Um exemplo que sempre me deixa boquiaberta são os pães integrais. Você deve olhar os valores nutricionais atrás da embalagem para se certificar que são integrais mesmo, isso porque uma pequena porção de trigo integral já é suficiente para se dizer integral. Será que não seria mais honesto colocar na embalagem: Pão semi-integral, então?

Mas a questão que proponho aqui é que tudo isso é reflexo de um mal-estar onde a embalagem não condiz com o conteúdo. Amplio isso para as relações humanas, já que estas são as que mais me interessam pensar.

Vivemos um tempo em que o discurso preconiza o “querer é poder e você pode ser tudo o que você quiser“. E quanto mais se comercializa a felicidade, mais antidepressivos são vendidos. Quanto mais se dita o ideal de beleza, mais a obesidade se torna um problema de saúde. Mais divórcios, mais trocas de emprego, mais mais. E onde tem excesso, tem sofrimento. A diferença entre o idealizado e o adquirido, mostra uma sociedade que vive o excesso e em consequência o sofrimento. Do que tanto sofremos, afinal?

Volto para o início desse texto: queríamos uma coisa e no lugar encontramos outra, e temos uma fragilidade tremenda em reconstruir aquilo que se quebrou na diferença do almejado e o encontrado. O problema em si não é a frustração, mas essa ser tomada como fracasso e perda irreparável.

Como vivemos um momento da história em que perder esta fora de qualquer plano, vamos trocando de parceiro em parceiro, de emprego em emprego, de amigo em amigo, para não se frustrar e não mostrar nenhuma falha para o outro. Tento explicar: Existe um tempo específico cronológico e subjetivo para começarmos a lidar com as falhas recíprocas que vão aparecendo em qualquer relação. Todo o início de namoro é perfeito, todo o início de emprego é novidade e aprendizado. Vai chegando o momento, que só o tempo vai possibilitando, que são essas trocas de limitações. Se consigo cortar o vínculo antes que as limitações apareçam, logo sou um eterno potencial, um projeto piloto perfeito, “só não consegui, pois não tentei.”

Abaixo uma tira que achei de uma delicadeza e de uma verdade que merecia ser compartilhada…

Sair do anonimato penso que se trata disso: Correr riscos, apostar! O laborioso não é o aparecer em si mas o que fazer com aquilo que aparece, com aquilo que não controlamos…o previsto e o imprevisto.

Essa medida trata-se justamente da possibilidade que temos de decepcionar e ser decepcionado, surpreender e ser surpreendido. Saindo do campo apenas do idealizado corremos menos riscos de sermos confundidos socialmente com um pote de sorvete numa prateleira, e nos tornamos com mais jeito e cara de gente.

Meio Triste, Meio Feliz

UM RECORTE SOBRE DESPEDIDAS, PASSAGENS, CONQUISTAS E RENÚNCIAS….

Era o último dia de atendimento a uma criança. Ela estava bem, os conflitos estavam na dinâmica familiar. Abordado isso com a família, era chegado então o momento da despedida do jovenzinho. Não era uma despedida fácil, afinal tínhamos construído algumas histórias, passado alguns impasses juntos.

Eis que ele ficou muito brabo ao saber que era o momento de separar-se, de dizer adeus. Recusava-se a falar uma só palavra. Digo que se não era possível me falar o que o deixara tão brabo, quem sabe poderia desenhar o que estava sentindo. Ele desenha dois olhinhos e no lugar da boca um desenho semelhante a um “S”.

Retorno dizendo que não havia entendido, que precisava que ele me explicasse o que isso significava. Para minha surpresa, ele fala: “ estou meio triste e meio feliz“. Meus sentimentos não eram diferentes, mas ele traduziu com uma sagacidade que é própria das crianças.

Por um lado estava feliz por ele estar bem, mas por outro também estava triste com a despedida. Ele estava indo para a primeira série, uma maravilhosa passagem, mas também a coragem do pequeno em deixar a creche para trás. Por isso, esse texto tem como intuito transmitir, que tanto para os pequenos como para os grandes, a vida a fora será assim mesmo.

No cotidiano a recorrente pergunta:
Como anda a vida?
Mais ou menos!

Quem não ouviu ou disse essa frase nas últimas 24 horas? A tal da felicidade plena e constante é uma miragem no deserto. Mas acredito que miragens já salvaram algumas vidas, bem como, já condenou algumas também.

Se temos a felicidade como um horizonte, sempre distante mas potencialmente alcançável  a jornada é longa mas pode ser de bom proveito. Nessa caminhada sabe-se lá quantos momentos felizes teremos até a chegada na miragem da felicidade. Na reta final, podemos concluir que era uma ilusão, mas os encontros que a vida ofereceu foram tantos que a frustração provavelmente não acarretará uma severa depressão. No máximo o luto dessa ilusão, o que já é dolorido o suficiente.

Alguns por saberem que são miragens, recusam-se a caminhar. Criam raízes na areia, pois já que a morte é certa não teria cabimento investir. Os melancólicos sabem muito bem disso. Sabem da concretude da vida e dificilmente são tomados por grande tragédias, pois de trágico já basta a vida. Outros sentem-se tão enganados pela miragem, que desiludidos abortam os planos e ficam no eterno ressentimento da felicidade que lhes foram negada. “Fiz tanto e não fui reconhecido, fiz tanto e não alcancei os resultados que esperava”.

Caminhar cansa, ficar parado dá tédio, e cada passo dado é uma paisagem que se deixou para trás. Deixar para trás é um dos custos mais caros da vida. Acredito que o “mais ou menos” é aquela descrença misturada com esperança. Quando se prolonga demais, é também uma procrastinação. Não faz nada pelo “mais” pois pode ficar com “menos”. O mais anula o menos, o menos anula o mais.

“Meio triste, meio feliz” dessa forma é muito diferente do “mais ou menos” como o jovenzinho nos apresenta. Não existe absolutamente nada de errado em também ficar triste com as boas passagens. Conquistar novos horizontes não é garantia de felicidade, pois também implica em uma perda, em uma mudança, por vezes, assustadora. Apenas estamos avançando na jornada.

Por isso quando alguém lhe disser que só tem motivos para comemorar e que a tristeza não tem lugar, saiba que a vitória é proporcional a renúncia que se fez para conquista-la. Logo temos sim, todo o direito de estarmos felizes e tristes simultaneamente.

Tristes e felizes, avante!!

Apostas que valem um Futuro

Nosso papel enquanto geração esta ligado desde um sentido mais amplo, onde fazemos parte de uma sociedade, e como agentes sociais, temos o dever de promover a diferença em meio as repetições mortíferas que testemunhamos no nosso mundo. A pobreza, a poluição, os abusos, a violência. Todos nós temos alguma ligação com isso e um papel de intervenção.

Num sentido mais específico, estamos também, inseridos em uma família, carregamos o sobrenome que nos antecede. Nossa história começou muito antes de nosso nascimento e não acabará no dia de nossa morte. Por isso, os filhos são a promessa da imortalidade, pois sabemos que as próximas gerações irão carregar as marcas que deixamos, os desejos não realizados.

Fazer parte de uma geração não é simples, carregamos muitas vezes fardos pesados e histórias difíceis. Não raro os filmes que mais lotam as bilheterias e premiações de cinema são baseadas em histórias de superação. Algumas ficcionais e outras embasadas em fatos reais. Na minha opinião ambas se equivalem, pois toda a ficção carrega verdades e toda história real é também uma ficção.

Nossas histórias são atravessadas por uma série de fantasias e versões, mas nem por isso menos verdadeiras. Os fatos batem com a realidade? Tratam-se de recordações não muito confiáveis? Pouco importa! Operam em nós como se fossem o que há de mais verdadeiro. Algumas marcas são tão doloridas que somos acometidos pela sensação de que são insuperáveis. Sentimo-nos aprisionados pelas impressões que deixaram.

E por isso nada melhor do que tomar emprestado as histórias que gostaríamos de viver. Através da tela do cinema, deslizar na vida. Se existe um elo comum nessas histórias, diria que não reside apenas na força de vontade do protagonista que tanto sofre. Mas na aposta que alguém fez nesse personagem. Exemplo: O papel do Fonoaudiólogo no filme “O discurso do Rei”; O papel da torcedora fanática no jovem jogador de futebol americano no filme “Um sonho possível”; ou até mesmo o burrinho na vida do Shrek. Afinal, não esqueçamos que o Burrinho sempre duvidou dessa “panca” de mau que o Ogro encarnava, ou seja, de burro não tinha nada…

Um filme em cartaz do momento é Cloud Atlas, na versão em português “A viagem”. Simpatizo com o título original. E só tenho uma palavra a dizer: assistam! Para aqueles acostumados aos 100 minutos habituais e confortáveis de filme, preparem os ânimos e disposição pois “A viagem” conta com exatos 180 minutos.

O filme condensa passado, presente e futuro em torno de uma mesma problemática: Quando fazemos do outro o objeto de nossas necessidades. O tema é antigo, atual e tem perspectivas para continuar moderno por muito tempo. Mas a reflexão sobre a prevalência de uma raça superior e os abusos que frequentemente testemunhamos, deixo para uma próxima.

Vou me deter a frase que marcou meus pensamentos durante as duas últimas semanas: “Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculadas a outras, passadas e presentes. E de cada crime e cada ato generoso nosso nasce o futuro.”

O ato de generosidade citado, em minha leitura, se trata das apostas que decidimos fazer ou não nas pessoas. Esse texto não será sobre aquele que sofre, mas sobre pessoas que frente ao sofrimento ou condição vulnerável do outro, investem em uma possível mudança, um caminho diferente. E exatamente por isso, é dado a chance de esse alguém renascer e fundar um futuro.

Para o suposto jovenzinho fraco que sempre se percebe sem condição de enfrentar as dificuldades da vida, o que vale é passar-lhe a mão na cabeça ou dar-lhe outro lugar? Dar-lhe coragem para enfrentar e não incentivar ainda mais seu medo. E a menina, que vai mal na escola, rotulada de “tolinha” pelos próximos? Será mesmo frágil cognitivamente ou de tão desinvestida não consegue vislumbrar um futuro diferente para si?

Me pergunto quantos estudantes foram salvos por colegas de classe que viram neles algo que ninguém mais enxergava. Fala-se tanto de Bullyng, mas colegas de sala não apenas rebaixam, mas também apostam. Assim como aqueles professores que mais nos marcaram.

O ato generoso, desse modo, não esta apenas nas doações para o abrigo do bairro. O ato generoso pode ser emergencial dentro de casa, no vizinho, nas panelinhas de quinta-feira, no local de trabalho.

As vezes tenho a impressão de que subestimamos as pessoas, achamos que elas não possuem recurso ou possibilidade de reinventar-se. Devem ficar desde onde pararam. Mas quem sabe precisem de um incentivo, de um novo olhar, de uma diferença e não de alguém que faça por elas. Ou seja: Apostar na possibilidade que cada um tem de dar conta de sua própria vida e por vezes iluminar isso quando estiver escurecido, isso é ato  que pode fazer nascer um futuro para alguém.

Para os que possuem a convicção de que apostar é proteger, diria que a vida não irá proteger o filho, o amigo, o pai, o irmão protegido. O que seremos quando crescermos? Não seremos apenas uma profissão, espera-se que mesmo diante de falhas e dificuldades, sejamos grandes. E tornar-se grande num lugar diminuído é particularmente difícil

Acredito que somos capazes de mudar a direção de muitas vidas, basta nos atentarmos a isso.

Não me siga, Eu também estou Perdido

As férias escolares são tão duradouras que poucos alunos chegam ao primeiro dia de aula sem aquele sentimento de saudade e expectativa. Rever os amigos, conhecer os novos professores, a nova sala de aula, as novas disciplinas, e principalmente, ver a concretude de seu avanço na vida. Afinal não se trata apenas de um novo ano, mas uma nova série que carrega um novo lugar na multidão escolar.

Os jovenzinhos ficam mais próximos de ser adolescentes ou até mesmo adultos. Com frequência se goza dos baixinhos que estão nas turmas anteriores, e assim consecutivamente. Os parâmetros de que esta se desenvolvendo ou se aproximando de algum lugar é mais palpável. Há quem inveje isso nos dias de hoje…

Existia um tempo em que a possibilidade de escolha era para poucos ou para quase ninguém. O casamento já estava arranjado até mesmo antes dos noivos nascerem. Ao primeiro filho cabia a profissão de padre, ao segundo de médico. Se explodisse uma guerra, nenhum homem escapava. As mulheres se ocupavam da maternidade. Tudo era limitado, inclusive a classe social. O destino estava selado por Deus, pelo padre, pelo pai, pelo professor, pelo chefe.

Esse cenário nada nos parece familiar hoje. Temos autonomia de escolher desde as pequenas coisas da vida até as mais significativas. Criamos a nós mesmos constantemente. Mas como nada vem sem consequência, o fato de gozarmos de muita liberdade faz com que recaia sobre os nossos ombros o peso do sucesso e fracasso de nossas escolhas.

Se podemos ser aquilo que queremos, como nos sentimos quando não gostamos do que somos? Provavelmente os fracassados do agenciamento da própria vida. O problema não mora na liberdade, mas sim na representação de que liberdade significa felicidade imediata. Mas escolher também significa frustrações, arrependimentos, renúncias, paciência em suportar o tempo que as coisas levam.

As possibilidades de escolha hoje são tão vastas que o cenário mudou. A questão não esta na liberdade, mas no que escolher. Não raro, ouço pessoas absurdamente desesperadas por perguntar o que deveriam fazer, que caminho seguir. Sentem-se desamparadas. É a famosa frase: Não me siga, eu também estou perdido. De modo geral, todos sentem um pouco esse mal-estar.

Por que o ano novo pode ser especialmente importante nos nossos tempos? Acredito que para quem esta perdido, a virada de ano pode significar um ponto de referência. Balanços do ano, metas para o próximo. E ai tudo e qualquer coisa esta valendo…

Na maioria das vezes pensamos muito mais nas mudanças de hábitos do que nas mudanças em nós mesmos. E porque isso pode ser complicado? Porque a ordem esta um tanto quanto inversa. A partir do momento que mudamos nossa posição frente as situações, a mudança de hábito vira uma consequência que não requer muito esforço. Então antes de fazer planos para as mudanças de hábitos e comportamentos, acho que vale nos questionarmos da importância deles na nossa vida. E isso é trabalho não só para um ano, mas para o tempo que levar. Mas nada impede que esse ano seja seu começo…

Adoramos celebrar a virado do ano, mas a bem da verdade é que ficamos horrorizados com o novo! Pois assusta…mudanças requerem romper com algo antigo e produzir algo diferente. E do diferente temos pouca experiência, é necessário recomeçar. Quantas oportunidades não topamos por medo do que a novidade irá exigir. Pedir um prato diferente ou ir no garantido? Por isso, muitas vezes, perder-se é se encontrar pois possibilita desconstruir-se e se remontar de outra forma.

Mesmo com maior autonomia, tornar-se protagonista e autor da própria vida nos dias de hoje continua sendo um desafio. Num mundo nada pessoalizado, o que vale é o terceirizado. Queremos um especialista que nos diga o que fazer, que nos diga como educar os filhos. Um olhar de fora, pode mostrar aquilo que não queremos ver, é sedutor transferir o trabalho para um outro. Mas como é saboroso quando nos beneficiamos dos olhares, construindo por si próprio o caminho. Não se trata de seguir, mas autorizar-se a caminhar.

Desejar felicidade para esse ano que se inicia? Eu desejo bússolas. Que possamos nos orientar a partir de nossa bagagem, história, ideais. Mesmo com duras quedas no caminho. Pois só tropeça e cai quem caminha. Quem caminha, sai do lugar.

Delírios Noturnos

Em um dia conturbado, nada como dormir e torcer pelo recomeço. A esperança é que no próximo dia possamos apagar as lembranças de um dia ruim, com a possibilidade de acordar e não esquecer de quem somos.

Um comediante que sou fã, Jerry Sienfield, fala que acordar é como voltar a ser bebe. Mal conseguimos caminhar ao banheiro, vamos cambaleando, tropeçando pelos móveis no caminho e falar é o pior desafio, gaguejamos, esquecemos palavras e as que saem são sem sentido. Desaprendemos tudo aquilo que nos foi ensinado durante o dia.

Uma noite de sono é mais do que um divisor do dia para o outro, é o momento introspectivo mais intimo. Os que sofrem de insônia sabem muito bem o que pode significar se entregar aos aconchegos do travesseiro. O que pode acontecer se deixar-se desligar? Dormir é perder o controle racional, para ter acesso àquilo que conhecemos, sem saber. De fato pode ser apavorante!

Os sonhos vem lembrar aquilo que o sono prometeu esquecer! As lembranças, os conflitos, as preocupações, as aspirações e desejos condensados e deslocados num delírio noturno. Quando nos recordamos deles, é difícil passar imune durante o dia. Acordamos com a sensação de que se tratou de algo exterior a nós, algo que foi injetado em nossa mente enquanto dormíamos, um tanto quanto sem sentido. Tanto isso ocorre, como facilmente se associa sonhos com premonição, como se fossemos os enviados divinos para a enunciação do apocalipse. Mas não é disso que se trata…

Ao descobrir o inconsciente, a obra mais importante de Freud é A interpretação dos sonhos. Através da clínica, ele revela a importancia do sonho no processo psíquico de cada um de nós. Não é místico, não é coletivo, não é apenas processamento dos acontecimentos diurnos. É uma construção sem censura e por isso tão surreal aos nossos olhos.

Recordo-me de uma Jornada que fui em que a palestrante conta sua experiência no posto de saúde de sua cidade e sua aposta nos laços afetivos. Ela compartilha ao final que na noite anterior sonhara com a frase: http://www.amor.com !! Nessa hora alguns se aventuraram no “ponto” e no “amor”. Eis que a psicanalista discorda e coloca: O que me ocorreu foi que o que vim aqui dialogar com vocês foi os desafios de trabalhar com a rede de saúde. Quanta delicadeza!! Sim, o significante era a rede (não virtual, mas de saúde).

Tenho uma amiga psicanalista que sempre me fala que quando esta perdida, torce para sonhar, pois os sonhos são como bússolas que falam de nossa posição. Sempre dou risada, pois acho uma fala muita verdadeira. Por mais que sejamos acometidos, muitas vezes, por sonhos de plena angústia, eles sempre estão no campo da possibilidade, de nos orientar e auxiliar a seguir nossos ideais, ou minimamente a mostrar aquilo que ainda temos que avançar.

Hoje, desconfio quando se quer dormir para apagar, pois o sonho vem lembrar aquilo que a rotina te faz esquecer.

Entre quatro paredes

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz

(Chico Buarque – Mil perdões)

“Sou diva, Sou uma diarreia ambulante, Sou purificado pelas cicatrizes do corpo” nos dizem três personagens, de atuação impecável, na peça “Parte doente”. Três personagens, três histórias, um vazio. Não se queixavam do mesmo vazio, nem se quer lidavam da mesma forma com ele, mas estava lá, desvelado para o público.

Salve-se quem puder, pois o que vi na peça só via entre quatro paredes. O sofrimento da gente, guardamos no intimo, no privado, no pensamento, na ação escondida. E como nos é doloroso quando somos pegos no flagra de nosso conflito. A sensação é de estar nu na multidão.

Podemos ser acessíveis, interessantes, agradáveis ou até mesmo normais no dia-a-dia com pessoas. Mas ao anoitecer, quando os fantasmas noturnos aparecem, qual a parte doente que irá despertar em cada um de nós?  Todos têm uma parte sombra que se luta para que não venha á luz. Desde um homem que se veste de mulher, a diva que procura seu câncer existencial numa mancha no rosto, a obsessão pela assepsia, os desejos mais obscuros, um objeto fetichista na gaveta. Alguns sofrimentos, em particular, nos causam entorpecimento e horror.

Uma garota, que nos momentos de profunda angústia, conseguia visualizar o sangue fluindo nas veias, o coração bater acelerado, o turbilhão de sinapses no cérebro. Não era psicótica, mas nos momentos de angústia, o sofrimento denunciava a literalidade e brutalidade do existir (embora o temor fosse que naquele momento não existia e por isso recorria ao orgânico). Se por um lado temos o concreto da vida, por outro temos o abstrato. O abstrato possibilita outro tipo de problema, o excesso de sentido.

Tento me fazer entender: Estamos agora em um museu. Estamos percorrendo a era renascentista onde as pinturas eram verdadeiras fotografias. Continuamos caminhando entusiasmados com a bela arte e nos defrontamos com o movimento cubista ou até mesmo surrealista, onde os traçados, as figuras, as imagens convocam uma interpretação de um enigma. Ao mesmo tempo em que nos causa desconforto, o sentido não tem fim. Tudo tem uma razão de ser.

É como na vida, pois embora nos queixasse o tempo todo da falta de sentido da vida, sofremos do contrário, do excesso de sentido. Tudo deve ter um porque, um significado, um sinal, uma justificativa.

Estava com meu pai, reclamávamos sobre a vida e as dificuldades diárias que temos que enfrentar. Eis então que acaba a energia, ficamos sem luz. De imediato, olhamos um para o outro e falamos: “viu só! Um sinal para parar de reclamar. Nada é tão ruim que não possa piorar!”. Pode ser que isso motive para uma posição mais otimista frente a vida. Mas luzes acabam mesmo, quer ver só em dia de trovoada. E isso não tem absolutamente nada a ver com que falávamos. O sentido é nosso e não exterior.

Buscar a existência do todo é embarcar numa canoa furada, mas construir um sentido para nossa própria vida e ter a possibilidade de encarar a sua brutalidade é um desafio necessário. Pois é o que nos move, que possibilita continuar desejando. Não perguntem desejando o que. As vezes o verbo desejar é intransitivo!

Entre mil e uma coisas que a peça A parte doente me fez refletir, a que escolhi para divagar é que na vida é necessário negociar formas mais acessíveis de desejar, que não nos seja tão custosas, punitivas ou impossíveis. Mas não menos intensas e profundas….

* a imagem do post é a tela da artista plástica Silva Teske.

Toda a magia tem seu preço

Quando me apresentaram a série Once upon a time (Era uma vez), exibida pela emissora Sony, estava cheia de preconceitos, não apostei muito. Dois episódios foram o suficiente para enfeitiçar. Os contos de fada não saem de moda, fato! Eles abordam temas que borbulham nossa travessia pela vida, e não se limitam a infância. E bem por isso, a série tem como público alvo adultos que através dessas histórias tiveram acesso de forma lúdica aos impasses e possibilidades de constituir-se gente.

Resumo do resumo: Uma maldição é realizada pela bruxa má no reino encantado. Qual a maldição? Eles ficarão presos no nosso mundo, onde não existem finais felizes. A cada episódio a história de um personagem encantado, e ali vai se construindo um conto de dezenas de personagens. A Branca de Neve, o Príncipe Encantado e a Bruxa são protagonistas junto com o mais poderoso de todos os contos, Rumpelstiltskin, que é chamado carinhosamente de Rumple.

Rumple é um homem covarde, cede de seu desejo o tempo todo. Acovardado, acaba por perder muitos que estão a sua volta. Falta de amor? Não, excesso de medo mesmo. Como uma forma de se redimir de tantos medos, ele recorre à mágica. Tenta através do poder equilibrar a covardia. Poder e coragem não se equivalem, podemos ser fracos e extremamente corajosos. As coragens necessárias para construir e lutar pelo que se deseja é o que essa “novela” nos convida a embarcar.

A cada um que cruza seu caminho Rumple alerta: “toda a magia tem seu preço”. Quase nenhum deles, dá a devida atenção a essa advertência. Embora, Rumple seja um dos personagens que mais cativa a minha atenção, é sobre a Bruxa má, chamada na série de Regina, que pretendo decifrar uma possível versão dessa maldição que é abordada.

Regina é atormentada por uma mãe cruel e possessiva. A garota é impedida de realizar seus desejos e seguir seu caminho. Ela aspira à liberdade, que para ela é libertar-se da mãe. Cora (mãe de Regina), uma mulher amargurada e detentora de magia não vê uma filha ali e sim um objeto que deve realizar as próprias ambições. No decorrer, várias tragédias acontecem, mas a pior delas é que Regina acaba a cópia da mãe. Em uma passagem a garota fala: “Não quero acabar como você” e num ataque de fúria contra a mãe a joga em outro reino bem distante.

A tentativa de separação física foi recurso encontrado como uma tentativa de separação psíquica. Tamanha a simbiose das duas, a estratégia falhou. Regina vai ficando cada dia mais parecida com a mãe, ao passo que usa da mágica para manipular a todos a sua volta, bem como a mãe fazia.

Na cidade amaldiçoada, Regina é prefeita e adota um filho. Mais uma repetição familiar que passa para a próxima geração: o filho adotado, em determinado momento, retorna dizendo o quanto não quer ficar igual a mãe. O laço não é o de sangue, mas o da transmissão. Ali foi a cena mais tocante da série, pois a mesma se dá conta de seu equivoco. Arrasada, onde Regina acaba? No sofá do psicólogo.

Ela passa a frequentar o terapeuta da série: o grilo falante, a consciência. Mas de consciência a trama tem pouco. O brilho esta nas motivações inconscientes dessas relações. De que magia estamos falando?

Acredito que a mágica é a do nascimento e o preço que isso nos custa. A dívida da existência é impagável. Algumas mães abusam desse poder e alguns filhos se aproveitam disso. Em especial a relação mãe-filha é delicada, a própria semelhança anatômica é convidativa.

Mães dominadoras geralmente criam filhas tais como. A maternidade é mágica porque fala daquilo que passamos a vida tentando entender: de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. A consciência da existência, a busca eterna por saber mais da criação. A religião e a ciência são as principais protagonistas na tentativa de respostas. A existência é pura magia, mas o que vem depois do nascimento não é tão encantador assim.

Na fantasia da criança, nada mais poderoso que a possibilidade de gerar uma vida. As mães são poderosas não só pela possibilidade de dar vida, mas também uma questão de sobrevivência. Alguns adultos seguem vida afora acreditando que não podem existir sem a mãe, motivo para muitos ressentimentos e amarras.

Uma vida pela outra, eis o que a maternidade pode representar para algumas mulheres. Já outras são tão alienadas a figura da mãe que ficam eternamente identificadas no lugar de filha, a maternidade se torna impossível. O amor exclusivo como tentativa de pagar a dívida da vida.

Parece-me que isso em certa medida ocorre com Regina que não gera um filho, mas adota um. Todas as suas tentativas de ser mãe, falham. O amor dela está aprisionado, sentindo-se incapaz de amar novamente. O amor por outras figuras para além da mãe é muitas vezes, a possibilidade de separar-se, buscar um caminho.

A fantasia que testemunho cotidianamente no meu trabalho, é que abandonar a dependência da figura materna significa deixar de amar, perder sua história original, além de uma culpa avassaladora. Sentir-se responsável pelo sucesso e felicidade da mãe é a tarefa diária e sempre impossível. Tal posicionamento acarreta em uma escravidão.

É muito importante que a menina se identifique com alguns traços da mãe para constituir-se mulher. Mas esse é o início da história e não seu fim. Para podermos constituir-se gente, termos nosso próprio “eu” precisamos nos diferenciar, ter nossas particularidades. Se identificar completamente com alguém é morrer, pois seremos aquela pessoa e não nós mesmos.

Essa é a liberdade aspirada por Regina, ser mulher e feliz, podendo contar com o amparo materno mesmo não correspondendo aos ideais da mãe. A travessia é difícil, mas compensa! A liberdade, assim como a magia, tem seu preço.

Raiva desnaturalizada com Clarice

Tivemos a possibilidade de usufruir em Blumenau, quatro dias de Beth Goulart interpretando a peça “simplesmente, eu. Clarice Lispector”. Nas mídias sociais foram diversos testemunhos sobre a peça que encantou muita gente.  Corria-se o risco de um monólogo sobre palavras virar tédio para todos, mas os elogios vieram de todas as partes, e não dividiu gêneros.

Clarice diz: “raiva é a forma mais profunda de ser gente”. Me interroguei sobre o que isso significaria.

Estudos mostram que as mulheres podem ser tão agressivas quanto os homens, porém biologicamente são mais predispostas a serem o sexo frágil. A neuroquímica dos homens tendem, em situações de perigo, a responder com o mecanismo de luta-fuga, enquanto as mulheres buscam formas mais amigáveis de ação. Traduzindo: Previsão de sol amanhã, com possibilidade de chuva a qualquer hora.

Esses estudos são importantes e auxiliam a compreensão de alguns eventos tão curiosos que ocorrem cotidianamente. Mas isolados não dizem muita coisa. “A palavra é meu domínio sobre o mundo”, diz Clarice. Os seres humanos gozam por se acharem seres superiores. Essa suposta superioridade tem nome: somos capazes de pronunciar, transmitir e verbalizar nossa vivência. Ai já mora um problema, pois somos lançados num vazio tremendo nessa consciência de existência. As palavras podem ser uma possibilidade de contorno do vazio.

Mesmo sendo quimicamente tão parecidos, os humanos são profundamente diferentes dependendo até mesmo do país onde moram. Divagando sobre a existência e o que somos, Clarice joga uma pérola: “a angústia depende do angustiado”. Muito o que versar sobre a angústia, mas voltemos a raiva!

A indignação, o descontentamento, a raiva é uma resposta afetiva aos eventos que não podemos tolerar. Como não ficar com raiva diante da violência, desigualdade, injustiça, morte, nas desavenças com amigos, familiares etc, etc, etc? O que suscita a raiva em cada um, depende do raivoso também.

Nesse contexto aqui proposto, a raiva é um posicionamento diante de situações que não podem ser consideradas banais e nossa reinvindicação diante disso. Desejo de mudança, de movimento, de ação.

É  a partir desses afetos já não tão naturais, que vamos construindo nossa realidade e quem somos por enquanto. Como muito bem aponta a escritora, vivemos, mas saber quem nós somos é pedir demais. A raiva pode ser um afeto que, muitas vezes, nos aponta a direção que estamos caminhando, o que vem interrogando, em que posição estamos. Sendo assim, não subestimar, naturalizar e patologizar a raiva foi o que Clarice/ Goulart transmitiu valiosamente para mim…