A Neurótica – Mundo da Lua

Quando se esta em apuros qualquer jacaré vira tronco, já dizia o ditado. Mas no caso dela uma lagartixa já estava de bom tamanho. Tinha uma amiga que era super astral. Fazia loucuras com os dentes dos jacarés que encontrava pela vida, não era risco, mas aventura.

Jogada na cama feita feito um saco de ossos, músculos e gorduras alcançou com esforço o celular. Lá uma mensagem da amiga – corre que a Mestre dos Mapas esta na cidade. Tira teu mapa astral para sair dessa foça. Meio dormindo, meio morta, agendou um horário. Afinal, sua parte dormindo ainda era sua parte mais viva que tinha.

Data de nascimento? Perguntou a mulher. Falou a data, com pesar. Lembrou da idade que tinha e ficou infeliz pela eternidade dos segundos.

Hora de nascimento? Seguiu as perguntas. Minha mãe falou que tal hora da tarde, respondeu a Neurótica. Tem certeza? desconfiou a mulher. Senhora, vindo da minha mãe, eu duvido de tudo. Ah, Confirma então, porque isso é muito importante, enfatizou a Senhora. Para a surpresa da Neurótica ao pegar a certidão de nascimento, a mãe tinha razão.

Não te dais bem com tua mãe, né? Perguntou a mulher. Falar de mãe não, não!!! Porque todos os caminhos levam na mãe? Até no caminho dos astros e planetas. Não é mundo que gira em torno da mãe, é o universo! Pensou a Neurótica.

Aguardou uns instantes entre olhares enigmáticos.

– Tens o resultado, é grave? Perguntou a Neurótica. Deu câncer, falou a Senhora. Ah meu deus!!!!! Se apavorou a Neurótica

-Olha guria….ia falando a Senhora. A Neurótica amou ser chamada de guria, até esqueceu a data de nascimento, o signo e ascendente.

-Lua em câncer é tipo, emoção na emoção. Mas obvio que tudo tem seu lado luz e sombra, assim como a lua. Você é empática e acolhedora mas….e assim seguiu a Senhora com as explicações. Mas a Neurótica não ouvia mais nada, só o eco da palavra câncer.

– Da de trocar de lua? Perguntou a Neurótica. Não, respondeu a mulher. Mas veja minha jovem…deixa eu lhe explicar, seguiu a Senhora.

“Minha jovem?!!!!”. Essa mulher esta tentando me seduzir, pensou a Neurótica. Será que gostou de mim? Ela tem seu charme. Seguiu no devaneio. Passou mal de emoção. Numa rota desesperada de fuga, A Neurótica pediu licença para sair.

Estava com uma paixão “plutônica”, já pensando em sua aliança do tamanho dos anéis de saturno. Nas “terras” hostis do amor, feito Júpiter, é melhor ter cautela.

A Senhora tentou detê-la. “Amada, ainda falta ver as casas, falta tudo, tem muita coisa para ver.”

Agora a Neurótica tinha certeza! A Senhora a amava, tão certo quanto a chegada do homem a lua. “Para o mundo um passo, mas para ela um salto de humanidade”. Correu para ligar para amiga aventureira e contar o ocorrido, estava em êxtase. A amiga desanimada ouviu pacientemente. Mas resolveu não colocar lenha na fogueira, a situação já estava quente feito mercúrio.

Sentiu uma animação que há tempo não sentia. No fundo sabia que era delirante, mas queria saborear cada momento. Sentia uma beleza de Vênus. Porque toda a mulher é terra, é fertilidade, é criação. Toda a mulher é água, emoção. Toda a mulher é fogo, sonhadora, visionária, movida pela paixão. E toda a mulher é ar, razão, guerreira. Toda a mulher é coração e intuição.

Pela primeira vez em muitos anos, através de outra mulher, sentiu-se ainda mais mulher. Sentiu vontade de ligar para a mãe e falar de sua gestação e de seu nascimento. E pela primeira vez não falaram de doença e nem drama.

Vai ver esse câncer não é tão grave assim, era apenas em sua fantasia inicial. Mas nesse  mundo da Lua, encontrou seu mapa, encontrou seu lado astral.

Eduarda Renaux

 

 

 

A Neurótica – Pedra da Lua

Enquanto ouvia “Total Eclipse of the heart” da diva Bonnie Tyler, sentia o cheiro da infância no carro velho dos pais. Pedia para repetir a música a viagem toda, mesmo sem entender uma palavra de inglês. Não era romântica, tampouco dramática, mas a música era a trilha sonora perfeita para seus pensamentos. Quais eram? Provavelmente o quinquagésimo oitavo amor nos seus oito anos de idade. Mas não, não era romântica e tampouco dramática.

Furou a fila da puberdade e chegou na adolescência com antecedência, o azul do sol abruptamente se tornou o preto da noite, feito eclipse. A cor preta tinha sabor de infância perdida, disfarce dos enlutados.

Tem gente que conta primaveras, ela contava luas. Não poderia esperar todas as outras estações para florescer. Mas tinha fase que esperaria, tinha fase que não. Dependia da lua e da próxima menstruação.

Pegava a palavra, arrumava um amor, bagunçava a vida e seguia para a próxima poesia. Quando foi guardar o que viveu, cabia tudo no bolso. Quilômetros de vida desperdiçada, deduziu. Que fase!

Emprego novo, lua nova. Tagarelou silêncios, organizou a casa e seguiu para a próxima planilha. Foi guardar a vivência desse período e entulhou as gavetas. Só podia ser enfim um passo na vida, cautelosamente ponderou.

Passadas algumas estações, não tinha mais aroma, sabor, formato. Até tinha, mas a infância se tornou tempo e não mais aroma, o preto era cor e não tinha sabor, palavra não contagiava, não se pegava, apenas uso pontual da comunicação.

O que tinha acabado então era a poesia. Essa de fazer as coisas caberem no bolso.

Não dependia mais da lua, mas de todas as outras coisas. As importantíssimas pendências descartáveis cotidianas. Feito gavetas abarrotadas de burocracias, dessas que  ninguém abre até o dono virar estrela no céu.

Precisava mudar o disco, pensou. Logo em seguida a trilha sonora voltou na lembrança. Com muito riso estranhou sua paixão pela nada dramática e romântica música “Total eclipse of the heart”. Drama e humor, luz e sombra, dança de gente estranha que pisa no pé do outro,  ri em velório e chora em casamento.

A partir dali, quando estava perdida passou a confiar na trilha sonora que escolhia, porque trilha é o som do caminho….basta escutar!

Eduarda Renaux 

A Neurótica – Pedra do Sol

Um sol de cegar os olhos! Sentada na praça, tão atordoada quanto a multidão que ali passava. Mas não era isso que justificava sua cegueira daquele dia. Se era olhar cego ou vago, nem Cristo sabia. Ela se mantinha sentada sem saber bem no que reparava, tudo e nada lhe chamavam a atenção. Lhe faltava corpo.

Existe uma angústia que não se nomeia quando o pensamento parece não ter direção ou intenção. A claridade ofuscava a clareza das idéias, mas também, clareava as idéias obscuras. E o conceito de existência sufocou o peito, engessada na definição crua de que de coração e respiração que se faz do corpo uma vida. Essa foi a primeira anotação que fez no pedaço de papel que trouxe consigo: “Fazem um corpo viver, mas não garantem a vida.”

Ela era multidão, ela era a dor de cada peito e a respiração pesada de cada angústia. Mas também era o sorriso fácil e o frio na barriga, e até samba no pé. E foi assim, tal qual uma mãe que vai nomeando cada parte de seu bebê para dar-lhe um corpo linguareiro, que a Neurótica conseguiu ser mais que um coração e um pulmão. Dando com a língua nos dentes, safou-se de ser Psicótica e manter-se Neurótica. Ela era cara de pau para lidar com situações extremas mas fazia corpo mole com aquilo que não parecia urgente de resolver.

Ela era mão boba quando estava com um amor engatado, sangue nos olhos quando sentia-se desafiada e o calcanhar de Aquiles daquela antiga paixão. Era também dedo duro do chefe e costas quentes de muita gente. Por vezes, falava pelos cotovelos e metia o nariz onde não era chamada. Defendia com unhas e dentes uma vitória, mas parecia ser feita de açúcar quando fisgada por uma boa história.

“De caco em caco construo meu mosaico”, prosseguiu escrevendo. De palavra em palavra, construo um corpo. Ela já não era só multidão, mas a identificação com a particularidade de cada um que passava. Ela não mais só existia, ela era vida. E podia a compor como queria….

Ser,

Vida,

Ser vida,

Servida…..

Do que lhe dá vida!

E o que se escolhe na vida para dar vida a vida vai fazer toda a diferença para a vida que se tem.

Eduarda Renaux

A Neurótica – Pedra de Aylaat

Se a vida não podia ser mais fácil então que Deus lhe desse força para enfrentar o que viesse. “Dai-me força”, era só o que ela conseguia repetir a si mesma quando o pensamento vagava sem direção. Não podia ter certeza se pedia mais força porque desejava que assim fosse, pesada e conflituada ou se reconhecia que se sentia frágil demais para suportar o que a vida ofertava. Tinha uma percepção clara porém distorcida de que os últimos anos haviam cobrado um preço alto demais.

Fazia uma minuciosa avaliação de seu rosto de dia. Já a do corpo era a noite. A lógica seguia da seguinte forma – apenas a noite o corpo já daria evidencias de ter sofrido as alterações de pressão, olhares, temperatura e peso. Já o rosto, era do contrário, toda a marca da dor apareceria pela manhã, pois a noite era o momento que olhava para dentro de si. Do corpo esperava as oscilações de um dia. Do rosto, de uma vida inteira.

A vida não era uma linha reta para ela, e sim curvas onde era impossível antecipar a próxima paisagem. A Neurótica nunca poupou a idealização e a fantasia quando se tratava dessas curvas. Mas não podia percorrer concretamente isso, inibida de qualquer ação.

Não era preguiça, tampouco falta de força, era medo. Considerou que devesse pedir aos céus por coragem. Nessa mesma fração de pensamento se perguntou qual diferença entre esses pedidos que vinha fazendo.

Reconhecer o próprio desejo requer muita coragem. E encontrar coragem dentro de si gera muita força. Mas tem momentos que a força te mantém lá, mesmo onde faz sofrer, onde a paisagem já é prevista. Ela tomava força como o resultado de uma perseverança de que precisa ficar como está  para dignificar a vida. Uma perseverança em manter reta a vida, a inércia diante das escolhas feitas, um apagamento do que o medo apontava durante a noite. Não à toa acordava cansada de uma vida inteira.

Seu medo aparecia justamente quando mudanças pairavam no ar. Recorremos a coragem quando podemos mudar de lugar, atravessar a curva e encarar a nova paisagem, nunca uma escolha fácil, essa de desejar.

“Menos espelhos e mais janelas” refletiu a Neurótica, que já não olhava para os lados para seguir em frente.

Eduarda Renaux

 

 

A Neurótica – Quartzo Rosa

 

Tanto a cura como a doença bebem da mesma fonte, o amor. Se o coração fosse bússola, os pontos cardeais seriam as direções que cada um escolhe para amar e ser amado. Num encontro, me encontro no outro. Os amores tão intensamente vividos, que nos marcam a pele feito rugas e cicatrizes.  No olhar, enxergamos a expressão de gente sofrida e também o brilho de quem carrega as paixões ainda vivas, fortes no peito. Os envergonhados sabem o quanto do outro se vê nos olhos, chegam até a evita-los. Quem já não desviou de um olhar, o espelho da alma?

Das nossas águas salgadas brotam as lágrimas, de quem lutou cara a cara com o mar aberto, sentiu o desamparo da falta de terra firme para mirar, diga-se de passagem, a miragem de um outro, de alguém para confiar a vida. Quando a miragem falta, uma solidão tão crua, que esvazia nossos oceanos e chega a nos deixar secos por dentro. O bicho-gente passa a vida transformando desconforto em sofrimento. A lágrima da dor física vai se humanizando, com o tempo, se torna sofrência afetiva, já tão lapidada que chega a ser bela.

“Se cura um amor com outro” diziam para a Neurótica. Mas há de existir um primeiro amor. Engana-se quem pensa que é só de amor romântico, esses de casal, que um travesseiro acolhe as lágrimas. Simples e complicado assim, trata-se de amor, de ser amado, de ser aceito, de sentir-se seguro, de morar no calor do coração do outro.

A Neurótica achava que não sabia amar porque não sentia que seu primeiro encontro com o outro foi desses de espelho da alma. Carregou a cicatriz de se pensar não ser amável o suficiente, de não ter um olhar para olhar. “Meu abrigo não foi um colo, não nasci da água, mas do deserto”. A filha da mãe queria chorar oceanos. Mas sempre se via construindo castelos de areia nos relacionamentos. Precisava de pouco para ruir.

A Neurótica era feita das áridas areias, dos extremos do calor e do frio, de tempos hostis. Feito deserto, a cada sopro toda sua geográfica mudava. Sofria de uma instabilidade horrenda. E por isso temia tanto os ventos da mudança, pois a cada transformação já não podia dizer de si.

Mas os ventos inevitavelmente haviam mudado, sentiu terror, mas também uma curiosidade. Cabe sinalizar que a única barreira possível para combater a hostilidade é a curiosidade. A curiosidade é resistência….é o espelho de um olhar.

Eduarda Renaux

 

 

 

A Neurótica – Turmalina

Quem choraria minha morte? Uma pergunta que a Neurótica sempre se fazia como uma tentativa de medir sua importância nesse mundo, tão cheio e tão ruidoso. Justamente ali onde o outro já não importaria mais. Onde não iria abrir os olhos e vê-los lá, com seus problemas e onipotências. Às vezes não tinha certeza se o Shakespeariano romance “Romeu e Julieta” se tornara uma épica história de amor ou a realização de um desejo macabro: poderia o outro sobreviver sem mim? Pode-se morrer de “brincadeirinha” para assistir essa gloriosa importância?

Descansa em paz o morto porque quem sofre é quem fica. “O inferno são os outros”, já dizia Sartre, moço sábio esse. Mas engana-se quem pensa que é de morte morrida que se inventa um luto.  Existia vida antes da sua chegada ao mundo, essa foi a constatação feita pela Neurótica com cinco anos de idade ao perguntar de onde vinham os bebês. Seus pais não nasceram com ela, tiveram inclusive uma interessante história juntos. O luto do desde sempre e para sempre, do infinito.

Como ousaram ter uma vida feliz sem mim? Sofria a pobre criança desamparada das próprias ilusões. Até a profe da escolinha, já teve outros alunos e terá outros e mais outros depois da Neurótica mirim, golpe sujo, golpe baixo, traição!  O mundo se fez mundo desde sempre, apenas seu mundo começou ali onde nasceu. Que pesado não carregar o mundo nas costas. Que grande dor essa de não ser a única causa e conseqüência da humanidade. Preferia não saber de onde vinham os bebês. Quem sabe por isso tinha sérios problemas para se relacionar. Ali onde essa pergunta lhe retornava mesmo sem saber.

– Tú, tú, tú, tú!!! Não te ocorre que a vida do outro não gira mais em torno do teu umbigo desde que saísse da barriga da tua mãe? Perguntou a voz do outro lado da linha.

As vozes sempre tão certeiras em trazer incômodos. Precisava falar justamente sobre a mãe? Será que as pessoas não entendem que não é por acaso que “ Seu filho da mãe” virou um social lembrete desconfortável? Pobres mães, deveriam inventar algo que as ajudasse nesse fardo. Algo como: Sua mãe de filho! Pior dos xingamentos, riu de si mesma, aliviada com a divisão prática do problema. Mas por alguma razão, ser mãe de filho não ofende. Experimenta ser um filho da mãe?

– Vá ler história antes de criar histórias. A voz importuna pronunciou. O antigo Código Cívil não legitimava filhos fora do casamento, por adoção ou mães solteiras. Ser filho da mãe era ser um bastardo sem direitos. Ponto. E já lhe disse para procurar um psicólogo.

Mãe vitima de uma sociedade machista e patriarcal ou algoz da minha vida? Prefiro minha história inventada. Advogado racional, entende de leis, códigos e não entende de pessoas! Entre seu blábláblá fico com meu mimimi.

Mas de alguma forma se sentia amparada pelo blábláblá regado de pompa, regras e códigos cíveis. Ele choraria minha partida? Me dá trela porque não quer desligar? Desligar é tão diferente de desconectar. Sensação que há tempo não tinha. Desligar é separar. Licença para entrar é tão árduo como a licença para sair. Esse lamento de sair sem saber se é possível voltar. Constatar que a vida dele segue mesmo sem mim…

Eduarda Renaux

A Neurótica – Rodocrosita

Meditação, o caminho para a cura. Foi o que ela leu. Foi também o que ela quis ler. Na rede social, quando paramos para ler um texto, efetivamente fazemos uma escolha rara. Entre as seiscentas e trinta janelas de vizinhos, melhor dizendo, de contatos que ela tinha, eram as fotos, os desabafos, as opiniões, os “textão” que lhe interessavam. A grama do vizinho sempre tão mais verde.

Sentia-se tão infeliz e menosprezada com uma vizinhança tão realizada e segura de si. Já tinha lido e ouvido o velho ditado de que quem vê cara não vê coração, mas nem que fosse por alguns minutos dedicados a uma glória, aquela selfie sensual, naquele momento, naquele segundo, algo tão pleno. Alguém havia sido feliz por um segundo. O pensamento vagava por horas sobre o segundo da felicidade do outro. Seiscentos e trinta vizinhos no celular, na palma da mão. Haja grama, vastidão, devastação!

Tentava decifrar em cada janela, com lentes de aumento para enxergar melhor. Aumentar as coisas sempre foi uma maneira impertinente do ser humano enxergar o que lhe convêm. Pensa que vendo maior, começa a enxergar. Pobre chapeuzinho vermelho, conheceu bem essa miopia e foi devorada. A ilusão é cega ou causa deformidades. Em tempos onde ser invejável é condição, ser feliz é render-se a uma humildade mundana. Mas não importava para onde olhasse, eles estavam lá, tão onipotentes, grandes, disformes.

Deveria divagar menos e meditar mais. Foi o que ela pensou. Foi o que ela leu. A tal cura, curar-se do outro, tão grande, tão irresistível. Acendeu velas brancas que guardava na dispensa em dias de queda de energia, colocou Yanni para tocar, sentou no chão com as pernas cruzadas feito índio, fechou os olhos e se concentrou.

Não posso pensar em nada. Seria a epidemia de depressão na verdade uma epidemia de gente que enxerga demais? Pera, volta. Não pensa em nada. Respira. Ontem assisti no jornal que utilizaram armas biológicas na Síria, que cena de horror! Crianças morrendo de dentro pra fora. Deveria ser proibido divulgar isso. Volta, volta! As vezes também me sinto morrendo de dentro para fora. Volta, volta, volta, volta! Pensa em algo calmante, Coelhinhos brancos, ursos pandas comendo bambu, gramados verdes, algodão doce, torta de vovó. Pensando nisso, será que eu desliguei o forno? Volta, respira. Chega!

Irritou-se com a própria irritação. A meditação foi um fracasso. Sentiu-se desamparada. O silêncio era barulhento demais. Esse ruído que vem de dentro. Não importava o quanto se afastava, eles ainda estavam lá. Onipresentes. Precisava de ajuda, precisava de um outro que lhe ajudasse. Estava incrédula com a própria constatação. A meditação até que foi bem sucedida. Estava a caminho daquilo que não se cura, mas que se pode tratar. As lentes disformes, a medida das coisas.

Pegou o telefone, ali onde o outro a princípio não estava porque até então não existia. Ali onde não poderia espiar, onde teria que pedir licença para entrar….licença para entrar.

Eduarda Renaux

Velório em Festa

A próxima da fila era eu, certamente. A última de minhas amigas de nossa geração havia acabado de falecer de infarto fulminante. Coitada! Me corrijo prontamente em pensamento, coitada nada! Essa sim sabia aproveitar a vida. Tinha 88 anos e posso contar nos dedos seus dias de mal humor. Inclusive tenho uma forte impressão que ainda namorava nos finais de semana o que contribuía muito para sua vitalidade.

Entre um cigarro e outro, tinha um olhar charmoso que até os mais jovens sentiam vontade de conhece-la melhor. Não era das amigas mais ouvintes que eu tinha, mas posso afirmar sem dúvida que os momentos mais intensos foi ela que me permitiu viver.

Ela amava velórios! Não das pessoas desconhecidas, claro! Mas tinha uma estranha filosofia de que a perda a motivava a compreensão do que o falecido havia lhe deixado como legado. Dizia que em vida aproveitamos as pessoas, na morte aproveitamos as lembranças.

Ela pensava que caso não tivesse motivos para agradecer a boa relação com o morto, ia ao velório não para lamentar a perda, mas lamentar o desencontro em vida. Os que não a conheciam podiam jurar que os mais distantes foram os que mais lhe despertaram sofrimento. Como poderia mostrar tamanha tristeza para os distantes e tamanho brilho para os próximos?

Penso que essa era uma possibilidade que apenas ela conseguia usufruir e eu a invejava por isso. Ela ficava matracando durante os enterros, lembrando com alegria cada particularidade que teve com o defunto. Eu achava até graça, pois de alguma forma, ela dava vida ao corpo pálido. Como se com as palavras dela o sangue voltasse a produzir rubor naquela face já sem vida.

Eis outra característica dela que me intrigava, apenas a ela permitíamos que nos enchesse de vergonha em público. Era um vexame atrás do outro. Mas eram os momentos que mais nos sentíamos vivas. Os enterros de cada uma de nós, graças a ela, também eram vergonhosos. Risos, cantorias, falatório. Definitivamente não pegava bem.

Comigo já era diferente, eu chorava, sentia dor, nó na gargante, medo, angústia. Me perguntava como era morrer, o que se sentia, como seria não existir mais. Nesses momentos sofria de uma dor egoísta. Não sabia se lamentava pelo morto ou pela minha própria finitude. Lembrava com frequência de algo que tinha lido da Clarice Lispector: “Quando eu morrer vou sentir tanta falta de mim mesmo”.

Sim, era isso! Eu iria sentir falta de mim, porque sem mim, tudo ao meu redor não faria mais sentido. O mundo não sobreviveria sem a minha presença. Não o meu mundo. Era demais para minha cabeça. O pior da finitude é que você não perde apenas a vida, perde tudo que conhece dela.

Minha amiga prezava muito as lembranças e recentemente havia sido diagnosticada com Mal de Alzheimer grau leve. Tenho certeza que optou fazer o coração parar de funcionar a perder gradativamente tudo que os mortos lhe deixaram. Isso seria como perder uma herança de uma vida inteira numa mesa de cassino. Seria acabar na sarjeta psíquica.

O velório dela foi o único que festejei. Pois ela me permitia fazer coisas que eu sozinha não conseguia. Agora ela não mais existia para celebrar o que eu mesma não conseguia enquanto agonizava em lágrimas. Esse foi seu legado, já não posso mais me envergonhar de sua filosofia, devo encorporá-la em mim.

Me despedi grata e com o sol torrando meu rosto. Não poderia ser diferente, ela não permitiria nem mesmo o céu chorar sua partida. Saí do enterro, fui para a praia e com alegria passei o dia relembrando nossos momentos memoráveis. Sai da fila dos mortos e entrei no laço da vida. Realmente tem relações que só conseguimos dar significado com a partida! Disso ela já sabia…

Obrigada amiga!

Eduarda Renaux

 

 

Despertou!

Despertou! Sem o sobressalto do despertador e nem de um pesadelo. Apenas abriu os olhos como se o sono nunca tivesse lhe alcançado naquela noite. Mas também lembrou que foi dormir exausto. Já sabendo que sofreria rigorosas consequências desse ato encorajou-se a olhar o relógio, com um dos olhos meio aberto e o outro fechado. Eram duas da madrugada. Se confortou em saber que teria mais quatro horas até o tempo de se levantar, mas se angustiou dado o quanto desperto se encontrava.

Virou para o outro lado da cama na certeza de que a posição que a cabeça ocupa no travesseiro era decisiva para voltar a dormir. Alguns minutos depois resolveu retornar para a posição original com a regra básica: Jamais abrir os olhos quando se tenta voltar a dormir! Abrir os olhos significava covardia na guerra contra a insônia. Quem esta acordado mantém os olhos abertos entre uma piscada e outra. Quem mantem os olhos fechados dorme ou esta morto.

Começou a pensar que se estava de olhos fechados e não estava dormindo e nem morto, desconfiou da própria regra. De pronto abriu os olhos para ter certeza de que estava vivo.Quebrou a regra e ficou perplexo com a própria fraqueza. Fechou os olhos com força, respirou fundo, dobrou os joelhos para o lado, puxou as cobertas para próximo do queixo e estava decidido a voltar a dormir. Mas lembrou que dormir não era decisão, mas uma entrega.

É um ato de muita coragem dormir, perder o controle de quem tanto vigia o dia, para não perder-se de si mesmo. Quem sabe não gostava do que via por dentro, não gostava da sua versão revelada, inquieta, insatisfeita. Associou que sua insônia tinha começado após uma série de noites com pesadelos em série. Definitivamente preferia olhar para fora, mas sem nada ver. No íntimo não gostava da própria vida, mas como já suspeitava não olhava para o íntimo fazia anos.

Tinha um medo enigmático de dormir e não acordar mais. Pensou em tomar um indutor do sono, não que fosse a favor de tomar remédios para dormir, mas até mesmo adultos precisam de uma musica de ninar vez ou outra. Mas não era a vida insatisfatória que lhe preocupava, mas sua insônia. Enquanto perdia tempo associando o sono com o medo da morte, em nenhum momento lhe ocorreu associar o sono com o medo de viver. Tinha que tomar uma atitude, a insônia era sua fiel mensageira, cuja a mensagem nunca chegava ao destino final.

Já era cinco e quinze da manhã e ensaiou um cochilo, acordou exausto com um único pensamento: que o dia passe depressa para que pudesse voltar para cama.A vida era uma longa espera por dormir e dormir era uma longa espera por não morrer.

Até que dessa penúria, a insônia dessa noite sussurrou uma ideia: não era a noite sua inimiga, mas a forma como vivia o dia. Ali também já não sonhava mais. Nem de dia, e nos últimos meses, nem de noite. Não estava vivo, nem morto. Cego, de olhos bem abertos. Vivo, de olhos bem fechados. Com o deciframento dessa mensagem era como se enfim a vida lhe tivesse alcançado. Decidiu despertar para poder sonhar. Despertou!

Eduarda Renaux

Um Conto Sobre Uma Pergunta

Ela estava pensando no nada e em tudo que dentro do nada existia. Até que uma pergunta de precisão cirúrgica lhe furou a nuvem do pensamento. Caiu de lá do vazio no que muitos chamam de “choque de realidade”. Se o chão era a realidade, a garota enfim, beijou o chão. Mas não quis ficar lá por muito tempo. Não suportou a dureza da realidade e foi tentar divagar novamente. Ela ainda existia mais na fantasia do que na realidade.

Na verdade, na realidade é como se ela não existisse, pois se pensava louca demais para existir no chão. Mas agora já era tarde, seu pensamento não conseguia mais ser sobre o nada. Mas um pensamento sobre a pergunta.

Começou a questionar, se na verdade, não era a pergunta a responsável a lhe dar um chão. Já não sabia mais se estava nas nuvens ou na realidade. E tudo isso porque escutou a pergunta.

Sabia que desde sempre não tinha nada de concreto para se apoiar. No fundo, sabia também, que as nuvens de longe pareciam consistentes mas de perto era um vazio. E por isso vivia de angústia, paranóia e fobia.

A garota era louca mas de muita sabedoria. Estava se sentindo diferente e compreendeu que poderia estar experimentando pela primeira vez o que é ter finalmente um chão. Mas ainda era um apoio muito precário porque era feito de apenas uma pergunta.

Viajava com frequencia. Até para fora do país ia vez ou outra. Mas se fosse para sair, queria ir para longe. Mas ela tinha medo de avião, de altura e de se perder na multidão. E foi quando estava perdida na Conchinchina na Asía, após já estar cinco meses por lá, que a pergunta que lhe furou o pensamento e lhe deu o precário chão apareceu: “Óhhh menina, por que tu não gostas de geografia?”

“Mas gosto de história”, respondeu a menina. E um bombardeio de novas perguntas de próprio punho apareceram: “Mas seria história uma geografia contada?” “Sabemos o que sabemos porque articulamos a geografia historicamente?” “Seria por isso que nas escolas a história é sempre sobre guerras, povos, descobrimentos e geopolítica?” “O que é mesmo geopolítica?” “Seriam as pessoas mapas históricos?” “Seria, então, eu também um mapa e minha origem a bússola que me (des)norteia?”

E a menina que sempre se admirou por gostar de história, através de uma pergunta se localizou no mundo. Porque agora entendia que o excesso de história sem geografia a enlouquecia. Mas que também não era sanidade que lhe faltava, mas bússola e mapa para sair da errância.

“A qual a distância uma pergunta pode lançar alguém na vida?” Se isso era questão de história ou geografia, isso ela não sabia.

Eduarda Renaux