Meio Triste, Meio Feliz

UM RECORTE SOBRE DESPEDIDAS, PASSAGENS, CONQUISTAS E RENÚNCIAS….

Era o último dia de atendimento a uma criança. Ela estava bem, os conflitos estavam na dinâmica familiar. Abordado isso com a família, era chegado então o momento da despedida do jovenzinho. Não era uma despedida fácil, afinal tínhamos construído algumas histórias, passado alguns impasses juntos.

Eis que ele ficou muito brabo ao saber que era o momento de separar-se, de dizer adeus. Recusava-se a falar uma só palavra. Digo que se não era possível me falar o que o deixara tão brabo, quem sabe poderia desenhar o que estava sentindo. Ele desenha dois olhinhos e no lugar da boca um desenho semelhante a um “S”.

Retorno dizendo que não havia entendido, que precisava que ele me explicasse o que isso significava. Para minha surpresa, ele fala: “ estou meio triste e meio feliz“. Meus sentimentos não eram diferentes, mas ele traduziu com uma sagacidade que é própria das crianças.

Por um lado estava feliz por ele estar bem, mas por outro também estava triste com a despedida. Ele estava indo para a primeira série, uma maravilhosa passagem, mas também a coragem do pequeno em deixar a creche para trás. Por isso, esse texto tem como intuito transmitir, que tanto para os pequenos como para os grandes, a vida a fora será assim mesmo.

No cotidiano a recorrente pergunta:
Como anda a vida?
Mais ou menos!

Quem não ouviu ou disse essa frase nas últimas 24 horas? A tal da felicidade plena e constante é uma miragem no deserto. Mas acredito que miragens já salvaram algumas vidas, bem como, já condenou algumas também.

Se temos a felicidade como um horizonte, sempre distante mas potencialmente alcançável  a jornada é longa mas pode ser de bom proveito. Nessa caminhada sabe-se lá quantos momentos felizes teremos até a chegada na miragem da felicidade. Na reta final, podemos concluir que era uma ilusão, mas os encontros que a vida ofereceu foram tantos que a frustração provavelmente não acarretará uma severa depressão. No máximo o luto dessa ilusão, o que já é dolorido o suficiente.

Alguns por saberem que são miragens, recusam-se a caminhar. Criam raízes na areia, pois já que a morte é certa não teria cabimento investir. Os melancólicos sabem muito bem disso. Sabem da concretude da vida e dificilmente são tomados por grande tragédias, pois de trágico já basta a vida. Outros sentem-se tão enganados pela miragem, que desiludidos abortam os planos e ficam no eterno ressentimento da felicidade que lhes foram negada. “Fiz tanto e não fui reconhecido, fiz tanto e não alcancei os resultados que esperava”.

Caminhar cansa, ficar parado dá tédio, e cada passo dado é uma paisagem que se deixou para trás. Deixar para trás é um dos custos mais caros da vida. Acredito que o “mais ou menos” é aquela descrença misturada com esperança. Quando se prolonga demais, é também uma procrastinação. Não faz nada pelo “mais” pois pode ficar com “menos”. O mais anula o menos, o menos anula o mais.

“Meio triste, meio feliz” dessa forma é muito diferente do “mais ou menos” como o jovenzinho nos apresenta. Não existe absolutamente nada de errado em também ficar triste com as boas passagens. Conquistar novos horizontes não é garantia de felicidade, pois também implica em uma perda, em uma mudança, por vezes, assustadora. Apenas estamos avançando na jornada.

Por isso quando alguém lhe disser que só tem motivos para comemorar e que a tristeza não tem lugar, saiba que a vitória é proporcional a renúncia que se fez para conquista-la. Logo temos sim, todo o direito de estarmos felizes e tristes simultaneamente.

Tristes e felizes, avante!!

O Vespeiro

Ando atenta às polêmicas. Ando atenta às opiniões estabelecidas, rígidas. Ando atenta às trocas de ofensas devido às diferenças. Ando atenta aos críticos e mensageiros do apocalipse. Mas ando calada, não quero mexer no vespeiro.

E por que não? Porque quem tem a crença estabelecida é surdo, é cego, mas não é mudo. É surdo porque só ouve as opiniões que fortalecem seu ponto de vista. É cego porque só enxerga os fatos que lhe dão razão. Mas não é mudo porque anuncia aos sete ventos seu discurso revolto, e não medirá palavras para destituir aquele que ousa pensar e então verbalizar o diferente.

De fato, há certos temas com os quais não se mexe. Argumentos até a exaustão e você é vencido pelo cansaço. Desculpe Senhor (a), era apenas uma opinião!

Me pego boquiaberta com aqueles que se sensibilizam com a morte, mas desejam que morram aqueles que não sentem o mesmo. Tem momentos em que seu sangue ferverá, você esboçará uma resposta. Mas em vespeiro não se mexe, apaga-se letra por letra.

Para falar, o outro tem que estar disposto a ouvir. Se não, salve-salve os monólogos!

Após apagar letra por letra, sigo letra após letra, esboçando um devaneio de quem escolheu não mexer no vespeiro e ainda assim sair da mudez.

Apostas que valem um Futuro

Nosso papel enquanto geração esta ligado desde um sentido mais amplo, onde fazemos parte de uma sociedade, e como agentes sociais, temos o dever de promover a diferença em meio as repetições mortíferas que testemunhamos no nosso mundo. A pobreza, a poluição, os abusos, a violência. Todos nós temos alguma ligação com isso e um papel de intervenção.

Num sentido mais específico, estamos também, inseridos em uma família, carregamos o sobrenome que nos antecede. Nossa história começou muito antes de nosso nascimento e não acabará no dia de nossa morte. Por isso, os filhos são a promessa da imortalidade, pois sabemos que as próximas gerações irão carregar as marcas que deixamos, os desejos não realizados.

Fazer parte de uma geração não é simples, carregamos muitas vezes fardos pesados e histórias difíceis. Não raro os filmes que mais lotam as bilheterias e premiações de cinema são baseadas em histórias de superação. Algumas ficcionais e outras embasadas em fatos reais. Na minha opinião ambas se equivalem, pois toda a ficção carrega verdades e toda história real é também uma ficção.

Nossas histórias são atravessadas por uma série de fantasias e versões, mas nem por isso menos verdadeiras. Os fatos batem com a realidade? Tratam-se de recordações não muito confiáveis? Pouco importa! Operam em nós como se fossem o que há de mais verdadeiro. Algumas marcas são tão doloridas que somos acometidos pela sensação de que são insuperáveis. Sentimo-nos aprisionados pelas impressões que deixaram.

E por isso nada melhor do que tomar emprestado as histórias que gostaríamos de viver. Através da tela do cinema, deslizar na vida. Se existe um elo comum nessas histórias, diria que não reside apenas na força de vontade do protagonista que tanto sofre. Mas na aposta que alguém fez nesse personagem. Exemplo: O papel do Fonoaudiólogo no filme “O discurso do Rei”; O papel da torcedora fanática no jovem jogador de futebol americano no filme “Um sonho possível”; ou até mesmo o burrinho na vida do Shrek. Afinal, não esqueçamos que o Burrinho sempre duvidou dessa “panca” de mau que o Ogro encarnava, ou seja, de burro não tinha nada…

Um filme em cartaz do momento é Cloud Atlas, na versão em português “A viagem”. Simpatizo com o título original. E só tenho uma palavra a dizer: assistam! Para aqueles acostumados aos 100 minutos habituais e confortáveis de filme, preparem os ânimos e disposição pois “A viagem” conta com exatos 180 minutos.

O filme condensa passado, presente e futuro em torno de uma mesma problemática: Quando fazemos do outro o objeto de nossas necessidades. O tema é antigo, atual e tem perspectivas para continuar moderno por muito tempo. Mas a reflexão sobre a prevalência de uma raça superior e os abusos que frequentemente testemunhamos, deixo para uma próxima.

Vou me deter a frase que marcou meus pensamentos durante as duas últimas semanas: “Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculadas a outras, passadas e presentes. E de cada crime e cada ato generoso nosso nasce o futuro.”

O ato de generosidade citado, em minha leitura, se trata das apostas que decidimos fazer ou não nas pessoas. Esse texto não será sobre aquele que sofre, mas sobre pessoas que frente ao sofrimento ou condição vulnerável do outro, investem em uma possível mudança, um caminho diferente. E exatamente por isso, é dado a chance de esse alguém renascer e fundar um futuro.

Para o suposto jovenzinho fraco que sempre se percebe sem condição de enfrentar as dificuldades da vida, o que vale é passar-lhe a mão na cabeça ou dar-lhe outro lugar? Dar-lhe coragem para enfrentar e não incentivar ainda mais seu medo. E a menina, que vai mal na escola, rotulada de “tolinha” pelos próximos? Será mesmo frágil cognitivamente ou de tão desinvestida não consegue vislumbrar um futuro diferente para si?

Me pergunto quantos estudantes foram salvos por colegas de classe que viram neles algo que ninguém mais enxergava. Fala-se tanto de Bullyng, mas colegas de sala não apenas rebaixam, mas também apostam. Assim como aqueles professores que mais nos marcaram.

O ato generoso, desse modo, não esta apenas nas doações para o abrigo do bairro. O ato generoso pode ser emergencial dentro de casa, no vizinho, nas panelinhas de quinta-feira, no local de trabalho.

As vezes tenho a impressão de que subestimamos as pessoas, achamos que elas não possuem recurso ou possibilidade de reinventar-se. Devem ficar desde onde pararam. Mas quem sabe precisem de um incentivo, de um novo olhar, de uma diferença e não de alguém que faça por elas. Ou seja: Apostar na possibilidade que cada um tem de dar conta de sua própria vida e por vezes iluminar isso quando estiver escurecido, isso é ato  que pode fazer nascer um futuro para alguém.

Para os que possuem a convicção de que apostar é proteger, diria que a vida não irá proteger o filho, o amigo, o pai, o irmão protegido. O que seremos quando crescermos? Não seremos apenas uma profissão, espera-se que mesmo diante de falhas e dificuldades, sejamos grandes. E tornar-se grande num lugar diminuído é particularmente difícil

Acredito que somos capazes de mudar a direção de muitas vidas, basta nos atentarmos a isso.

Não me siga, Eu também estou Perdido

As férias escolares são tão duradouras que poucos alunos chegam ao primeiro dia de aula sem aquele sentimento de saudade e expectativa. Rever os amigos, conhecer os novos professores, a nova sala de aula, as novas disciplinas, e principalmente, ver a concretude de seu avanço na vida. Afinal não se trata apenas de um novo ano, mas uma nova série que carrega um novo lugar na multidão escolar.

Os jovenzinhos ficam mais próximos de ser adolescentes ou até mesmo adultos. Com frequência se goza dos baixinhos que estão nas turmas anteriores, e assim consecutivamente. Os parâmetros de que esta se desenvolvendo ou se aproximando de algum lugar é mais palpável. Há quem inveje isso nos dias de hoje…

Existia um tempo em que a possibilidade de escolha era para poucos ou para quase ninguém. O casamento já estava arranjado até mesmo antes dos noivos nascerem. Ao primeiro filho cabia a profissão de padre, ao segundo de médico. Se explodisse uma guerra, nenhum homem escapava. As mulheres se ocupavam da maternidade. Tudo era limitado, inclusive a classe social. O destino estava selado por Deus, pelo padre, pelo pai, pelo professor, pelo chefe.

Esse cenário nada nos parece familiar hoje. Temos autonomia de escolher desde as pequenas coisas da vida até as mais significativas. Criamos a nós mesmos constantemente. Mas como nada vem sem consequência, o fato de gozarmos de muita liberdade faz com que recaia sobre os nossos ombros o peso do sucesso e fracasso de nossas escolhas.

Se podemos ser aquilo que queremos, como nos sentimos quando não gostamos do que somos? Provavelmente os fracassados do agenciamento da própria vida. O problema não mora na liberdade, mas sim na representação de que liberdade significa felicidade imediata. Mas escolher também significa frustrações, arrependimentos, renúncias, paciência em suportar o tempo que as coisas levam.

As possibilidades de escolha hoje são tão vastas que o cenário mudou. A questão não esta na liberdade, mas no que escolher. Não raro, ouço pessoas absurdamente desesperadas por perguntar o que deveriam fazer, que caminho seguir. Sentem-se desamparadas. É a famosa frase: Não me siga, eu também estou perdido. De modo geral, todos sentem um pouco esse mal-estar.

Por que o ano novo pode ser especialmente importante nos nossos tempos? Acredito que para quem esta perdido, a virada de ano pode significar um ponto de referência. Balanços do ano, metas para o próximo. E ai tudo e qualquer coisa esta valendo…

Na maioria das vezes pensamos muito mais nas mudanças de hábitos do que nas mudanças em nós mesmos. E porque isso pode ser complicado? Porque a ordem esta um tanto quanto inversa. A partir do momento que mudamos nossa posição frente as situações, a mudança de hábito vira uma consequência que não requer muito esforço. Então antes de fazer planos para as mudanças de hábitos e comportamentos, acho que vale nos questionarmos da importância deles na nossa vida. E isso é trabalho não só para um ano, mas para o tempo que levar. Mas nada impede que esse ano seja seu começo…

Adoramos celebrar a virado do ano, mas a bem da verdade é que ficamos horrorizados com o novo! Pois assusta…mudanças requerem romper com algo antigo e produzir algo diferente. E do diferente temos pouca experiência, é necessário recomeçar. Quantas oportunidades não topamos por medo do que a novidade irá exigir. Pedir um prato diferente ou ir no garantido? Por isso, muitas vezes, perder-se é se encontrar pois possibilita desconstruir-se e se remontar de outra forma.

Mesmo com maior autonomia, tornar-se protagonista e autor da própria vida nos dias de hoje continua sendo um desafio. Num mundo nada pessoalizado, o que vale é o terceirizado. Queremos um especialista que nos diga o que fazer, que nos diga como educar os filhos. Um olhar de fora, pode mostrar aquilo que não queremos ver, é sedutor transferir o trabalho para um outro. Mas como é saboroso quando nos beneficiamos dos olhares, construindo por si próprio o caminho. Não se trata de seguir, mas autorizar-se a caminhar.

Desejar felicidade para esse ano que se inicia? Eu desejo bússolas. Que possamos nos orientar a partir de nossa bagagem, história, ideais. Mesmo com duras quedas no caminho. Pois só tropeça e cai quem caminha. Quem caminha, sai do lugar.

LOST: Histórias Restagadas

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Lost teve inicio em setembro de 2004 e finalizou em maio de 2010. Conheço poucas pessoas que não tiveram contato com a série, entretanto, conheço poucas pessoas que a acompanharam até o final. Isso se deve a uma razão prática: tomaram o título ao pé da letra! Chega um momento da série, se minha memória não falha, lá pela 4a temporada, que mesmo os mais fiéis telespectadores se perderam na história. Muita informação, muitos personagens, muitos cruzamentos e ficção.

Lost ainda repercute em mim, mesmo fazendo mais de dois anos de seu fim. E por isso tentarei abordar uma possível leitura da série, afinal, reitero que a trama possui inúmeras possibilidades. Do que se trata a série? Sobre a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical, após o avião que viajava de Sydney para Los Angeles cair em algum lugar do Oceano Pacífico.

A genialidade de Lost encontra-se na forma como a série é narrada. Ao passo que contam a história da sobrevivência dos personagens na ilha, contam também a história dos personagens através de flash back. Tudo ocorre de forma simultânea e cada episódio se ocupa de um personagem em especial. Quer mais? Bom, associado a isso, a série também conta a história da ilha e dos “outros” que lá já habitavam antes do acidente aéreo.

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A trama cativou jovens e adultos do mundo todo pela promessa de respostas aos enigmas da vida através do resgate de um suposto pai que detém todas as respostas. A princípio, essa figura paterna atravessada até por cunho religioso, encontra-se no personagem Jacob. Jacob passa até a penúltima temporada como uma entidade que tudo sabe e tudo faz, embora nunca tenha aparecido ou sido visto na ilha. A busca dos sobreviventes reside em finalmente encontrá-lo. Para os fãs do desenho “a caverna do dragão”, acredito que a série segue a mesma lógica. É como um cão que persegue o próprio rabo.

Trata-se de um resgate do pai da infância que é, acima de tudo, soberano e cruel, pois em nossa fantasia poderia acabar com nossa incertezas, temores e desamparo mas recusa em fazê-lo. E não sem razão isso produz fascínio nos telespectadores, pois em tempos que a autoridade e a figura paterna encontram-se em declínio, Lost traz no seu enredo mais que uma entidade, homens onipotentes e supostos detentores de alguma verdade.

Jack e Locke são personagens protagonistas da série. Líderes nessa busca pela sobrevivência, ambos possuem um pai frágil de vida e potentes enquanto representação psíquica. Amor e ódio caminham juntos nesse culto à figura paterna. O pai de Jack é medico de renome e alcoólatra, depositou todos os ideais no filho. No decorrer da vida, a separação entre eles é inevitável, já que tanto pai quanto filho não correspondem às expectativas almejadas. Para a tragédia de Jack, o pai morre em Sidney e cabe a ele buscar o corpo do pai. Logo, na queda do avião a presença desse pai fantasmático é literal. Ele é assombrado por alucinações do pai vivo na ilha. A imagem visual é alucinatória, mas sua presença sempre esteve viva nos conflitos do personagem.

Sempre impotente e reivindicando o poder do pai, Jack possui uma cobrança interna avassaladora. Se não é herói todo o tempo, cai em choro e punição. Ele vive por fazer valer o que acredita que o pai esperava dele. Fica um tanto quanto sedutor deduzir que as alucinações tratam-se de policiamentos das condutas de Jack. Caso fracassasse, o pai estava presentificado para apontar sua falha.

O pai de Locke, apresentado pela série como um verdadeiro canalha, foi responsável pelo aleijamento do próprio filho. A cadeira de rodas, passa assim, a ser representante da sua própria insuficiência, que sempre era remetida à figura paterna. A ilha teve um efeito fundamental em Locke. Após a queda do avião, volta a andar e ali inicia uma jornada de resgate de sua autonomia. Locke busca a maior parte do tempo conhecer e confrontar Jacob. Não sem razão, já que em seu mundo interior necessitava urgente desmontar seus medos e dores, e através de um pai à altura, mostrar sua possibilidade de se fazer valer e finalmente vencer a disputa.

Quando não no pai de carne e osso, a paternidade acaba habitando o imaginário de alguns personagens na figura do sogro. Exemplos disso são os personagens Jim e Desmond. No caso de Jim, o mesmo envergonhava-se de suas origens, em especial do pai agricultor. Na série, o pai de Desmond sequer é mencionado. Ambos passam a série tentando obter aprovação dos sogros. Não preciso nem mencionar que os sogros iam pela mesma via de onipotência e poder das figuras anteriormente descritas.

Na vida não basta ser alguém, busca-se ser alguém para um outro de valor. Um pai é sempre uma figura importante nessa jornada. Mesmo com uma série de problemas e falhas, as figuras paternas da série são um tanto quanto espaçosas e não dão lugar à próxima a geração de homens em construção. A série passa por várias cenas de violência, onde a agressão e a morte são inevitáveis como acesso ao mundo da virilidade. Mas esse foi um recurso imaginário de tratar a problemática, já que aos poucos vão constatando que ser homem não é apenas um exercício de poder, mas de tolerar as próprias falhas e mesmo assim ter a coragem necessária de enfrentamento. Tanto Jack, como Lock, Jim e Desmond aceitam melhor as própria limitações nessa travessia.

Aqui é importante lembrar dos personagens Ben e Michel. Ben, responsável pela morte da mãe ao nascer, é maltratado pelo pai durante toda a infância e passa a vida na ilha tentando provar seu valor como líder para os que ali habitavam. Já Michel, no momento da tragédia de avião estava no momento de reconciliação com o próprio filho.

Lost trata de temas fundamentais que falam sobre a relação pai-filho através das culpas e raivas que fogem do campo da consciência. A solidão de estar no mundo construindo o próprio caminho e o pedido impossível que fazemos aos nossos próprios pais. É muito difícil que o público não se identifique com os personagens de Lost, já que nos deparamos com o fardo que carregamos, os ressentimentos vividos, os momentos que não nos orgulhamos e nos quais nos sentimos injustiçados pela vida.

Para apresentar-se a si mesmo é necessário dizer de onde viemos, e para isso é necessário encarar e enfrentar o passado presentificado. Não por acaso, toda vez que um personagem conseguia dissolver o conflito interno, acabava morrendo na série, ou seja, assim que mudavam sua posição frente a vida, a jornada na trama chegava ao fim.

O primeiro efeito de Lost nos telespectadores diz respeito aos rótulos que atribuímos a cada personagem. Os bonzinhos, “ruinzinhos”, malvadinhos, e por aí vai. Ao conhecer a história de cada um, a série desmonta todas as representações que tínhamos e nos mostra a dimensão de constituição e desenvolvimento de cada um, ou seja: Somos produto de nossa história e das próprias escolhas.

A história de cada um é tocante e incrivelmente trágica, mas Lost não poupa a responsabilidade que cada um teve naquilo que construiu para a própria vida. Não somos vitimas das circunstâncias, por mais injustas que foram aos nossos olhos. Diariamente nos deparamos com aquilo que somos e gostaríamos de ser. Acontece que nessa novela, a enfase esta no fracasso dessa tentativa de construção de um sentido para a própria existência. Não existem vilões nem mocinhos, mas perdidos!

Acredito que o nome da série brinca com essa tônica: Perdidos na ilha ou na vida? A série vai mostrando que a ilha não é mera coincidência, eles foram escolhidos para estar ali, como alternativa para encontrarem a si mesmos, construir um sentido para si próprios, fazer as pazes com o pai da fantasia. Sobreviver ao acidente se torna um momento de renascimento e de moratória.  E isso ocorre, em certa medida, com todos nós em algum momento da vida. Quando foi ou será o momento em que iremos despertar de nossas repetições e escolhas mortíferas? Para pensar…

Na trama, assim como com todos nós, os personagens são atravessados por ordens impostas sem uma lógica estabelecida. Quase todos os personagens tornam a máscara o próprio rosto. Passamos boa parte da vida ou toda ela tentando ser aquilo que acreditamos que devemos ser. Ai já começa uma questão: a quem devemos isso? Para alguns não ser amado por todos é o pior dos acontecimentos, para outros não ser o herói de cada dia é o pior dos fracassos. Essas imposições que colocamos para nós mesmos fracassam pois gera enorme sofrimento, e não nos liberta da culpa como o prometido. Encarnamos o personagem que criamos.

Por que o último episódio de LOST deixou muitos fãs frustrados? Poderia ter sido diferente? A expectativa era tanta que duvido muito que alguém humano poderia corresponder. Mas me encaixo na fatia da população que esperava algo diferente no seu fechamento. Algumas perguntas não tem resposta mesmo, assim é a vida! Acredito que lançar mão disso a favor de uma visão religiosa foi uma tentativa de deixar a série redondinha. Mas isso não destitui a jornada de tantos anos…

Desta forma, Lost é uma série que exprime muito bem a neurose humana, pois capta os excessos de sentido, a crença de um destino e uma ordem já estabelecida, perguntas sem fim sobre o mistério da vida. E mais ainda, a dificuldade de ultrapassar a grandiosidade paterna em nossa novela familiar.

 

Delírios Noturnos

Em um dia conturbado, nada como dormir e torcer pelo recomeço. A esperança é que no próximo dia possamos apagar as lembranças de um dia ruim, com a possibilidade de acordar e não esquecer de quem somos.

Um comediante que sou fã, Jerry Sienfield, fala que acordar é como voltar a ser bebe. Mal conseguimos caminhar ao banheiro, vamos cambaleando, tropeçando pelos móveis no caminho e falar é o pior desafio, gaguejamos, esquecemos palavras e as que saem são sem sentido. Desaprendemos tudo aquilo que nos foi ensinado durante o dia.

Uma noite de sono é mais do que um divisor do dia para o outro, é o momento introspectivo mais intimo. Os que sofrem de insônia sabem muito bem o que pode significar se entregar aos aconchegos do travesseiro. O que pode acontecer se deixar-se desligar? Dormir é perder o controle racional, para ter acesso àquilo que conhecemos, sem saber. De fato pode ser apavorante!

Os sonhos vem lembrar aquilo que o sono prometeu esquecer! As lembranças, os conflitos, as preocupações, as aspirações e desejos condensados e deslocados num delírio noturno. Quando nos recordamos deles, é difícil passar imune durante o dia. Acordamos com a sensação de que se tratou de algo exterior a nós, algo que foi injetado em nossa mente enquanto dormíamos, um tanto quanto sem sentido. Tanto isso ocorre, como facilmente se associa sonhos com premonição, como se fossemos os enviados divinos para a enunciação do apocalipse. Mas não é disso que se trata…

Ao descobrir o inconsciente, a obra mais importante de Freud é A interpretação dos sonhos. Através da clínica, ele revela a importancia do sonho no processo psíquico de cada um de nós. Não é místico, não é coletivo, não é apenas processamento dos acontecimentos diurnos. É uma construção sem censura e por isso tão surreal aos nossos olhos.

Recordo-me de uma Jornada que fui em que a palestrante conta sua experiência no posto de saúde de sua cidade e sua aposta nos laços afetivos. Ela compartilha ao final que na noite anterior sonhara com a frase: http://www.amor.com !! Nessa hora alguns se aventuraram no “ponto” e no “amor”. Eis que a psicanalista discorda e coloca: O que me ocorreu foi que o que vim aqui dialogar com vocês foi os desafios de trabalhar com a rede de saúde. Quanta delicadeza!! Sim, o significante era a rede (não virtual, mas de saúde).

Tenho uma amiga psicanalista que sempre me fala que quando esta perdida, torce para sonhar, pois os sonhos são como bússolas que falam de nossa posição. Sempre dou risada, pois acho uma fala muita verdadeira. Por mais que sejamos acometidos, muitas vezes, por sonhos de plena angústia, eles sempre estão no campo da possibilidade, de nos orientar e auxiliar a seguir nossos ideais, ou minimamente a mostrar aquilo que ainda temos que avançar.

Hoje, desconfio quando se quer dormir para apagar, pois o sonho vem lembrar aquilo que a rotina te faz esquecer.

A bicicleta e UMA vida a DOIS

Hoje meus avós completam sessenta anos de casados. Como moram no Rio de Janeiro, a prestação de uma homenagem fica a distância. Bendita seja a tecnologia do telefone. Claro que ver a pessoa, tocar, olhar nos olhos, tem um sabor especial. Mas acredito que a voz e as palavras são os ingredientes essenciais para fazer presença.

Mas um casamento não. É literalmente no tato do dia-a-dia, na convivência, na cumplicidade e, diga-se de passagem, na paciência. Poucas coisas na vida são tão complicadas como uma vida a dois. Queremos ser UM o tempo todo! Fazer as mesmas coisas, ter os mesmos gostos, recusar a diferença, sem nenhum terceiro. Acredito que alguns casamentos estremecem após ter filhos por isso. Um novo membro nessa relação passa a ser insuportável. Mas em geral, casamentos sobrevivem a esses tipos de simbiose, sobrevivem até aos delírios de ciúme. Mas viver uma vida inteira a DOIS, juntos, porém tendo sua singularidade é para poucos. Seria como os olhos poderem ver, o coração sentir e suportar o que se viu e o que se sentiu.

Minha mãe que estava lá essa manhã me conta que hoje Berto acorda e fala para Julia: Nunca imaginei que iria viver tanto. Ela responde: eu também não. Nas trocas carinhosas, ele diz que só ficaram tanto tempo juntos, pois nunca achou uma mulher tão bonita como Julia e Julia diz que apenas ela poderia suportar as manias de Berto. Ali se fundou o resumo de uma relação entre homem e mulher.

No fundo o que uma mulher deseja é ser amada, ser a mais bonita aos olhos do parceiro. Ela sobrevive aos mais fatídicos acontecimentos desde que se sinta olhada, quista pelo marido. E por isso comumente vemos os famosos “pitis” tipicamente femininos, em busca de um lugar desejado na relação. As feministas que me perdoem, mas isso não tem a ver com igualdade dos sexos, mas a diferença necessária para que um casal seja de fato um casal e não duas pessoas que rivalizam em todos os aspectos. Ponto para Seu Betinho, acertou em cheio o que a Dona Julia poderia querer ouvir: nunca achou alguém mais bela!

Julia fala uma verdade, quando diz sobre “aguentar as manias”. Para além do apego a rotina e a organização que muitos homens exercem, o que escutei dessa frase é que uma mulher precisa dar lugar ao seu marido. Nada mais devastador para uma relação que mulheres que destituem seu companheiro, não dão espaço para que ele brilhe de alguma forma e sinta-se com a virilidade necessária. De fato, por mais que minha família sempre buscasse mais as opiniões da matriarca, minha Vó nunca excluiu meu Vô da cena. E isso testemunhei muitas vezes (não por telefone, é claro!).

Devorei livros de psicologia para tentar entender como se dá uma relação amorosa (doce ilusão tentar teorizar a prática! É canoa furada!), mas minha Avó mata a charada na ligação quando pergunto: Qual a receita desse casamento? Eis a resposta: Amor e respeito. Ao contrário do que se imagina, o amor não passa pelo corpo perfeito, pelos bens financeiros (não só, pelo menos). Para durar, a ponto do corpo decair, o dinheiro se acabar e ainda permanecerem juntos, uma mulher deve se sentir amada com palavras e o homem sentir-se respeitado através de ações. Na minha opinião, dessa forma, ambos sentem-se amados e respeitados.

Se tem uma recordação que sempre carrego comigo, são as cenas de meu Avô andando de bicicleta. Quando eles ainda moravam na Gávea-RJ, lembro-me de uma cena em que andaram juntos no Parque da Gávea. Sempre achei bicicleta e guarda-chuva objetos que me parecem representantes dos apaixonados. Bicicleta, hoje sei porque. Espero um dia lembrar da história do guarda-chuva!

Obrigada queridos Avós, pelas bodas e palavras de diamante!

Entre quatro paredes

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz

(Chico Buarque – Mil perdões)

“Sou diva, Sou uma diarreia ambulante, Sou purificado pelas cicatrizes do corpo” nos dizem três personagens, de atuação impecável, na peça “Parte doente”. Três personagens, três histórias, um vazio. Não se queixavam do mesmo vazio, nem se quer lidavam da mesma forma com ele, mas estava lá, desvelado para o público.

Salve-se quem puder, pois o que vi na peça só via entre quatro paredes. O sofrimento da gente, guardamos no intimo, no privado, no pensamento, na ação escondida. E como nos é doloroso quando somos pegos no flagra de nosso conflito. A sensação é de estar nu na multidão.

Podemos ser acessíveis, interessantes, agradáveis ou até mesmo normais no dia-a-dia com pessoas. Mas ao anoitecer, quando os fantasmas noturnos aparecem, qual a parte doente que irá despertar em cada um de nós?  Todos têm uma parte sombra que se luta para que não venha á luz. Desde um homem que se veste de mulher, a diva que procura seu câncer existencial numa mancha no rosto, a obsessão pela assepsia, os desejos mais obscuros, um objeto fetichista na gaveta. Alguns sofrimentos, em particular, nos causam entorpecimento e horror.

Uma garota, que nos momentos de profunda angústia, conseguia visualizar o sangue fluindo nas veias, o coração bater acelerado, o turbilhão de sinapses no cérebro. Não era psicótica, mas nos momentos de angústia, o sofrimento denunciava a literalidade e brutalidade do existir (embora o temor fosse que naquele momento não existia e por isso recorria ao orgânico). Se por um lado temos o concreto da vida, por outro temos o abstrato. O abstrato possibilita outro tipo de problema, o excesso de sentido.

Tento me fazer entender: Estamos agora em um museu. Estamos percorrendo a era renascentista onde as pinturas eram verdadeiras fotografias. Continuamos caminhando entusiasmados com a bela arte e nos defrontamos com o movimento cubista ou até mesmo surrealista, onde os traçados, as figuras, as imagens convocam uma interpretação de um enigma. Ao mesmo tempo em que nos causa desconforto, o sentido não tem fim. Tudo tem uma razão de ser.

É como na vida, pois embora nos queixasse o tempo todo da falta de sentido da vida, sofremos do contrário, do excesso de sentido. Tudo deve ter um porque, um significado, um sinal, uma justificativa.

Estava com meu pai, reclamávamos sobre a vida e as dificuldades diárias que temos que enfrentar. Eis então que acaba a energia, ficamos sem luz. De imediato, olhamos um para o outro e falamos: “viu só! Um sinal para parar de reclamar. Nada é tão ruim que não possa piorar!”. Pode ser que isso motive para uma posição mais otimista frente a vida. Mas luzes acabam mesmo, quer ver só em dia de trovoada. E isso não tem absolutamente nada a ver com que falávamos. O sentido é nosso e não exterior.

Buscar a existência do todo é embarcar numa canoa furada, mas construir um sentido para nossa própria vida e ter a possibilidade de encarar a sua brutalidade é um desafio necessário. Pois é o que nos move, que possibilita continuar desejando. Não perguntem desejando o que. As vezes o verbo desejar é intransitivo!

Entre mil e uma coisas que a peça A parte doente me fez refletir, a que escolhi para divagar é que na vida é necessário negociar formas mais acessíveis de desejar, que não nos seja tão custosas, punitivas ou impossíveis. Mas não menos intensas e profundas….

* a imagem do post é a tela da artista plástica Silva Teske.

Toda a magia tem seu preço

Quando me apresentaram a série Once upon a time (Era uma vez), exibida pela emissora Sony, estava cheia de preconceitos, não apostei muito. Dois episódios foram o suficiente para enfeitiçar. Os contos de fada não saem de moda, fato! Eles abordam temas que borbulham nossa travessia pela vida, e não se limitam a infância. E bem por isso, a série tem como público alvo adultos que através dessas histórias tiveram acesso de forma lúdica aos impasses e possibilidades de constituir-se gente.

Resumo do resumo: Uma maldição é realizada pela bruxa má no reino encantado. Qual a maldição? Eles ficarão presos no nosso mundo, onde não existem finais felizes. A cada episódio a história de um personagem encantado, e ali vai se construindo um conto de dezenas de personagens. A Branca de Neve, o Príncipe Encantado e a Bruxa são protagonistas junto com o mais poderoso de todos os contos, Rumpelstiltskin, que é chamado carinhosamente de Rumple.

Rumple é um homem covarde, cede de seu desejo o tempo todo. Acovardado, acaba por perder muitos que estão a sua volta. Falta de amor? Não, excesso de medo mesmo. Como uma forma de se redimir de tantos medos, ele recorre à mágica. Tenta através do poder equilibrar a covardia. Poder e coragem não se equivalem, podemos ser fracos e extremamente corajosos. As coragens necessárias para construir e lutar pelo que se deseja é o que essa “novela” nos convida a embarcar.

A cada um que cruza seu caminho Rumple alerta: “toda a magia tem seu preço”. Quase nenhum deles, dá a devida atenção a essa advertência. Embora, Rumple seja um dos personagens que mais cativa a minha atenção, é sobre a Bruxa má, chamada na série de Regina, que pretendo decifrar uma possível versão dessa maldição que é abordada.

Regina é atormentada por uma mãe cruel e possessiva. A garota é impedida de realizar seus desejos e seguir seu caminho. Ela aspira à liberdade, que para ela é libertar-se da mãe. Cora (mãe de Regina), uma mulher amargurada e detentora de magia não vê uma filha ali e sim um objeto que deve realizar as próprias ambições. No decorrer, várias tragédias acontecem, mas a pior delas é que Regina acaba a cópia da mãe. Em uma passagem a garota fala: “Não quero acabar como você” e num ataque de fúria contra a mãe a joga em outro reino bem distante.

A tentativa de separação física foi recurso encontrado como uma tentativa de separação psíquica. Tamanha a simbiose das duas, a estratégia falhou. Regina vai ficando cada dia mais parecida com a mãe, ao passo que usa da mágica para manipular a todos a sua volta, bem como a mãe fazia.

Na cidade amaldiçoada, Regina é prefeita e adota um filho. Mais uma repetição familiar que passa para a próxima geração: o filho adotado, em determinado momento, retorna dizendo o quanto não quer ficar igual a mãe. O laço não é o de sangue, mas o da transmissão. Ali foi a cena mais tocante da série, pois a mesma se dá conta de seu equivoco. Arrasada, onde Regina acaba? No sofá do psicólogo.

Ela passa a frequentar o terapeuta da série: o grilo falante, a consciência. Mas de consciência a trama tem pouco. O brilho esta nas motivações inconscientes dessas relações. De que magia estamos falando?

Acredito que a mágica é a do nascimento e o preço que isso nos custa. A dívida da existência é impagável. Algumas mães abusam desse poder e alguns filhos se aproveitam disso. Em especial a relação mãe-filha é delicada, a própria semelhança anatômica é convidativa.

Mães dominadoras geralmente criam filhas tais como. A maternidade é mágica porque fala daquilo que passamos a vida tentando entender: de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. A consciência da existência, a busca eterna por saber mais da criação. A religião e a ciência são as principais protagonistas na tentativa de respostas. A existência é pura magia, mas o que vem depois do nascimento não é tão encantador assim.

Na fantasia da criança, nada mais poderoso que a possibilidade de gerar uma vida. As mães são poderosas não só pela possibilidade de dar vida, mas também uma questão de sobrevivência. Alguns adultos seguem vida afora acreditando que não podem existir sem a mãe, motivo para muitos ressentimentos e amarras.

Uma vida pela outra, eis o que a maternidade pode representar para algumas mulheres. Já outras são tão alienadas a figura da mãe que ficam eternamente identificadas no lugar de filha, a maternidade se torna impossível. O amor exclusivo como tentativa de pagar a dívida da vida.

Parece-me que isso em certa medida ocorre com Regina que não gera um filho, mas adota um. Todas as suas tentativas de ser mãe, falham. O amor dela está aprisionado, sentindo-se incapaz de amar novamente. O amor por outras figuras para além da mãe é muitas vezes, a possibilidade de separar-se, buscar um caminho.

A fantasia que testemunho cotidianamente no meu trabalho, é que abandonar a dependência da figura materna significa deixar de amar, perder sua história original, além de uma culpa avassaladora. Sentir-se responsável pelo sucesso e felicidade da mãe é a tarefa diária e sempre impossível. Tal posicionamento acarreta em uma escravidão.

É muito importante que a menina se identifique com alguns traços da mãe para constituir-se mulher. Mas esse é o início da história e não seu fim. Para podermos constituir-se gente, termos nosso próprio “eu” precisamos nos diferenciar, ter nossas particularidades. Se identificar completamente com alguém é morrer, pois seremos aquela pessoa e não nós mesmos.

Essa é a liberdade aspirada por Regina, ser mulher e feliz, podendo contar com o amparo materno mesmo não correspondendo aos ideais da mãe. A travessia é difícil, mas compensa! A liberdade, assim como a magia, tem seu preço.

Raiva desnaturalizada com Clarice

Tivemos a possibilidade de usufruir em Blumenau, quatro dias de Beth Goulart interpretando a peça “simplesmente, eu. Clarice Lispector”. Nas mídias sociais foram diversos testemunhos sobre a peça que encantou muita gente.  Corria-se o risco de um monólogo sobre palavras virar tédio para todos, mas os elogios vieram de todas as partes, e não dividiu gêneros.

Clarice diz: “raiva é a forma mais profunda de ser gente”. Me interroguei sobre o que isso significaria.

Estudos mostram que as mulheres podem ser tão agressivas quanto os homens, porém biologicamente são mais predispostas a serem o sexo frágil. A neuroquímica dos homens tendem, em situações de perigo, a responder com o mecanismo de luta-fuga, enquanto as mulheres buscam formas mais amigáveis de ação. Traduzindo: Previsão de sol amanhã, com possibilidade de chuva a qualquer hora.

Esses estudos são importantes e auxiliam a compreensão de alguns eventos tão curiosos que ocorrem cotidianamente. Mas isolados não dizem muita coisa. “A palavra é meu domínio sobre o mundo”, diz Clarice. Os seres humanos gozam por se acharem seres superiores. Essa suposta superioridade tem nome: somos capazes de pronunciar, transmitir e verbalizar nossa vivência. Ai já mora um problema, pois somos lançados num vazio tremendo nessa consciência de existência. As palavras podem ser uma possibilidade de contorno do vazio.

Mesmo sendo quimicamente tão parecidos, os humanos são profundamente diferentes dependendo até mesmo do país onde moram. Divagando sobre a existência e o que somos, Clarice joga uma pérola: “a angústia depende do angustiado”. Muito o que versar sobre a angústia, mas voltemos a raiva!

A indignação, o descontentamento, a raiva é uma resposta afetiva aos eventos que não podemos tolerar. Como não ficar com raiva diante da violência, desigualdade, injustiça, morte, nas desavenças com amigos, familiares etc, etc, etc? O que suscita a raiva em cada um, depende do raivoso também.

Nesse contexto aqui proposto, a raiva é um posicionamento diante de situações que não podem ser consideradas banais e nossa reinvindicação diante disso. Desejo de mudança, de movimento, de ação.

É  a partir desses afetos já não tão naturais, que vamos construindo nossa realidade e quem somos por enquanto. Como muito bem aponta a escritora, vivemos, mas saber quem nós somos é pedir demais. A raiva pode ser um afeto que, muitas vezes, nos aponta a direção que estamos caminhando, o que vem interrogando, em que posição estamos. Sendo assim, não subestimar, naturalizar e patologizar a raiva foi o que Clarice/ Goulart transmitiu valiosamente para mim…

Das águas

Das Águas em BlumenauO rio corta, dá margem, contorna e dá forma a cidade de Blumenau. Ora cartão postal, ora motivo de noticiário devido as cheias. Durante o ano, não apenas as bordas do rio ficam vulneráveis, mas também as experiências mais intensas e profundas do humano que nessa cidade habita. E é justamente sobre a relação do homem com o rio, que o teatro “das águas”  toca a subjetividade de cada sujeito que possui uma história com a chuva e o rio em nossa cidade.

O que o rio trouxe para cada um de nós?  De momento, o que traz é prejuízo, medo, isolamento. Mas após a reconstrução, cada um “resignifica” aquela experiência por si próprio. Um mesmo rio, mas que atravessa milhares de histórias. A mesma água que suja, também purifica. O que já é rotina, também produz novidade. A partir da tradicional cheia, o rio trouxe nesse final de ano um espetáculo que promete inundar afetos e sensações. Nessa peça que é apresentada num cenário sem luz, ficam por conta das velas, lanternas e palavras o que ali se ilumina.

Textos de peso  e atuações marcantes, para os mais sensíveis, não esqueçam os lenços. O evento não tende ao dramático, mas transborda sentimento. Gostaria de poder falar das passagens que mais marcaram, mas corro o risco de comprometer para aqueles que ainda não assistiram a peça.

Mas assim que a temporada acabar acolherei o tema novamente.

Programação imperdível para esse final de semana:

Das águas

Fundação Cultural

até 28 de outubro de 2012 às 20 horas. 

Mais Informações

Isso não é meu

Em certa ocasião, estava procurando uma dinâmica de grupo para pensar o processo grupal num projeto de desenvolvimento de equipe, quando me deparei com uma atividade que me chamou atenção e me custou alguns momentos de reflexão. A dinâmica se chamava “ de quem é?” e resumidamente consistia no seguinte: formar um círculo com os participantes e escolher um dos participantes para iniciar a atividade. O instrutor dá uma das bolinhas para ele e pede para que este arremesse para outro jogador. Além de arremessar a bolinha a pessoa deve dizer “isto não é meu”. Aquele que recebe a bolinha deve passá-la imediatamente adiante, dizendo a mesma coisa e , assim, sucessivamente. Aos poucos o instrutor deve ir incluindo as demais bolinhas no jogo. Desta maneira em determinado momento estarão em jogo as dez bolinhas, sendo lançadas por diferentes pessoas que estarão falando “isto não é meu”.

Não precisamos ir muito longe para imaginar o campo de batalha que isso iria se tornar. Pessoas tacando como podem as bolinhas uns para os outros e tão longe quanto puderem. Logo de antemão me imaginei quanto participante da atividade. Provavelmente iria ficar com todas as bolinhas na mão e pensar “ok, instrutor, perdi!Podemos terminar a atividade agora?”

Lembro da época de escola em que os professores gostavam de jogar com os alunos o famoso jogo “batata quente”. Jurava que aquela batata queimava de verdade de tão angustiada que ficava quando via a bomba se aproximando. Ou aquela raiva de quando o coleguinha não dava a batata na mão e sim jogava no seu colo com o intuito de dizer “isso não é meu”. Hoje acho que essa era uma forma lúdica dos adultos prepararem as crianças para o mundo que está um tanto quanto “desapropriado” de si.

Isso não é meu, logo jogo a bola para o outro, que a passa a bola para o outro e por ai vai. Adendo: Se entregarem na mão é lucro! Pois muitas vezes vão jogar no seu colo mesmo. Somos bombardeados por bolinhas todos os dias. Saber o que é e o que não é seu é um desafio diário. Escolher as demandas, os ideais, os pedidos e até mesmo os traços de identidade, diferenciar-se do outro. Hoje não tenho muita paciência para pessoas cuja a postura é “isso não é meu”, embora tenha me visualizado com todas as bolinhas no colo. Preciso me apropriar do que é meu, mas também preciso saber que tem coisas que “não são minhas”. Acho que essa é a dificuldade paranoica afinal! Tudo é com você! Isso faz parte da constituição humana, todos já fomos assim! Mas só nos tornamos humanos mesmo, quando conseguimos manejar as bolinhas e saber quando devemos passar para o outro ou topá-las. Enfim….