Pote de Purpurina

QUANDO O BRILHO VEM DE FORA 

Sabe Doutora, tenho a impressão de que estou tão apagada, que nem se eu mergulhasse num pote de purpurina eu voltaria a brilhar. Antes eu comprava roupas, enfeitava o cabelo, passava uma maquiagem e me sentia melhor. Agora nem isso adianta…”

Um brilho artificial não se sustenta. Todos já recorreram ao fora, o corpo, os adornos para mascarar uma melancolia que se apresenta. Quando estamos radiantes, o brilho simplesmente acontece. Ela não é uma solução, é uma consequência de estar em paz consigo próprio.

Não utilizo termo paz num sentido religioso, mas num sentido de resolução para que a autenticididade e a expontâneidade sejam possíveis. Na lógica capitalista e imediatista que vivemos, o “ter” toma o lugar do “ser”, e somos bombardeados por potes de purpurina.

Essa fala que cito acima, me provocou profunda reflexão do que de fato é brilho próprio e o que é o culto ao estético, o espetáculo armado onde todos fingem se surpreender. O pensamento que prontamente me ocorreu foi que quando a mudança vem de dentro o brilho não ofusca os olhos.

Existe um certo mal-estar imediato quando a cena parece não corresponder a situação. Para isso, popularmente se fala do “chamar atenção”, esta fazendo “drama”, “encenação”, etc…

A cena é uma forma de brilhar, ou minimamente resgatar o brilho para o outro. Mas se o ser só pode ser sustentado pelo olhar do outro, basta que esse olhar falte, para que o castelo de purpurina se desmonte. Afinal, purpurina não tem consistência, se esvai com facilidade, com a menor das brisas.

Com muita frequência, os humanos que possuem esse vazio tão agressivo, tiveram muita fragilidade para constituir-se. Um olhar vazio, enlutado, sem brilho, que atravessa o bebê e não lhe dá borda, nem contorno. Mães deprimidas são suscetíveis a isso. Bem como bebês que não conseguem corresponder aos investimentos maternos, uma apatia nesse circuito de troca entre um e outro.

A propaganda enganosa é aquela que ilude que para se encontrar existe atalho. Que para a dor existe remédio, que para o corpo existe adorno, para o vazio existe objeto. Não me proponho ao pessímismo, mas existe um tempo, uma construção necessária para a autenticidade que não esta a venda nas prateleiras e nem acontece do dia para noite.

Ainda essa semana ouvi sobre as injeções de hormônio para simular uma gestação e fazer com que as mulheres percam peso através desse processo. Que corpo é esse? O pote de purpurina. Ali não existe subjetividade. É corpo, hormonio, boca para deglutir. Mas como a paciente mesmo alerta, chega um momento que nem isso mais adianta…

Nos questionarmos sobre nossas purpurinas, uma interrogação diária para não se deixar seduzir pelo brilho e ofuscar os olhos…

 

 

 

 

A culpa é da Mãe?!

UM POUCO SOBRE CULPAS NEURÓTICAS E A RELAÇÃO COM A MÃE…

“Não que minha mãe seja uma má pessoa, eu amo ela, ela é maravilhosa…MAS”, “Já ouvi falar que para a psicanálise tudo é culpa da mãe”…

Para quem trabalha com a clínica sabe que essas frases escondem o obvio: quando estamos em análise, não estamos falando da mãe da realidade, mas da mãe da realidade psíquica. Cada um tem a sua mãe da fantasia e que claro, essa fantasia esta encarnada na mãe da realidade.

As mães carregam um fardo pesado, pois elas são as figuras mais onipotentes e onipresentes na vida dos filhos na primeira infância. Elas são as primeiras com as quais que apoiamos nossa construção de desenvolvimento na vida. Por isso, os pais são fundamentais, pois apontam que existe vida para além da mãe. Mas a verdade é que muitos, ainda guardam dentro de si, a mãe onipotente.

Conforme vamos nos constituindo, vamos criando uma versão do que a mãe quer de nós e logo, o que o social espera de nós. Mas essa versão esta muito mais ligada ao nosso universo psíquico do que dos erros e acertos de uma mãe. “Uma mãe sempre quer o melhor de seu filho” MAS um filho como um sujeito diferente dela, pode ter desejos diferentes e discordar dela (isso é muito saudável inclusive).

Nesse sentido, a culpa esta ligada a uma frustração de não ter correspondido aos supostos ideais que ambas as partes criaram.  Tudo que causa uma frustração, automaticamente queremos buscar uma resposta. E o ser humano é alienado em fazer de uma resposta uma investigação por culpados.

Funcionamos nessa lógica. E Freud, pensador perspicaz e profundo estudioso do aparelho psíquico, nos presenteou com obras recheadas de constatações clínicas sobre o sofrimento humano e que subverte essa lógica da culpa. Em um dos seus primeiros casos sobre histeria, o pai da psicanálise, vai dando conta que o que esta em jogo numa análise não é a verdade da vida, mas a verdade do sujeito.

Não sofremos por acontecimentos puros da dramática existência, sofremos das versões que nós mesmos criamos em nossa subjetividade para dar conta dessa existência. Culpar a mãe por toda a catástrofe que vivemos é supor que a mãe ainda é onipotente em nossas vidas e que tudo seria diferente se a mãe tivesse feito algo por nós. É fato que existem mães que são cheias de limitações e fracassam na maternidade. Mas não podemos virar escravos das limitações do outro, ou exigir o que o outro não tem para dar. Podemos mudar a nós mesmos, realizar as travessias a partir da mãe, do pai, do irmão que nos habita, e nem sempre são aqueles que dormem no quarto ao lado, mas que agem em nós.

Então, a psicanálise não possui a pretensão de culpar a mãe, mas fazer falar a mãe da fantasia, essa sim, fundamental. E com certeza, uma análise bem conduzida, com o tempo, irá transcender a culpa. Achar culpados é fechar a questão e ficar na impotência.

Não culpar a mãe é um dos efeitos mais dolorosos, pois nos vemos sozinhos, de que nossa vida é solitária, esta nas nossas mãos. Não existe um ser onipotente capaz de fazer calar toda as nossas angústias. Esse é o nosso desamparo estrutural. Quem sabe seja essa culpa que as mães tanto se queixam: Por que cargos da água dar a vida é também lançar nossos filhos nesse desamparo inerente a vida? Isso transcende a possibilidade de qualquer mãe. E isso automaticamente, nos implica em nossas próprias vidas.

Para fazer refletir o quanto a força pode estar dentro de nós, e que ser filho também não é esperar que a mãe faça por nós, desalienando dela, um belo vídeo abaixo.

O que podemos aprender com essa mamãe pata e esses patinhos?

 

 

Acolhendo Bianca

MINHA PRIMEIRA COLHEITA DE PALAVRAS PARA ACOLHER BIANCA

Querida Sobrinha,

Escrevo aqui para ti como tia babona e quem sabe quando você for um pouco maior e já conseguir juntar as letrinhas, essa cartinha possa te inspirar ou te ajudar a estar segura de como você é incondicionalmente amada. Escolho essa data para lhe escrever por dois motivos: Em primeiro lugar, ontem tivemos certeza de que você será uma menina. E isso nos ajuda a te imaginar e remontar uma história. E em seguida, amanhã é dia das mães, e só posso ser tia porque minha irmã, agora é também, mamãe.

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Bom, vamos lá! Ser primeira filha, neta e sobrinha não deve ser uma tarefa fácil. Junto com os benefícios virão também as responsabilidades. Mas já irei te contar um segredo que levei anos para entender: a maior cobrança é aquela que a gente mesmo coloca nos ombros. Fique tranquila! Nós já te amamos gratuitamente, você não precisa sofrer para corresponder ou achar que precisa constantemente nos agradar para ver em você a bebe, a criança, a jovem e a mulher mais maravilhosa que a tua geração irá proporcionar.

O mundo aqui é violento, estamos passando por uma crise de “justiceiros” que fazem atrocidades, os jornais nos desanimam, nosso políticos desde sempre são corruptos, este ano terá copa do mundo aqui no Brasil e será um fiasco. Mas se você só te atentares aos perigos, não viverá as belezas do mundo, o que ele também tem de melhor.

Coisas ruíns podem acontecer, mas lembre-se que a vida é para ser vivida e não tenha medo dos tombos. Eles doem, cicatrizam e marcam tua história. Mas não te impedem a levantar e voltar a caminhar. Vá para o caminho dos teus sonhos e saiba que todos estarão aqui se você precisar. Coragem não é ausência de medo, é enfrenta-lo mesmo assim.

Você pode estar estudando com amiguinhos que passam por alguns problemas que você não entende. Seja gentil, amiga e mostre que eles são muito mais do que üm problema”, mas uma pessoa. Maravilhosa assim como você. Depois da família o mais importante é nossos amigos, eles são nossos anjinhos da guarda. Não deixe que ninguém seja cruel com teus colegas e procure um adulto quando você não souber o que fazer.

Estude minha querida, será importante para você. Mas lembre-se que você terá todo o tempo do mundo para aprender, mas para brincar, fantasiar, criar a hora é agora!!! Não se esconda atrás do computador, videogames e tablets. O ar livre, bicicleta, bola, parquinho, piscina, mar, areia, árvore….são sensacionais!! E advinha só? Tua tia te levará para esses lugares e teremos nossas melhores lembranças!

Aceite os limites da vida. Nem tudo é prazer e realização, e nem sempre os projetos saem como planejamos. Faz parte da vida errar, se frustrar…isso não é o fim do mundo. Nunca deixe de desejar!

Nunca deixe qualquer pessoa no mundo lhe dizer que você não é linda ou não é capaz! Aceite o que você não pode mudar e não desista do que você acredita.

Resumindo esta nada modesta cartinha: Coragem, generosidade, imaginação, persistência e tolerância é o que lhe desejo para uma vida toda!

Bem vinda a bordo do mundo,

Te amo muito! Obrigada por me fazer tia!

Com carinho,

 

Eduarda

Imagem: Filme Bernardo e Bianca

 

 

 

 

 

 

Canteiros da Saúde – O Florescer Psíquico

A Edição 78 da Revista Unimed contou com uma reportagem sobre Jardinagem e Estresse – Matéria entitulada de Canterios da Saúde. Um tema que aborda a relação, sempre intima, entre criação e saúde mental.
Aproveito o espaço do PalavraColhida para quem quiser acompanhar na íntegra as perguntas realizadas pela equipe da revista para mim!
Boa leitura!!
A jardinagem pode auxiliar a diminuir o estresse e a ansiedade do dia a dia?
Com certeza. Entretanto, isso é uma descoberta e uma opção que cabe ao próprio sujeito realizar. Por exemplo, pessoas cujo o traço de personalidade seja de agitação e muita energia, é possível que a jardinagem gere ainda mais ansiedade. Nesses casos, corrida, escalada, esportes ao ar livre serão muito mais relaxantes. Acontece que os benefícios da jardinagem são evidentes em pessoas que enfrentam muita tensão em sua rotina pois possibilita dar um “tempo” na briga contra o próprio tempo. Isso significa que o sujeito ao dedicar parcela de sua disponibilidade ao cuidado de um jardim esta se ocupando de si mesmo, sem o imperativo dos deveres e produtividade. Pessoas que pintam, escrevem, compõem músicas, plantam, são autoras de suas próprias obras e dessa forma se reconhecem nelas. Quando se trata de criar algo, não existe neutralidade. Nossa subjetividade esta intimamente ligada naquilo que investimos, a pessoa se vê e se implica psiquicamente nas escolhas das plantas, na poda, nas cores e aromas de um jardim. Conforme o jardim vai tomando forma, o próprio sujeito vai se organizando internamente também. Uma pessoa muito ansiosa ou estressada, provavelmente esta desorganizada consigo mesma. Utilizar o potencial de criação é uma ferramenta valiosa nos dias de hoje onde carregamos o peso de um tempo sempre cronometrado e exaustivo.
Quais os benefícios que essa prática pode trazer às pessoas?
Em primeiro lugar, se dedicar a jardinagem requer tempo. A jardinagem dificilmente é uma pratica realizada com muitas pessoas. Então temos uma dimensão clara: tempo para si mesmo. O sujeito se percebe podendo cultivar plantas e através delas cultivar também suas ideias e desejos. A pessoa passa também a poder usufruir de sua própria companhia e admirar a si próprio. Já acompanhei muitos casos de insônia e depressão que a jardinagem teve efeitos surpreendentes. Isso se deve ao fato de que há anos não investiam em si e sentiam-se na obrigação de servir a todos. Também estavam tristes consigo próprias e com a vida, sentiam-se sem valor. Cuidar de um jardim foi como cuidar de si mesmo, resgatar lembranças importantes e sentir-se florescendo também. Isso na verdade é muito comum nos humanos, não diferenciamos claramente os objetos de nós mesmos. Da mesma forma que crianças cuidam de seus brinquedos como se tivessem vida própria e dependessem delas para existir, os adultos muitos vezes também fazem essa ligação com seus objetos pessoais, como se fossem uma extensão delas. Prova disso são os “acumuladores”, pessoas que fazem uma ligação emocional intensa com seus objetos e não conseguem se desfazer de nenhum pertence. Se manifestado de forma grave, não sabem mais distinguir o que é útil e o que não é. Outro ponto importante é a capacidade criativa e imaginativa e a sensibilidade. Plantas são seres vivos, isso faz muita diferença, pois trás a dimensão da vida em plena atividade para o sujeito. A planta não ficará estática e não sobreviverá sem cuidados. Fica uma relação de troca, por um lado as plantas são vida ao passo que o sujeito dá vida ao jardim criando e modificando o espaço conforme seu desejo. Por fim, a organização psíquica. Utilizamos o fora para reorganizar o dentro. Toda a produção é reflexo de nossa subjetividade, seja ela em conflito ou não. A jardinagem pode ser um espaço de elaboração para o sujeito. Mas fica um alerta: muitas pessoas tendem a transformar o que é para ser um prazer em dever. Nesses casos, o jardim vira mais um dever diário. Manter um jardim é diferente da jardinagem, enquanto manter um jardim esta no campo do dever – manter vivo – a jardinagem esta no campo da arte e criação.
Já ouvi dizer que muitas pessoas, ao chegarem em casa, retiram os sapatos e pisam na grama. Fiz essa experiência e realmente, é muito relaxante. Você poderia me explicar o que ocorre nesse momento?
Nossas primeiras descobertas foram através do tato. Um bebe sente e descobre o mundo através da textura, por isso levam a boca e tocam em tudo que esta em sua volta. O tato é um dos sentidos que menos são valorizados no dia a dia, devido ao estilo de vida que se tem atualmente. A visão passa a ser privilegiada no cotidiano. Acontece que tudo que descobrimos fica retido em nossa memória, mas nem tudo que esta na memória, lembramos. Nossas primeiras experiências com o tato ficaram registradas em nós, seja de forma de prazer ou desprazer. Passamos a maior parte do tempo com calçados apertados, meias ou salto-alto. Ao por os pés na areia ou no gramado estamos evocando sensações primitivas importantes. Além do mais, para se por os pés na grama ou na areia se supõe um momento de mais calma e relaxamento. Nossas cidades estão cada vez mais verticais, sem verde, parques e árvores. São raros os momentos que podemos viver essa experiência do contato com a natureza, estamos diariamente em contato com o concreto.
Pessoas com depressão são indicadas, geralmente, a aprender outra língua, tocar algum instrumento ou pintar e bordar. Pode-se comparar essas ações como os aprendizados relacionados a jardinagem?
Sim. A arte pode ser uma forma de elaboração de um mal-estar psíquico. Através daquilo que produzimos resignificamos nossa relação com o mundo. Pessoas com depressão crônica ou melancólicas, de modo geral, em sua constituição, viveram momentos de desamparo, não sentiram-se seguras, cuidadas e desejadas. Isso gera um sentimento de desvalia, impotência, culpa e empobrecimento de suas relações. A jardinagem é uma possibilidade de sentirem-se fortalecidas através de um cuidado que respeita o tempo delas. Os depressivos sentem-se atropelados pela correria de nossos tempos. Enquanto todos demandam a felicidade e produtividade, o deprimido percebe o lado obscuro da vida e não possui a energia que nossos tempos ditam. Um dado importante é que o ideal de felicidade vivido hoje é impossível, por isso tantas pessoas queixam-se de depressão. Não é que estejam de fato com essa psicopatologia, mas sentem-se deprimidas em não acompanhar ou não alcançar esse ideal. A jardinagem é uma prática de exercício do cuidado, do respeito ao tempo, da criação e imaginação. Ingredientes importantes para aqueles que estão deprimidos. Mas volto a ressaltar: não existe receita pronta! Cada um deve encontrar seu caminho. Se para uns é extremamente benéfica e terapêutica, para outros pode não ser. Cada um é singular. É necessário que o sujeito se reconheça no que faz.
Quem mora em apartamento e não possui a chance de ter grama ou horta no quintal, como ela pode fazer para relaxar “naturalmente”?
Em primeiro lugar, não é porque moram em apartamento que não podem cultivar um jardim. Quase todos os apartamentos possuem varandas e elas podem sim transformar-se num local de exercício da jardinagem. Pode não ser o ideal, mas é possível e benéfico. Jardins internos também podem ser utilizados. Mas se o que a pessoa esta buscando é o contato com a natureza e não necessariamente a jardinagem, pesquisar trilhas e parques podem ser uma alternativa interessante. Em Blumenau é surpreendente a quantidade de locais que estão fora do alcance da agitação da cidade e que desconhecemos. Mas nem tudo chega a nossas mãos, temos que nos informar e buscar o novo. Não adianta esperar pronto, temos que inventar!
É verdade dizer que os antigos não tinham tantos problemas pois tinham o contato direto com o mato, o barro, a terra ?
É próprio do ser humano achar que o “antigamente” é melhor do que o “atualmente”. Isso se deve pois o “atualmente” é o que vivemos, nossos problemas ficam maiores quando vividos de dentro. Daqui alguns anos sentiremos falta do hoje. E por ai vai… Acontece que os problemas sempre existem, eles só mudam de lugar. Podemos dizer que as pessoas são mais estressadas hoje? Não sei, tendo a achar que não. O estresse sempre existiu de forma intensa, mas sempre diferente conforme a época. Hoje usufruímos de comodidades jamais experienciadas na humanidade. Mas nossa relação com o tempo e os objetos mudaram. Parece que virou elogio dizer que se trabalha 12 horas por dia. Estamos mais isolados, nos sentimos mais cobrados, levamos preocupações para casa. Os antigos tinham muitas preocupações, mas sabiam quando seu “turno de trabalho” havia terminado e faziam proveito do tempo que lhes restavam. Para nós, tempo sobrando é inconcebível, nos sentimos culpados. E por isso acabamos adoecendo psiquicamente e fisicamente. E claro, o contato com a calmaria, lugar amplo para caminhar, convivência com a fauna e flora e relações entre humanos aumentam o bem-estar.

A Vida por um Fio

QUANDO A GESTAÇÃO APONTA UM PERIGO…

Todo o parto deixa a vida por um fio, ora porque marca uma passagem, ora porque cela um discurso, um saber profundo sobre aquele que nasce e sobre aquela que dá a vida. Por um lado, todos nós advimos de um fio de vida, o cordão umbilical. Por outro, a experiência clínica mostra que ele não é garantia da sobrevivência psíquica do bebê.

Com 28 semanas de gestação o bebê já faz caretas, sonha e distingue sons. Com 32 semanas já consegue adquirir uma memória primitiva do que vive e sente. É um grande equivoco pensar que o bebê não participa da vida familiar, dos conflitos da vida da mãe mesmo que dentro da barriga.

      Na tão esperada hora do parto, no lugar de um, nascem dois: Uma mãe e um filho. Diferente de todos os outros psicanalistas até então, Françoise Dolto sensibiliza a importância da gestação e do parto na vida psíquica do bebê. Para nascer, precisamos sobreviver a uma separação que por vezes pode ser traumática tanto para mãe como para o bebê. E para seguir vivendo, sobrevivemos ao que historicizou nossa chegada ao mundo.

Nos casos em que a descoberta da gravidez ou o momento do nascimento do bebê foram de risco real de morte e perigo, a clínica mostra que o campo da vida e da morte,  seguem se confundindo vida a fora.

Zel, tinha queixas de profunda angustia e ataques de pânico. De tão magra parecia desaparecer na poltrona. De tão calada e dependente do outro, parecia se esconder para não ser vista nem escutada.

Em dado momento, ela consegue compartilhar bastante angustiada e entristecida, que sua mãe por temer que o pai atentasse contra o bebê, escondeu a gestação até os sete meses. Zel veio ao mundo, sem vir. Uma barriga escondida que selava um destino: Ela era apenas da mãe e não do mundo. Qualquer terceiro era uma ameaça que colocava a vida de ambas em risco. Após uma infância que dava continuidade a essa neurose familiar, para Zel viver sempre foi ter medo da morte.

O nome Zel foi escolhido a partir conto Rapunzel. Vale lembrar a história original feita pelos irmãos Grimm:

Um casal de mendigos sem filhos que queria uma criança, vivia ao lado de um pomar de uma velha. A esposa, no fim da gravidez, viu uma árvore com apetitosos frutos. Por duas noites, o marido saiu e invadiu o jardim da velha para recolher frutos para a esposa, mas na terceira noite, a velha apareceu e acusou-o de roubo.

O homem implorou por misericórdia, e a velha má concordou em absolvê-lo desde que a criança lhe fosse entregue ao nascer. Desesperado, o homem concordou; uma menina nasceu, e foi entregue à bruxa, que nomeou-a Rapunzel. O nome da planta que o marido roubou.

Sabendo que a puberdade e adolescência marcam a separação do ninho familiar para o campo social, quando Rapunzel alcançou doze anos, a bruxa trancou-a numa torre alta com apenas um quarto no topo.  Quando a bruxa queria subir a torre, mandava que Rapunzel estendesse suas tranças, para subir através delas.

Um dia, um rapaz que cavalgava nas proximidades ouviu Rapunzel cantando na torre. Encantado pela voz, foi procurar a menina. Um dia viu uma visita da bruxa e aprendeu como subir a torre.

Após algumas visitas do rapaz que realizaram uma paixão, Rapunzel pergunta “inocentemente” para a velha má porque seu vestido estava começando a ficar apertado em torno de sua barriga. Através dessa pergunta ela revela para a bruxa que esta grávida. Na raiva, a velha cortou cabelo de Rapunzel e lançou um feitiço, para que ela vivesse em um deserto. Cortando assim o elo de proteção e para um mundo duro e hostil.

Podemos perceber que as tranças simbolizam esse cordão que apenas assegura a entrada da mãe (mesmo que em sua versão má) em seu mundo, impedindo assim não só a entrada de outros, mas também a sua saída para outros destinos. Quando Rapunzel começa a dar seus passos para o mundo, ela é castigada com a solidão e desamparo.

Sumir do mundo é sua sina! Não existir, existindo!

Não precisamos nascer para já termos uma história, ela começa muito antes do primeiro choro e riso. O “era uma vez” – discurso do outro- funda nosso psiquismo e nossas relações com o outro no mundo.  Antes narrar a vida, somos narrados. Ficar eternamente na proteção da barriga, da torre, da voz do outro é o que verdadeiramente nos põem em risco e deixa nossa vida por um fio.

Reflito: No final da História o rapaz encontra Rapunzel no deserto através de sua bela voz. Ali vivem em família após Rapunzel dar a vida a gêmeas. Sendo assim, a solidão e desamparo foram os preços pagos para nascer para o mundo. É um pouco trágico mas necessário. A dor faz parte do crescimento, assim como, o que não nos mata, nos fortalece para a vida! É impossível dissociar o desamparo e a concretude da vida com a melancolia. Quando passamos a nos descobrir mais solitários no mundo, a tristeza e o luto fazem parte do trajeto. Mas isso não é o destino final, apenas parte do caminho, para quem ousa continuar a caminhar, mesmo que no desconforto do deserto rumo a uma nova miragem.

(Continua…)

Os Anjos são Humanos

“Eu sonho a poesia de gestos fisionômicos de um anjo”

(Vinicius de Morais)

O ANJO DESCONHECIDO

 Desembarcávamos  no Santos Dumont, lúcidas e transbordando de angústia do vôo subjetivamente mais longo da história. Dois amores, minha tia e primo, nos aguardavam circulando de carro pelo aeroporto quando o sol já não fazia sua presença de luz.

Minha tia já havia sentido na pele uma arma de fogo na cabeça em um arrastão na linha vermelha, um trauma e uma marca que se carrega para sempre na pele psíquica. Pegar a estrada e esse caminho a noite exigia uma coragem que não era de gente comum.

O Rio de Janeiro mudou o transito, a perimetral já não existe. O caminho? Desconhecido. Os ânimos? A flor da pele. A esperança? A oração forte de quem nos aguardava em Volta Redonda. Mas as três mulheres e o rapaz naquele carro sabiam que orar para chegar salvo não era suficiente se não se conhece o caminho. Eis que um “cara”,  de carne e osso, faz um combinado com minha tia de mostrar parte do caminho para evitar a avenida Brasil.

Minha tia, que sabe que nas ruas habitam também quem te leva sem permissão seus bens mais amados e a confiança em outros humanos faz sua aposta nesse homem. Ato de coragem. O rumo dele era outro, só poderia mostrar metade do caminho. Mas a agonia e medo transbordavam o olhar de minha tia. O cara provavelmente percebeu isso. Seguimos ele de carro.

Seguimos com muita tensão, nenhuma palavra de boas vindas de ambas as partes (minha e de minha mãe para com minha tia e primo, vice e versa). A solidariedade estava no carro em respeitar que era um momento de atenção máxima e cuidado.

Eis que o “cara” mudou sua rota e nos levou até o caminho por nós desejado, mudando o próprio destino e com isso o nosso também. Já de antemão o “cara” foi denominado por nós de anjo. Muitas buzinas celebraram nossa gratidão, que nos pareceu tão insuficiente comparada a tamanha a alegria que transbordava os ânimos do carro.  A flor da pele cedeu lugar a uma flor que desabrochou no coração. A frase célebre: “uma inspiração para 2014 de que os anjos nem sempre tem asas e por sorte cruzam teu caminho”.

O ANJO AO LADO

Sentada na mesa da casa dos meus Avós, minha avó me trás uma caixa com objetos de valor histórico para ela. “Escolhe algo como presente para teu casamento”. Fiquei sem jeito, tudo tão bonito e fino, cristais de bodas de ouro, objetos que por anos vi estampados na decoração das casas dos meus Avós. Seja na casa da Gávea, em Macaé e agora Volta Redonda.

Uma garrafa de vidro, de se colocar uísque dentro, essas de antigamente, me chama atenção. Pergunto qual a história dela. Descubro então que meu Avô foi jardineiro por anos do Poeta Vinicius de Morais que também morava na Gávea.

Selaram uma certa amizade, e algumas vezes beberam uísque juntos na varanda da casa.  Vinicius tinha seu banheiro com parede de vidro que dava em seu jardim. Gostava de tomar banho de banheira olhando suas orquídeas com um uísque na mão e um charuto na outra. Meu avô, cuidando do jardim, quando via a cena dava gargalhada. Certo dia, viu o mesmo fazer esse ritual de entrar na banheira, acenou e continuou seu trabalho.

Após um tempo não conseguiu mais ver Vinicius na banheira, achou estranho. Deu um jeito de entrar na casa, sua intuição não era boa e ele era muito intuitivo. Só um homem com muita sensibilidade faz da terra brotar orquídeas tão inacreditavelmente lindas e robustas. Formosas e delicadas. São sonhos em forma de flor. Meu avô já teve mais de mil espécies de orquídea. Dom herdado de seu próprio pai.

Ao conseguir invadir a casa percebe que Vinicius estava já embaixo da água, estava se afogando. Pede por socorro, gritos pela casa. Vinicius se salva e é salvado. Uma cena nada poética, por certo. Mas um anjo que se ocupa de plantas e pessoas se apresentou.

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Uma garrafa é presenteada por Vinicius para meu Avô. Não sei se por esse ocorrido. Mas a garrafa vazia de líquido, esta cheia de histórias e sentimentos. O melhor presente que eu poderia ter recebido: uma história que inspira, uma garrafa que insistirá a lembrança.

Minha mensagem nesse texto, que celebra a entrada para esse novo ano no palavracolhida, é de que anjos são humanos sem asas. Zeloso e guardador. Não sou muito adepta a humanos que se acham santos. Não aproveitam as boas experiências da própria vida para cuidar muito da vida do outro. Já os anjos são mais gente. Enquanto vão vivendo seus momentos compartilham doses de acolhimento a outrem. Mudam destinos, salvam vidas. Compartilho aqui com vocês histórias que elucidam que a relação com o outro é a base da vida. Não podemos ser perfeitos, podemos errar, sofrer, fazer escolhas difíceis, e ai sim seremos humanos.

Mas atenção: não delegue tua humanidade aos anjos. Os anjos humanos aparecem quando não são chamados, são intrometidos e agem sem falar.  A principio são “caras” sem rosto. As asas são os sentidos imaginários e simbólicos que atribuímos depois da experiência. Uma forma de gratidão e reconhecimento. As palavras tem isso, te possibilitam transformar uma vivencia em experiência.

Quantas palavras cabem em buzinas e em uma garrafa?

O que te faz sair do lugar?

Em uma carta angustiada a Françoise Dolto (Psicanalista Francesa), uma garota relata que possui forte bloqueio para falar a língua paterna – árabe. Já a língua materna – francês – isso não ocorre. Entende árabe, mas na hora de falar não consegue. Ela finaliza a carta:

–       Poderias me explicar o que acontece?

Eis que a psicanalista diz:

–       Ora! Explicar, explicar….supere!

Eis um ponto fundamental: explicar, se explicar, pedir explicações….o nome disso é neurose! Essa psicanalista sensacional, de forme breve e pontual esta nos dizendo: para além das explicações deve haver motivações para a mudança. E é isso que muitas vezes fracassa na análise e nas terapias.

Que todos precisamos construir hipóteses sobre nosso sofrimento, relembrar nossa história, repetir nossos conflitos no vínculo com o analista, isso me parece claro e fundamental no cotidiano de quem trabalha com a cínica. Os impacientes que me perdoem, mas calma é fundamental para ouvir os que sofrem. O furor da cura, de logo querer resultados é uma armadilha narcisista que todos os terapeutas correm o risco. Tratar-se toma tempo e dor.

Acontece que, algumas terapias e análises acabam se resumindo em uma série de explicações que não levam a mudança. É como uma roda atolada, gira, gira e não sai do lugar. Muito indagativos, por que? Por que? Por que? Não associam pois o prazer não esta em buscar elementos que auxiliem a encontrar uma saída. Querem a explicação e ponto. Mas dada a explicação, o que muda? Por isso, analistas tendem a ser criteriosos no silêncio. Não cabe a eles a resposta as dores singulares de cada alma. Mais importante que as respostas do analista, são suas perguntas, suas pontuações e suas intervenções.

Para os que se ocupam das enfermidades físicas, isso muda radicalmente. O dia que um médico falar: Não posso falar de sua perna quebrada, a resposta esta com você! Indique-o a uma terapia urgente!

O que proponho aqui é que para se curar do sofrimento psíquico não bastam perguntas, deve existir desejo em resgatar o que causou tamanho dano e se propor a trabalhar. Sem uma perna, não se caminha! É um trabalho a dois. A caminhada pode ser longa, mas que caminhe! No desejo de sair do lugar…

Para ser breve e objetiva como na citação acima, diria: Tem pessoas que sofrem, mas gostam de estar onde estão. Isso não é um julgamento, devem ser respeitadas, o tempo do desejo chegará um dia. Mas os clínicos não podem ficar de plateia assistindo e saudando as indagações vazias de sentido. Ou mesmo trabalhando por elas…

Se a clinica é um exercício de resgate da autonomia do sujeito, como permitir que andem por seus pacientes? Essa é a ética do profissional!

Se você sente que sua terapia esta atolada, reveja teu desejo frente a análise, ou reconheça que uma troca de terapeuta se faz necessário. Não é para tudo que existe uma explicação, mas para tudo se existe uma escolha. O paciente é também responsável pelo seu espaço de análise. Essa é a ética do paciente!

Como nos diz Foucault: “a ética é a liberdade refletida”.

Finalizo com a seguinte indagação: O que te faz sair do lugar?

Desejo liberdade e ética em nossos caminhos!

Com carinho,

Eduarda Renaux

 

 

 

 

Transtorno das Raízes

Uma das primeiras tarefas que os professores dão na escola é a atividade da arvore. Primeiro as raízes, depois o tronco, a copa e dependendo da estação, os frutos ou flores. Nunca esqueço dessa tarefa pois o fato das raízes ficarem a vista me causavam profundo incomodo. Não achava esteticamente bonito. E quando ousava entregar sem, a professora e sua fiel caneta vermelha desenhavam as raízes que estavam ocultas do papel.

Vejam bem, não é que elas não existiam, apenas não estavam á vista. Hoje tenho a impressão que as raízes não me causavam tamanha cólera devido ao estético, mas porque eram presentes de forma tão conflituosa na minha vida que sofria com isso. Minha família é de diversas localidades, e em especial, meus pais sempre tiveram muito apreço por sua cidade natal que é diferente da minha. Qual nossa raiz e onde nos localizamos na história familiar é a novela necessária para se constituir gente em um mundo que transborda de pessoas. Ninguém quer ser apenas mais um em meio a multidão!

Sugiro que no próximo Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais (DSM), incluam a Síndrome das Raízes, já que nos últimos tempos toda a forma de sofrimento deve ser descrita e catalogada. Como sou contraria a patologizar as angústias do que é Ser Humano, acredito num outro caminho.

Percebo que não é por acaso que uma análise visa alcançar e tratar a raiz da questão. Já vislumbrando o buraco negro que isso pode se transformar, Freud escreve um belo texto “análise terminável e interminável”. O que ele busca explorar com esse texto é que o inconsciente é infinito, não iremos parar de sonhar, de cometer lapsos, de nos utilizar de chistes, atos falhos. Porém uma análise possui um método claro e finito sim. É poder dar sentido e vazão a nossa árvore da vida e nossas raízes que não seja de forma sintomática, demasiada dolorida e repetitiva. É sempre muito difícil nos localizar nessa árvore, na nossa cadeia geracional. Nosso lugar no mundo não esta dado, e não existe genética que dê conta disso. Para alguns, criar alguma raiz, uma filiação é trabalho para muitos anos.

O que muitos resistem em perceber é que não somos um corpo biológico puramente dito. Somos seres falantes e com possibilidade de transmitir para o outro um lugar. Por isso ser pai e mãe é tão fundamental, pois vai possibilitar essa primeira construção. Não basta gerar uma criança, é necessário adota-la como sua e dar-lhe as ferramentas para que construa seu caminho.

Já dizia o ditado: “Não temos filhos para si, mas para o mundo”. Existe uma certa ordem necessária para que possamos nos aventurar ao mundo, ou seja, para sair e alçar voo preciso saber que tenho essa tal da raiz. Só me aventuro se tenho a sensação de pertencimento. Quem já não se sentiu estrangeiro em sua própria casa? Me recordo de um caso de uma garota que na saída de sua adolescência todos em sua família foram “presenteados” com a Gripe H1N1, menos ela. Aquilo para ela foi a certeza de que não se encaixava na família, foi sua fantasia.

Entretanto, a adolescência é justamente o momento que buscamos nos diferenciar do núcleo familiar severamente. Se por um lado ela achava que havia fracassado no seu “corpo fechado”, a  sua “não doença” realizava a fantasia inconsciente dela. Vejam bem, gripe é um vírus contagioso cujo nossos anticorpos visam combater, isso é organismo, biologia. Mas no caso descrito a gripe esta perpassada pela linguagem, pela cadeia de linguagem que um sujeito esta inserido.

É genético, é químico, é fisiológico é o que mais escuto no cotidiano! Como se isso fosse a formula da irresponsabilidade de decidir o próprio destino, se isentar da parcela do sofrimento, não se implicar na fantasia que foi construída na vida. Nos escondemos por de trás de um instinto que o humano já desconhece há muitos anos.

Uma raiz é aquilo que mantem a vida, absorve os nutrientes necessários e dá sustentação, a mantem em pé. Mas não precisamos criar raízes na raiz. Escrevo esse texto pois percebo pessoas imobilizadas, padecidas na solidão, sem saber quem são. Nessa hora um rótulo patológico cai bem, mas não faz bem. Construir, desconstruir e reconstruir o novo com certeza é mais laborioso, porém mais libertador. A raiz não visa a prisão, mas a vida.

Com as cheias que vieram nesse final de semana em Blumenau, em meio a tristeza também senti uma sensação de pertencimento por escolha. Com pais cariocas, sempre estive imersa no Rio deles. Hoje, tenho também o meu rio que ora dá contorno, ora transborda a cidade. É uma cidade que se funda do rio, assim como eu também, em parte. Essas são raízes, e como a água do rio, que seja dinâmica e com contornos. Nem mesmo um rio ou fenômeno é natural quando se trata de pessoas…

Uma semana recheada de palavras que se inicia a todos!

Carinho,

Eduarda Renaux

O Espelho e o Ponto Cego

“A vida é uma tragédia quando vista de perto,

mas uma comédia quando vista de longe ” 

(Charlie Chaplin)

Uma criança (deixarei a imaginação do leitor supor a idade) pergunta para um adolescente porque ele podia ver os olhos dos outros e não podia ver o seus próprios olhos. Sentiu-se numa saia justa e respondeu: “Ora, todos são assim, também não consigo ver meus olhos“. Mas a provocação foi tanta que o mesmo ficou por dias com o seguinte devaneio: Sair de si, se ver de cima, de longe, para tentar decifrar como o outro o vê.

Esse devaneio revela como o olhar do outro nos funda e dá contorno a nossa realidade psíquica. Escuto com frequência sobre esses pensamentos de “se ver de cima”, tentar imaginar como seria a reação das pessoas diante da sua morte (sem morrer, é claro!). Todos nós temos pensamentos, sonhos acordados, mas dificilmente revelamos. Freud dizia que é mais fácil compartilharmos as nossas piores falhas do que revelar nossas mais profundas fantasias.

Os clínicos que se ocupam da subjetividade são desbravadores dessas fantasias e fragmentos de histórias em constante repetição, transformação e invenção. Um encontro com um analista é também um encontro com uma empreitada sobre a verdade que cada um carrega consigo, seria como começar a tentar enxergar os próprios olhos. Digo verdade, pois cada palavra falada é uma verdade revelada independente da veracidade dos fatos. A realidade não são fatos, mas ficções e invenções que vão compondo nossa vida.

Freud dizia que apenas com o último homem morrerá o último poeta, enquanto Nietzche propõe que a arte existe para que a verdade não nos destrua. Essas afirmações se complementam! Para que a concretude da vida não nos deixe sem saídas, no fundo todos recorremos as possibilidades da linguagem, criando sentido a nossa existência que a princípio é sem sentido, isso é arte, isso é criação, isso é história narrada, vivida, sentida. Reverter a dor em poesia é como poder transformar o sofrimento em sabedoria. Um saber a mais sobre nós mesmos…

Quase toda a história possui como enredo as perguntas: Como sou aos olhos do outro? e O que o outro quer de mim?  Assim como não enxergamos os próprios olhos, acabamos por assumir os olhos do outro como nossos próprios nessa tentativa de enxergar a imagem que o outro devolve de nós. Essa é a novela cotidiana: é comigo ou não? Para os mais neuróticos, essa novela se torna um drama.

Tentem pensar a seguinte cena: Você esta sentado num restaurante e corre uma pessoa em sua direção sorrindo. Você não reconhece, mas a primeira reação é sorrir de volta e se perguntar se de fato é com você e de onde você pode conhecer essa pessoa. Até que esse alguém saltitante abraça a pessoa que esta na mesa atrás de você. Você respira aliviado e embaraçado. No final das contas a vida é um pouco isso, impressões e paralisações, impressões e alívios.

Essa realidade de dentro e essa realidade de fora se chocam e se complementam. E assim, um comentário é tomado como crítica. Uma pergunta se torna uma cobrança. Um “não” se torna “não gosto de ti”, um pedido vira uma ordem. Que confusão!

Quem não se reconhece nesse espelho? Somos atordoados pela demanda de aceitação, de amor, de reconhecimento. Preferimos guardar a dúvida do que correr o risco de ser vaiado na sala. Preferimos renunciar a curiosidade do que enfrentar o rigor dos pais. Preferimos a submissão do que a culpa da transgressão. Não queremos correr o risco de perder o amor do outro. Isso em si não é o problema, a questão é que por muito pouco, por pequenas sutilizas acreditamos que esse amor esta em risco!

No momento venho pensando que temos que estar atentos aos corações de vidro e aos pensamentos de aço. Propor uma torção, não são nossos sentimentos que devem se fragilizar com tanta facilidade, mas nossas convicções. A vida não irá parar de acontecer, mesmo que olhada de cima. Faz-se necessário começar a fazer parte dela. Nem sempre espelhos quebrados serão revertidos em anos de azar…

Enfim, o olhar é provavelmente nosso maior desafio cotidiano, seja de longe, seja de perto, caro Chaplin! A questão é aquilo que foge de um olhar: a vida pode estar uma tragédia quando vista de dentro, e uma comédia naquilo que permito mostrar….

Que seja eterno enquanto dure…

O amor não faz sentido, ele dá sentido. E ai que mora o perigo e por isso também tão difícil de ser explicado. Diria que o que compõe o cenário da vida esta sempre em torno do amor e da perda. Nascemos e vivemos amando e perdendo. Atualizamos a cada relação a nossa forma de amar e ser amado.

O amor protetor, o amor controlador, o amor ausente, o amor deselegante, apaixonado, possessivo, exclusivo, atrapalhado. O amor possui várias facetas e não pode ser definido em um dicionário universal. Cada um defini a sua forma e a partir de sua história e experiência. Diferente da paixão, o amor é uma forma mais profunda de fazer laço, absolutamente singular de cada um e que toma forma mais autentica com a intimidade.

Bem, comecemos pelo início! Todos nós já fomos dois em um. Experienciamos desde o nascimento que mesmo com dois corpos já separados eramos uma extensão da mãe, uma relação de dependência física e psíquica extrema. A mãe, nosso primeiro amor, foi também nossa primeira privação e frustração. Se tudo correr bem, a mãe não se contem apenas com o filho, ela vai querer mais da vida. Ali começamos a ter de lidar com a perda do amor todo. E é essa perda que restaura/possibilita nossa capacidade de amar outras pessoas.

Como vou seguir amando se me basto sozinho? Algo deve faltar para que possamos abrir espaço para que um outro entre na turbulência da nossa vida. Por isso a perda do primeiro amor simbiótico é a nossa perda originária, primordial. Amamos para perder e para poder voltar a amar!  A simbiose com alguém não abre espaços, não possibilita faltas, diferenças, ausências.

Seria amar, no fundo, uma tentativa de fazer duas vidas uma só novamente? Aquela plenitude primitiva registrada em cada um de nós?  Hoje mesmo ouvi uma fala muito interessante de uma mulher angustiada com o alvo de seu amor: “Sabe como é, homem de mais de 40 anos que não casou ou não gosta de mulher ou é da mamãe“. Não contive a gargalhada. Não se trata de ciência, mas de um saber já compartilhado. Se não saiu do lugar é porque não precisou!

Não se trata de perder a mãe, ficar órfão (é uma condição psíquica e não concreta, por isso órfãos põem manter essa condição), mas perder o amor simbiótico e adquirir uma singularidade.Lacan nos dizia: “Amar é dar aquilo que não se tem”.

Por isso repito que o amor e a perda (falta) são indissociáveis. Mas fingimos muito bem não saber disso, e seguimos querendo tudo e mais um pouco. Muitas pessoas seguem a vida buscando amores plenos. Quem mais entende disso são os ciumentos extremados. Para os ciumentos de plantão o medo de perder o objeto precioso é devastador.

Sem a pessoa ficam sem identidade, algo em torno: “se ele me ama, sou mulher. Se ela me ama, sou homem”. Isso toma tamanha a proporção que perder o amado não é apenas perder uma referência, mas cair em ruína. O amor em sua totalidade é inegociável. E justamente por ser insustentável essa demanda,que  o ciumento é especialista em promover perdas. A psicanalista Angela Bulhões lembra que no idioma havaiano, ciúme também pode querer dizer despedida. É extremamente sagaz a tradução pois temer é uma forma de antecipação.

“Como pode ter outros interesses além de mim?”, uma novela que todo mundo já viveu. Freud já dizia: “Como fica forte o humano quando tem a certeza de ser amado“. Disso não tenho dúvida! Pois padecemos de amor e nos curamos através dele. Não é estático, nem natural, o amor é demasiado humano bem como suas complexidades! E como tudo na vida, inclusive a vida, não é para sempre.

Mas que seja eterno enquanto dure…

Função Mãe

NEM TAO PERTO QUE SUFOQUE, NEM TAO LONGE QUE ABANDONE…

Há dois dias mais ou menos, vi uma frase no Facebook que dizia o seguinte: “A vida não vem com manual de instruções, mas vem com uma mãe“. Essa frase, dentre tantas outras divulgadas, foi a que mais cativou minha atenção e hoje no dia em que é celebrado o dia das mães acho que compreendi em parte o porque de sua veracidade.

Muitos podem vir a pensar que esse dito alerta a importância de se ouvir o que uma mãe tem a dizer e seguir a risca seus conselhos. Porém desconfio que sua beleza esta no fato de que é na relação com a mãe que nos constituímos e inscrevemos uma forma de operar. Sabemos algumas coisas de nossa forma de viver no mundo, outras já não temos tantas notícias assim. Agimos sem saber ao certo a que regras e a que instruções estamos seguindo. A mãe é a pista, a peça fundamental do quebra-cabeça.

Todos sabemos disso de alguma forma, pois não por acaso elas protagonizam as nossas narrativas queixosas, reivindicativas ou de admiração, amor incondicional. A ambivalência amor e ódio é o cenário que colore os mitos familiares que cada um vai construindo para apresentar sua história.

Freud, em toda sua teoria fala dos desejos e amores familiares. Ele inaugura e apresenta um dado clínico fundamental: um bebe é uma extensão da mãe e o processo de separação é dolorido, e por vezes traumático. Mas sem essa separação se fundam as neuroses e as perturbações psíquicas graves. Traduzindo: Se cai antes da queda, se soprar a casa cai!

Mas é humanamente insuportável para uma mãe deixar de sua cria tão facilmente, é necessário uma ajuda. Essa ajuda, na maioria das vezes compete naquilo que o desejo da mãe esta para além do seu bebe. Na maioria das vezes é o pai. Mas pode ser o trabalho, o grupo de amigas, a escola, o namorado. O problema é quando a mãe vive só pelo seu bebe. Qualquer separação é por demais dolorida para essa mulher que dedica exclusivamente seu tempo a sua criança.

Winnicott um psicanalista muito interessante que ocupou boa parte da carreira em compreender a relação mãe-bebe traduz a importância de uma mãe suficientemente boa. A mãe suficientemente boa é aquela que se faz presente mesmo quando não esta colada ao lado. Ou seja, é uma presença na ausência. É desta forma que passamos as dificuldades na vida sem cair no desamparo, não nos sentindo tão só no mundo, sem criar uma relação de profunda dependência. Lembrando que deslocamos essa relação de dependência para outras pessoas.

Para pensar um pouco nessa questão da dependência e desamparo me ocorre a mãe canguru. A mãe canguru é aquela que carrega o filho literalmente dentro de si, não o deixa desbravar o mundo. Trata o filho como um eterno bebe e frente a qualquer dificuldade seu primeiro intuito é joga-lo para dentro da bolsa. Nesses casos, tanto para a mãe quanto para o filho, a casa é o único lugar seguro.

Prefiro pensar na mãe coruja, que já é carinhosamente conhecida por todos. Para a mãe coruja o zelo e proteção se da pelo o olhar, mesmo que distante. Quando percebe o perigo, agirá com agressividade se necessário. Mas saberá a hora de retornar ao galho. Ela observa os filhotes aprenderem a voar e intervem quando necessário. O filhote sabe que não esta sozinho, mas não exige que a mãe faça por ele. Afinal, ah de se responsabilizar também os filhos dependentes, ao contrário do que as mães se queixam, nem sempre a culpa é da mãe! Deixemos as culpas de lado e façamos valer as responsabilidades. De culpas já sofremos demais na vida!

Ser mãe não é instinto, inclusive deixamos ele em segundo plano desde o momento que o ser humano aprendeu a falar. Ser mãe é um desafio diário, é relembrar a condição de filha, é errar tentando acertar, é acertar sem se dar conta. Ser mãe é fazer presença, e também saber se ausentar. Por isso ser mãe é a arte do nem tão perto que sufoque, nem tão longe que abandone.

Ser mãe é uma função! Qual? Dar vida! Tanto a fisiológica como a psíquica, possibilitando que o filho possa criar uma imagem unificada de si, achando um lugar no mundo, saindo da condição de pura extensão da mesma. Enquanto a vida só gira em torno da mãe, não teremos uma vida própria, mas a vida dela.

Mães tem defeitos não porque são mães, mas porque são humanas. Quem sabe o defeito que de fato é mais frequente em uma mãe é achar que tem de dar conta de tudo sozinha. As mães cangurus sofrem mais disso.

Se seu filho se queixa de você, não se preocupe! Esta para nascer o filho que acha que tem a mãe que gostaria. Compreender e admirar a mãe pelo o que ela é e fazer proveito disso vem com a sabedoria que apenas o tempo dá. Você também teve o seu…

Parabéns as mães, vocês sem dúvida merecem este dia..

Eduarda Renaux

Martírios de Domingo

PORQUE DEPRIMIMOS NO ANOITECER DE UM DOMINGO…

Se pudêssemos fazer uma previsão, provavelmente a maior parcela da população no domingo compartilha da escuridão, da imensidão negra que encena a noite que vai chegando. Nem mesmo as estrelas iluminam a vastidão dos pensamentos e da angústia que cada um carrega no peito.

Por que será tão difícil sobreviver a um domingo que se encerra? Alguns em uma recusa de que o final de semana acabe, elegem essa noite para não dormirem. A insônia da sétima noite. Praticamente viram a noite na esperança mal-sucedida de estender a folga. Digo que é mal-sucedido pois começaram o expediente mais cedo do que o necessário ao invés de prolongar o final de semana.

Desejando não se deparar com o retorno das atividades e responsabilidades da semana, os humanos são especialistas em contradições! Pois é justamente ai que começam a arquitetar as pendências e compromissos da semana antes mesmo de seu início formal. Como o pensar é infinito e tudo pode, vamos ainda mais longe e fazemos um balanço de como estamos nos saindo na vida! E é claro que achamos os mínimos detalhes que podíamos ter feito melhor, que deveríamos ter realizado de forma diferente.

Nessa hora o caminho esta dado: Fantasiamos nossa melhor versão sonhando com a capa da revista de renome que estaremos, o príncipe encantado que conheceremos, os filhos prodígios que colocaremos no mundo, o corpo perfeito que teremos com a dieta que obviamente começará na segunda-feira, as fortunas que próprio negócio irá render.

De repente, naquele súbito desespero, percebemos que para isso precisaremos botar a “mão na massa”, lembramos dos limites reais da vida, da bronca do chefe na semana anterior, no descontentamento do cliente com o serviço prestado, nos problemas de relacionamento que andamos enfrentando nos últimos dias, no mercado competitivo e voraz que enfrentamos. Entramos em pânico, em terror. E para certificar o quão mal estamos, rebobinamos ainda mais a fita e lembramos dos momentos mais árduos, conflituosos que passamos na nossa história e tudo que poderíamos ter feito melhor.

Excessos de pensamento dessa ordem é uma covardia especialmente humana. Digo covarde pois o passado não será mudado e o futuro não poderá ser executado na hora de dormir. Ora, sabemos disso. Mas também sabemos que durante a semana não teremos tempo para pensar nisso. Quem sabe o domingo, seja por excelência o dia de pensar na vida e por isso difícil sobreviver. Mas pensar na vida não deveria ser tanto sacrifício…então o que se passa?

Pois bem, para falar do domingo a noite é necessário lembrarmos da sexta-feira a noite! Essa sim é uma armadilha que só nos damos conta que caímos dois dias depois. Ninguém faz retrospectivas após o expediente diluído na cervejinha ou no bate papo com amigos. A sexta-feira feiticeira cria uma ilusão de que a próxima semana será um recomeço e que não existe com o que se preocupar, apenas descansar e celebrar. Partilhamos de uma sensação de onipotência, de indestrutibilidade, de força heroína. Não por acaso as fatalidades acontecem nos finais de semana.

O martírio do domingo é proporcional ao colorido da sexta-feira. O que certamente é nosso equívoco é o nosso extremo. Tudo ou nada! Não pulverizamos, diluímos nossos dias. Pensar não significa cobrar, punir, cair em martírio. A vida é um caminho que passa pelas mais diferentes paisagens, assim como a semana lembra a execução, a sexta é propícia a diversão e o domingo convida a reflexão.

Apenas aprecie com moderação!

Quem Tem Boca Vai(a) Roma

A antiga expressão “quem tem boca vai a Roma” já ajudou alguns temorosos as novidades a se orientarem em meio a multidão. Quando utilizamos esse dito popular, certamente nos referimos de que quem fala chega ao lugar que for. Não se acanhe! De pergunta em pergunta, você chega lá!

Mas na verdade a expressão original é “quem tem boca vaia Roma“! O verbo não é ir, mas vaiar! Isso porque os impostos na antiga Roma já eram bastante acentuados e era comum que a população utilizasse o dito como forma de revolta.

Esse deslocamento de “vaia” para “vai a” não é só uma questão de fonética, mas de adequação a uma cultura que esta em constante transformação. Provavelmente vaiar Roma já não condiz com nossos tempos e a possibilidade de mobilidade tem seu destaque maior!

Porém, tem um elemento comum as duas expressões que dizem respeito a voz, ou seja, quem tem voz se faz ouvir! Seja pela via da reivindicação, seja pela via do conhecimento. No dia 16 de abril, comemora-se o dia internacional da voz! Essa data não poderia passar “muda” nesse espaço e é através desse dito popular que pretendo aqui prestar minha homenagem.

Objetivamente falando, a voz humana é o som emitido através das cordas vocais para falar, cantar, rir, chorar, resmungar. Enfim, pode ser desde um som orgânico até a forma mais simbólica de relação com o outro.

Provavelmente não lembramos, mas quando bem pequenos fazíamos muitos sons estranhos e cabia a quem se ocupava de nós traduzir o que cada som representava. De um som sem grande significado, os pais dão voz ao bebe, colocam um sentido, uma linguagem. Sendo assim, voz é mais que som, mas uma forma fundamental de relação com o outro.

Feito mágica, temos a sensação de onipotência pois todo o desejo é traduzido. Não por acaso algumas crianças sofrem da sensação de que pensam em voz alta, pois ainda carregam o que restou dessa primeira etapa da vida. Me lembro que quando criança sempre perguntava para minha mãe diante de uma comida estranha se eu gostava ou não daquilo. Como a resposta era sempre sim, comecei a constatar de que algo estava errado. Ela não poderia saber tudo, cabia a mim provar e tirar minha conclusão.

Com o tempo, não precisamos mais que alguém interprete nossos “ruídos”, nossas dúvidas, podemos falar por si só. Porém não raro, percebemos que essa posição mais primitiva permanece. O pedido é que adivinhem o pensamento, o que sentimos. A interpretação é via feição, pelo olhar e não pela palavra. Ou até mesmo a espera de que o outro fale por nós. No trabalho isso é frequente, nossas insatisfações com uma empresa buscam na figura de alguém um “porta-voz”.

Na etapa adulta ter voz é ter vez, é contornar limites, ter posição ativa na vida. Quem tem voz se revela mais, clareando para si e para o outro onde mora o desejo, seja ele insatisfeito ou impossível. Não ficamos no aguardo que o outro atribua significados por nós. Falamos em nome próprio.

A perda da voz implica em uma série de complicações, como sensação de não pertencimento, aprisionamento dos próprios ideais, dificuldade de autonomia e confiança. E problematizando o hoje, podemos pensar que cada vez mais, o pedido é de calar qualquer manifestação daquilo que se expressa em nós. Não queremos saber o que as crianças nos dizem com sua agitação, não queremos saber de nossas próprias tristezas ou oscilações de humor. Queremos silencia-las.

Se ao perder sentimos dor e a necessidade de se recolher é porque isso é um recurso psíquico importante para a restauração do eu frente a um objeto perdido, fenômeno que damos o nome de luto. Mas facilmente buscamos a medicação, antes mesmo de escutarmos no que implicou essa perda em nossas vidas. Ouso dizer que a vida é uma série de pequenos lutos e novas conquistas.

Se por um lado, o pensamento pode ser um convite ao “jogo de adivinha”, por outro tem os guardiões do pensamento, pensam em tudo e não revelam nada. Já dizia Drummond, “Há um certo gosto em pensar sozinho, é ato individual como nascer e morrer.” Sendo assim, o pensamento é intimo, privado. Cabe a nós saber quando convidar ou não o outro a participar do que pensamos. Convidar o outro a fazer parte de nosso universo individual é sair da solidão pensativa e ir rumo a novos destinos.

Dar voz não se trata apenas de falar, mas de possibilitar que aquilo que habita em cada um possa se revelar de alguma forma que não através de sintomas. Consequentemente, a fala flui. Quando o sujeito dá voz aquilo que adormecia em si mesmo, sua posição diante da vida se modifica. Nos apropriamos de uma liberdade única.

Para aqueles que a vida é uma arqueologia de problemas, uma análise é construir e resgatar voz para soluciona-las. Atualmente penso que “Quem tem boca e um analista/divã vai(a) a si próprio“. Por um lado ficamos mais críticos a nossa forma de se posicionar no mundo (vaia), ou seja, nos damos conta que pagamos preços altos demais por nossa neurose. Por outro, temos acesso a caminhos jamais desbravados por nós (vai a). Freud já dizia que uma análise se destina a dar ao paciente uma informação para si mesmo, que é pertinente, que lhe pertence inteiramente, e da qual não tem consciência. 

Nessa semana da comemoração do dia mundial da voz, desejo que todos possam encontrar os melhores recursos possíveis para exerce-la na vida!

Queria Sorvete mas era Feijão

Quem já não abriu o freezer em busca de sorvete e teve uma grande decepção ao encontrar o almoço da semana no pote branco de tampa azul/vermelha? Mas pelo visto não é só nas embalagens de nosso freezer que nos deparamos com surpresas!

O ocorrido com a marca Ades deixou de cabelo em pé muitos daqueles que contavam em sua mesa o saudável suco de soja. Deixavam seu refrigerante de lado, cheios de aromatizantes, corantes e açucares para saborear uma opção bem mais nutritiva com uma imagem de família feliz!

Meu objetivo aqui não é criticar ainda mais a marca Ades, afinal a mídia e redes sociais como um todo já se encarregaram disso. E não se engane! A Ades é só a marca da vez, pois são inúmeros os exemplos de quebra de confiança entre marcas e consumidores. Um exemplo que sempre me deixa boquiaberta são os pães integrais. Você deve olhar os valores nutricionais atrás da embalagem para se certificar que são integrais mesmo, isso porque uma pequena porção de trigo integral já é suficiente para se dizer integral. Será que não seria mais honesto colocar na embalagem: Pão semi-integral, então?

Mas a questão que proponho aqui é que tudo isso é reflexo de um mal-estar onde a embalagem não condiz com o conteúdo. Amplio isso para as relações humanas, já que estas são as que mais me interessam pensar.

Vivemos um tempo em que o discurso preconiza o “querer é poder e você pode ser tudo o que você quiser“. E quanto mais se comercializa a felicidade, mais antidepressivos são vendidos. Quanto mais se dita o ideal de beleza, mais a obesidade se torna um problema de saúde. Mais divórcios, mais trocas de emprego, mais mais. E onde tem excesso, tem sofrimento. A diferença entre o idealizado e o adquirido, mostra uma sociedade que vive o excesso e em consequência o sofrimento. Do que tanto sofremos, afinal?

Volto para o início desse texto: queríamos uma coisa e no lugar encontramos outra, e temos uma fragilidade tremenda em reconstruir aquilo que se quebrou na diferença do almejado e o encontrado. O problema em si não é a frustração, mas essa ser tomada como fracasso e perda irreparável.

Como vivemos um momento da história em que perder esta fora de qualquer plano, vamos trocando de parceiro em parceiro, de emprego em emprego, de amigo em amigo, para não se frustrar e não mostrar nenhuma falha para o outro. Tento explicar: Existe um tempo específico cronológico e subjetivo para começarmos a lidar com as falhas recíprocas que vão aparecendo em qualquer relação. Todo o início de namoro é perfeito, todo o início de emprego é novidade e aprendizado. Vai chegando o momento, que só o tempo vai possibilitando, que são essas trocas de limitações. Se consigo cortar o vínculo antes que as limitações apareçam, logo sou um eterno potencial, um projeto piloto perfeito, “só não consegui, pois não tentei.”

Abaixo uma tira que achei de uma delicadeza e de uma verdade que merecia ser compartilhada…

Sair do anonimato penso que se trata disso: Correr riscos, apostar! O laborioso não é o aparecer em si mas o que fazer com aquilo que aparece, com aquilo que não controlamos…o previsto e o imprevisto.

Essa medida trata-se justamente da possibilidade que temos de decepcionar e ser decepcionado, surpreender e ser surpreendido. Saindo do campo apenas do idealizado corremos menos riscos de sermos confundidos socialmente com um pote de sorvete numa prateleira, e nos tornamos com mais jeito e cara de gente.