A Virada do Tempo

Quando o joelho começava a doer durante a noite, entre uma mudança e outra de posição na cama, já sabia que viria frio e chuva. Quem sabe só frio. Sua articulação do joelho esquerdo era previsão de virada do tempo. De tanto ouvir que era coisa de sua cabeça, já não falava mais sobre o assunto há muitos anos.

Mas não eram só as articulações que anunciavam que o tempo mudava. O corpo já não respondia mais a seus comandos. Além da pele murcha, os cabelos que antes eram dourados como a claridade refletida na areia do deserto tornaram-se a cor dos alpes no inverno. O que sentia ser por dentro não encontrava destino no que o próprio destino a todos reserva.

Silenciava sobre o que o corpo lhe contava com uma lucidez única, o espírito não condizia com a pele que vestia. Envelhecer era proibido na comunidade, na família e na vida. Não poder reconhecer as viradas do tempo era como impedir a trovoada num dia quente de verão. Tempestades trazem estragos, é verdade. Mas com cada queda uma decisão: a possibilidade de reconstrução ou de aceitação.

Os efeitos do tempo é o descontrole de quem não sente com a cabeça, mas com o coração. A senhora acreditava precisar de um exorcismo. Mas não para livra-la de uma alma maldosa que se apossou de seu corpo. Mas ao contrário, queria livrar-se desse corpo já doente, ruidoso e traiçoeiro que lhe fez abrigo uma vida inteira mas que a agora lhe deixava na mão.

Tem pessoas que segregam pessoas, ela segregava suas limitações. Mas tudo que na vida escondia, no corpo aparecia. O corpo é uma radiografia do tempo. O frio que viria, reza a lenda todos sentem, quando se sabe que o desconhecido se aproxima.

Com toda a sua vivência, deitada, com dor nos joelhos e algumas doenças que já nem sabia que tinha, refletia: Se for para deixar essa vida, que o passado seja poesia e o futuro uma breve dor. Quem vê beleza no futuro não se separa da vida. Quem vê arte na história é grato a generosidade do tempo.

Sua tristeza não era frieza mas despedida. Existem parteiros de corpo, existem parteiros de alma. Ela estava em trabalho de parto e percebia que a vida é pura sabedoria. Todo o parto é desamparo e toda a memória é abrigo. Perder a lucidez é um recurso de quem decide virar o tempo antes que ele vire.

Estar lúcida era amargo mas também sentia o sabor doce de quem opta viver este parto. Fez enfim as pazes com seu corpo e o reconheceu como seu. Toda a sua lucidez era resultado de sua história e não de um corpo trapaceiro. Suspirou fundo como quem reconhecesse que a vida é um sopro, mas também um suspiro. Quem sabe esse suspiro era o vento que faria a virada do tempo que seus joelhos previam.

Eduarda Renaux

 

 

Despertou!

Despertou! Sem o sobressalto do despertador e nem de um pesadelo. Apenas abriu os olhos como se o sono nunca tivesse lhe alcançado naquela noite. Mas também lembrou que foi dormir exausto. Já sabendo que sofreria rigorosas consequências desse ato encorajou-se a olhar o relógio, com um dos olhos meio aberto e o outro fechado. Eram duas da madrugada. Se confortou em saber que teria mais quatro horas até o tempo de se levantar, mas se angustiou dado o quanto desperto se encontrava.

Virou para o outro lado da cama na certeza de que a posição que a cabeça ocupa no travesseiro era decisiva para voltar a dormir. Alguns minutos depois resolveu retornar para a posição original com a regra básica: Jamais abrir os olhos quando se tenta voltar a dormir! Abrir os olhos significava covardia na guerra contra a insônia. Quem esta acordado mantém os olhos abertos entre uma piscada e outra. Quem mantem os olhos fechados dorme ou esta morto.

Começou a pensar que se estava de olhos fechados e não estava dormindo e nem morto, desconfiou da própria regra. De pronto abriu os olhos para ter certeza de que estava vivo.Quebrou a regra e ficou perplexo com a própria fraqueza. Fechou os olhos com força, respirou fundo, dobrou os joelhos para o lado, puxou as cobertas para próximo do queixo e estava decidido a voltar a dormir. Mas lembrou que dormir não era decisão, mas uma entrega.

É um ato de muita coragem dormir, perder o controle de quem tanto vigia o dia, para não perder-se de si mesmo. Quem sabe não gostava do que via por dentro, não gostava da sua versão revelada, inquieta, insatisfeita. Associou que sua insônia tinha começado após uma série de noites com pesadelos em série. Definitivamente preferia olhar para fora, mas sem nada ver. No íntimo não gostava da própria vida, mas como já suspeitava não olhava para o íntimo fazia anos.

Tinha um medo enigmático de dormir e não acordar mais. Pensou em tomar um indutor do sono, não que fosse a favor de tomar remédios para dormir, mas até mesmo adultos precisam de uma musica de ninar vez ou outra. Mas não era a vida insatisfatória que lhe preocupava, mas sua insônia. Enquanto perdia tempo associando o sono com o medo da morte, em nenhum momento lhe ocorreu associar o sono com o medo de viver. Tinha que tomar uma atitude, a insônia era sua fiel mensageira, cuja a mensagem nunca chegava ao destino final.

Já era cinco e quinze da manhã e ensaiou um cochilo, acordou exausto com um único pensamento: que o dia passe depressa para que pudesse voltar para cama.A vida era uma longa espera por dormir e dormir era uma longa espera por não morrer.

Até que dessa penúria, a insônia dessa noite sussurrou uma ideia: não era a noite sua inimiga, mas a forma como vivia o dia. Ali também já não sonhava mais. Nem de dia, e nos últimos meses, nem de noite. Não estava vivo, nem morto. Cego, de olhos bem abertos. Vivo, de olhos bem fechados. Com o deciframento dessa mensagem era como se enfim a vida lhe tivesse alcançado. Decidiu despertar para poder sonhar. Despertou!

Eduarda Renaux

Um Conto Sobre Uma Pergunta

Ela estava pensando no nada e em tudo que dentro do nada existia. Até que uma pergunta de precisão cirúrgica lhe furou a nuvem do pensamento. Caiu de lá do vazio no que muitos chamam de “choque de realidade”. Se o chão era a realidade, a garota enfim, beijou o chão. Mas não quis ficar lá por muito tempo. Não suportou a dureza da realidade e foi tentar divagar novamente. Ela ainda existia mais na fantasia do que na realidade.

Na verdade, na realidade é como se ela não existisse, pois se pensava louca demais para existir no chão. Mas agora já era tarde, seu pensamento não conseguia mais ser sobre o nada. Mas um pensamento sobre a pergunta.

Começou a questionar, se na verdade, não era a pergunta a responsável a lhe dar um chão. Já não sabia mais se estava nas nuvens ou na realidade. E tudo isso porque escutou a pergunta.

Sabia que desde sempre não tinha nada de concreto para se apoiar. No fundo, sabia também, que as nuvens de longe pareciam consistentes mas de perto era um vazio. E por isso vivia de angústia, paranóia e fobia.

A garota era louca mas de muita sabedoria. Estava se sentindo diferente e compreendeu que poderia estar experimentando pela primeira vez o que é ter finalmente um chão. Mas ainda era um apoio muito precário porque era feito de apenas uma pergunta.

Viajava com frequencia. Até para fora do país ia vez ou outra. Mas se fosse para sair, queria ir para longe. Mas ela tinha medo de avião, de altura e de se perder na multidão. E foi quando estava perdida na Conchinchina na Asía, após já estar cinco meses por lá, que a pergunta que lhe furou o pensamento e lhe deu o precário chão apareceu: “Óhhh menina, por que tu não gostas de geografia?”

“Mas gosto de história”, respondeu a menina. E um bombardeio de novas perguntas de próprio punho apareceram: “Mas seria história uma geografia contada?” “Sabemos o que sabemos porque articulamos a geografia historicamente?” “Seria por isso que nas escolas a história é sempre sobre guerras, povos, descobrimentos e geopolítica?” “O que é mesmo geopolítica?” “Seriam as pessoas mapas históricos?” “Seria, então, eu também um mapa e minha origem a bússola que me (des)norteia?”

E a menina que sempre se admirou por gostar de história, através de uma pergunta se localizou no mundo. Porque agora entendia que o excesso de história sem geografia a enlouquecia. Mas que também não era sanidade que lhe faltava, mas bússola e mapa para sair da errância.

“A qual a distância uma pergunta pode lançar alguém na vida?” Se isso era questão de história ou geografia, isso ela não sabia.

Eduarda Renaux

A Gente Se Acostuma Mas Não Devia

“A agente se acostuma. Mas não devia”.

Marina Colasanti

Estava no telefone, quando a pessoa que me ouvia se encorajou a perguntar: Por que estais ofegante? De pronto respondi: Não estou ofegante.

Pelo menos assim me sentia, de fôlego normal. Com histórico de rinite e por ter ficado desconcertada com o comentário resolvi agendar uma avaliação com o médico.

Eis que o médico me diz: Você sabia que quem tem rinite dificilmente procura um médico? Curiosa com essa colocação perguntei o motivo. Ele responde: Quem sofre de problemas respiratórios, se acostuma a respirar mal e acaba não conseguindo diagnosticar quando esta em crise. Moral da história: Você se acostumou, mas não devia.

Essa máxima se aplica muito além de pulmões. Como anda nosso fôlego para viver e construir nosso lugar singular no mundo? Percebemos nossa acomodação frente as demandas diárias? Enxergamos que não nos opomos àquilo que nos oprime?

Pessoas muito bem adaptadas ao meio social, pagam preços altos pela busca dessa adequação. É impossível se adaptar a tudo sem matar o motor de nossas próprias aspirações, ou seja, sem colocar o desejo em risco.

Adaptação significa “ajuste de uma coisa a outra” que trocando em miúdos significa que gradativamente vamos nos transformando em alguma outra coisa que não duele com nossos monstros internos, quase que uma morte lenta. Mas como essa tentativa é sempre fracassada, o corpo grita, seja através de sintomas ou de atos.

Estamos habituados a sufocar pelas palavras não ditas, a remoer pelo não feito, a não reconhecer os próprios limites, a priorizar expectativas alheias, não despender energia em conflitos necessários. E se nos acostumamos é pelo temor das inevitáveis perdas que teremos no caminho, entre elas: não ser mais amado pela submissão e passividade que a adaptação nos submete e pela angustia da autonomia.

Mudar é difícil pois colocamos o fôlego no lugar errado. Naquilo que importa: nos julgamos incapazes, já cansados das inúteis pequenas batalhas diárias. O desconhecido é um cenário em que nos vemos mais sós, o novo é um desassossego constante. Mas respiramos melhor depois disso. E quando respiramos melhor ficamos estarrecidos ao ver o que éramos.

Sou grata a pessoa que ouviu minha falta de fôlego. Tem um mundo de gente que espera que você se acostume, mas também existem aqueles que te lembram: mas você não devia!

Depois partimos para uma segunda etapa: a gente não se acostuma, e por isso incomodamos os acomodados. As vezes não incomodamos, mas deveríamos!

Eduarda Renaux

 

O Gato Subiu no Telhado

“Um casal dedicava especial atenção e carinho a um gato de estimação. Quando fizeram uma longa viagem de férias, deixaram o gato sob os cuidados da empregada. Após alguns dias, a madame ligou e perguntou sobre como estava o gato. A empregada, então, respondeu:
— Seu gato morreu!
A madame, nervosa e desesperada, entrou em pânico. O marido, também, chocado, repreendeu a empregada, dizendo-lhe que deveria ter sido mais cuidadosa e sensível ao dar a notícia. Ele a instruiu sobre uma forma mais sutil de transmitir tais acontecimentos:
— Você poderia começar dizendo “o gato subiu no telhado”. Depois diria que ele se desequilibrou. Em seguida, que caiu do telhado e acabou não resistindo à queda. Seria mais sensível.
Semanas depois, estando ainda de férias, a madame ligou novamente para a empregada e perguntou-lhe se tudo estava bem. A empregada, cuidadosamente, respondeu-lhe:
— As coisas estão indo muito bem. Mas sua mãe subiu no telhado…”

A expressão “o gato subiu no telhado” surge a partir dessa bem humorada narrativa de um casal que sai de férias e são pegos desprevenidos com a morte de seu estimado gato. Conheci pessoas que utilizavam a expressão mas desconheciam a piada. Quem sabe porque já não seja necessário falar dela, ela já está internalizada como analogia a uma tragédia anunciada.

Alguns acontecimentos na vida são trágicos e ocorrem sem que estejamos preparados. A piada refere a uma cotidiana súplica nossa ao destino de que este seja mais sensível a nossas emoções e vá nos preparando para as más notícias. Mas Óh destino cruel!

O estado de terror surge quando estamos psiquicamente desprovidos de recursos para enfrentar a fato dramático que impiedosamente se impôs. Muitas vezes esses estados pós-traumáticos possuem uma configuração bastante específica, tais como: terror, estado de impotência, impossibilidade de agir e medo excessivo.

O medo é um recurso que utilizamos para canalizar um desamparo mais geral em um objeto específico. Ele é um estado afetivo que tem como objetivo nos prevenir de um perigo. Quando não sabemos onde reside o perigo, o medo se torna generalizado gerando angustia. Sendo assim, o medo possui um objeto específico. Já a angustia não.

Embora esperamos que fatores externos anunciem o perigo, o que ocorre é o contrário: a angústia é o anúncio de que o sujeito esta em risco. Vem de dentro, não de fora. Sendo assim, a angústia é uma proteção do aparelho psíquico para que este não seja acometido por um estado de terror. A angustia não é causa, mas efeito de algo que não vai bem.

Acontece que encaramos muito mal a angústia. Queremos silencia-la ao invés de interpretar sua fonte e mudar de atitude, de posição. A piada fala de algo que já aconteceu mas que poderia ter sido informado de forma fragmentada gerando as proteções psíquicas necessárias para o enfrentamento da perda. Mas o que fazer com a mãe que subiu no telhado? Só resta rir?

Para esse casal, subir no telhado já não se refere mais a uma arte perigosa ou uma ação corriqueira. Subir no telhado é morrer. E nosso sistema psíquico é assim, faz uma série de associações que possuem um sentido que é singular e específico para cada um a partir de histórias vividas, mas na maioria das vezes esquecidas.

E é nesse telefone sem fio que nossa consciência fala. Muita coisa se perdeu pelo caminho. E esse caminho suprimido, censurado de nossa psique gera os afetos mais diversos. A angustia é motor de transformação ou freio de mão. Cabe ao sujeito a escolha do que vai fazer com ela. Mas que ela mia em nós, mia e muito. A hora que parar de miar é porque o gato subiu no telhado!

Eduarda Renaux

 

 

Vai como Pode e Deixa falar

Não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire

a alegria das coisas simples da vida” (FREUD, S.)

As escolas de samba e o carnaval passaram a se tornar uma importante atividade comercial a partir da década de 60. E como em quase todas as datas festivas, a comercialização muitas vezes ofusca suas raízes culturais. Nesses cenários, mais do que comercializar um produto, se vende um modelo de comportamento.

Lamentações de que o extrato da “felicidade” no final do feriado consta negativo e queixas do fracasso da euforia nessa época do ano são comuns. Ressentidos de não terem atingido o suposto ideal, mascararam a frustração, definindo o carnaval como engarrafamentos imensos, aglomerações, “pão e circo”, brecha para jogadas políticas, etc. Não que assim não o seja por vezes, mas essa é apenas uma das facetas e o Carnaval não se reduz a isso.

Em uma breve história do Carnaval, Me. Teles Pinto conta que no Brasil o Carnaval iniciou no período colonial e que uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o Entrudo, uma festa de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Estes saiam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas. Esta prática foi marginalizada e reprimida, porém encontrou outros rumos para continuar existindo.

Já as marchinhas de carnaval surgiram apenas no século XIX, cujo o nome originário mais conhecido é o de Chiquinha Gonzaga com sua música “O Abre-alas”. Entre as classes populares cariocas surgiram as primeiras escolas de samba na década de 1920. Sendo elas: “Deixa Falar” – futura Estácio de Sá; e “Vai como pode” – atual Portela.

Retomando o aspecto singular e subjetivo do ser humano, podemos pensar a infância como o carnaval por excelência, onde na fantasia e na brincadeira tudo é possível. Uma vassoura vira cavalo, uma boneca vira filha, um lençol vira capa de super-herói, uma panela vira chapéu, um galho na rua vira espada, um papel crepom vira saia de bailarina. Quando a brincadeira termina, volta-se a ser o que se é para depois voltar a brincar do que se deseja vir a ser. E com isso, não só brinca de ser um ideal, como também, aproveita de um momento de prazer.

A vida em civilização é difícil, onde frustrados pelos limites, pelos interditos para se viver em sociedade, o brincar pode ser um momento de elaboração dessas angústias, além de uma importante cota de alegria – tanto para crianças quanto para adultos. Veste-se a fantasia mas não se confunde com ela.

O carnaval é uma dupla lembrança: a primeira diz de sua tradição Brasileira, onde mesmo nas situações mais dolorosas, de submissão e frustração, há de se buscar um momento de liberdade e transmitir algum prazer compartilhado com o outro.

A segunda,  diz do faz-de-conta da infância, onde tirávamos proveito do brincar como recurso para criar folego, voltando fortalecidos e criativos para a realidade que se impõe.

E como toda a euforia canalizada em grande intensidade em um período curto de tempo, vem o necessário momento de maior apatia, onde o colorido cede espaço ao cinza. São os contrastes desses tons que se vai compondo um modo de viver.

Não existe um modelo pronto de brincar o carnaval, não importa como ou onde você esteja, o importante é se permitir tirar bom proveito dessa rica transmissão cultural brasileira. Que possamos nos lembrar dos ensinamentos de que a vida é um “vai como pode” e um “deixa falar”, resgatando o Entrudo brasileiro que existe em cada um de nós. E esse ensinamento podemos tirar proveito em qualquer momento do ano e nas coisas simples da vida.

A euforia é como um grande evento em ventania, já a alegria é como uma brisa que pode ser  vivida nas simplicidades do dia-a-dia.

Não precisa ser intenso para ter valor de vivência e experiência. Então, vale a pena lembrar que viver é travar árduas lutas, mas também, obter delas um prazer, independente da sua intensidade.

 

Una Personalidad muy Propria

Quando chegou, há quase 17 anos, a criadora acreditou que não iria “vingar”. “É muito pequena, se não sobreviver pode vir pegar outra.” No desejo da nova família, ela era na medida. Inclusive a família desenvolveu nela uma espécie de mania de grandeza, ela nunca aceitou o seu tamanho. Até com Pastor Alemão já bateu boca pelas andanças da vida. Se não fosse com alguém do dobro de seu tamanho, nem gastava tempo.

Ainda muito nova e desbravadora, resolveu tomar água que pingava da samambaia, que por azar aquele dia havia sido regada com veneno. Precisou ir para UTI veterinária. “Apenas um em cada três sobrevivem aos danos que ela se meteu”, disse o veterinário, desencorajando as esperanças.

Mas no desejo de sua família, ela aguentaria, porque era uma pequena grande guerreira. Vingou novamente. Se tornou mais uma nas estatísticas veterinárias e ainda maior no coração da família.

Parece história de maluco, mas até guarda de transito ela colocou para correr. A autoridade pediu para encostar o carro. Ela o colocou em uma situação muito inusitada com sua cena dramática, histérica e vergonhosa. Ele resolveu não contrariar e ser responsável por uma tragédia canina, solicitou que o carro seguisse seu caminho. Ela vitoriosa se acalmou. Soberana e sem noção do seu tamanho, a família seguiu viagem ruborizada por sua incompetência educativa.

Eis o dia que encontrou um rival a sua altura, o veterinário de origem guatemalteca, conhecido por fazer pitbulls parecerem puddles em sua presença. Riu de nós quando dizíamos que ela era “um tanto quanto difícil” quando fora do ambiente familiar.

Mas quem ri por último ri melhor, e ela mostrou toda sua inquietude com as coisas que não podia mudar ou entender. Para não esganá-la optou por olhar para as mulheres da família e proferir a épica frase: “ela tiene una personaidad muy própria”.

Finalmente a família pode respirar aliviada, enfim tínhamos um veterinário que lhe deu um tamanho de peso pesado, daqueles de gente grande, a reconheceu no tamanho que acreditava ter. Ela não podia estar melhor assistida. E nós agora sabíamos que nome dar para suas crises de tamanha vivacidade: una personalidade mui própria!

Ele virou seu rival para sempre, e acho que ele chegou até a gostar dela. Devido a um câncer no útero, teve que remove-lo cirurgicamente. O guatemalteco nada garantiu, mas também não trouxe estatísticas. Nos restava nos apoiar na grandeza de espirito da pequena grande guerreira.

Até câncer virou doença pequena com sua mania de grandeza, voltou sã e salva. Mas a velhice e a morte são rivais impossíveis de se vencer. Lutou bravamente contra tudo e todos. E como num conto de fadas canino, teve crise respiratória em um sitio, foi enrolada numa manta simulando sua chegada ao mundo e foi morrendo em paz, reconhecendo a força de seu oponente: o tempo.

Ter um cachorro é ter uma ampulheta em casa, é ver todas as etapas da vida numa cronologia muito acessível a nós humanos. Perde-la é lembrar de um tempo que não volta, de um tempo que já passou. Perde-la é lembrar de tudo que gastamos tanto tempo tentando esquecer: a finitude. Ela sempre lutou pelas batalhas que podia ganhar, ou seja, desde muito nova sabia seu significado. E essa é a verdadeira força de sua personalidade e da marca que foi sua vida conosco.

Enquanto a lembrança não vira saudade, é um presente amargo, dolorido que assola o coração. Não vi minha cachorrinha nascer, nem morrer. Mas tenho clareza do que nasceu em mim com sua chegada e o que de mim vai com ela, na sua partida.

cindy

Bordados e Litorais

Construções de uma mãe e um bebê desencontrados.

A estimulação precoce é uma intervenção ainda em tempo quando um bebê dá a ver um sofrimento psíquico, ou nasce com um uma patologia orgânica, manifesta que algo não vai bem  e que impedem o encontro tão necessário para que se construa as primeiras rasuras de afetamento e prazer compartilhado entre mãe e bebê.

O Escrito abaixo foi produzido por mim, a partir e durante a disciplina Estimulação Precoce ministrada pela Psicanalista Julieta Jerusalinsky.

Bordados e Litorais

Ao nasceres, tantos ideais por se desfazer

Poderia me distrair e até conseguir esquecer

Se ao menos, por alguns momentos

O nosso prazer se confundisse em um…

Eu queria me ver em você,

para você poder se enxergar em mim

E aquilo que eu sonhei sobre nós

Poderia fazer brotar nosso primeiro segredo

O segredo era de que ali onde você não estava

Eu poderia ir lá no fundo do teu olhar e te buscar

Mas isso não aconteceu

O sofrimento que passei quando acreditei que não querias saber de mim

Não achei teu olhar

E você não se enxergou em mim

Um abismo de distancia se abriu

Nos grudamos de forma que já não me percebia

Menos ainda podia ler o que davas a ver

Dois olhares desencontrados

Naquele momento sem bordados e sem litoral

Foi quando um outro nos leu

Enxergou nosso olhar desencontrado

O quanto estávamos machucados

Com aquilo que nunca haviam me contado

E que quando aconteceu, o mundo não acolheu

Esse outro que chegou

Não nos invadiu e não despencou em nossos abismos

Devolveu nosso litoral com cálculos psíquicos

Mas os bordados, estes sempre seriam meu e teu

Novamente tive folego para te buscar

Contra o tempo

Ainda em tempo

Você se deu a ver com teu enigma endereçado

E eu pude falar do meu luto desenfreado

Nosso encontro foi sendo narrado e construído

com a sonoridade e musicalidade das palavras

de um tempo que enfim, aconteceu.

Eduarda Renaux

A Ressaca da Liberdade

Sempre me foi uma questão difícil diferenciar os famosos ditos populares “em cima do muro” e “meio termo”. Pensava o sujeito “em cima do muro” como aquele que era impossibilitado de escolher e bancar o lado que escolhe. Já o sujeito movido pelo “meio termo” seria aquele que consegue gozar de uma vida ponderada e comedida. Consegue conter-se dos impulsos e renunciar os extremos.

Mas o “meio termo” me parece uma forma de criar uma artimanha para ainda assim conseguir satisfazer todos os lados. Diferenciar esses ditos é um caminho traiçoeiro porque em sua raiz eles se equivalem, apenas suas intensidades, quem sabe, são diferentes.

Falar de escolhas de vida, é algo muito mais complexo do que as opções que temos no dia-a-dia. E atualmente elas se reduziram a isso, virou uma banalização. A liberdade individual é inegável porém questionável, pois dificilmente temos notícias do que rege nossas escolhas. Referir liberdade sentindo-se preso é um paradoxo.

A livre escolha trata de uma separação: Diferenciar-se do que o outro quer de nós e construir o campo de nossos próprios ideais. Esses momentos surgem quando somos fisgados pelo desejo e nos vemos convocados a responder por nós mesmos. Toda a escolha que fala verdadeiramente de nós é sentida como ousada e por isso árdua.

É muito comum após renunciarmos escolhas sintomáticas, movidas pelos anseios e conflitos, sentirmos uma profunda solidão. É como um quarto bagunçado, cuja a bagunça faz ocupar o espaço inteiro. Colocando cada coisa em seu lugar, descartando aquilo que não nos serve mais, nos deparamos com alguns vazios e o livre espaço do cômodo. Esse é o livre espaço da criação, do desejo. Mas nos vemos mais sós, ou quem sabe, nos enxergamos melhor, sem os restos do outro ecoando em nós.

Escolher é se deparar com as consequências da escolha, mas também tem sua outra face, que me parece a mais importante: escolher é uma consequência de nossa posição subjetiva. Uma escolha não é causa, mas efeito do que conseguimos suportar de angustia que a liberdade nos causa. Em outras palavras: Não são nossas escolhas que nos mudam, são nossas mudanças que nos possibilitam escolher.

Por isso muitas vezes nosso pedido de ajuda advém de um momento em que vemos a necessidade de mudar. A mudança é um processo, se trata de construções que são de ordem psíquica e por isso nos alteram, mudam nossa posição diante da vida.

Seja “Em cima do muro” ou no “meio termo” não conseguimos alcançar os extremos necessários para romper com nossa inércia. Não é por acaso que o ponto de partida não começa pelo meio, mas por um extremo. E partida tem seu amplo sentido, por um lado remete a começo, ato de sair. Por outro, de dividir em partes, ou seja, fala de uma separação. E toda a separação é acompanhada por um luto daquilo que se foi.

Quem sabe, essa sensação de solidão transitória seja a ressaca da liberdade de ousar desejar e a liberdade de poder estar em constante transformação.

Eduarda Renaux

Esta Faltando Empatia

Com frequência o tema empatia tem sido compartilhado nas redes sociais através de textos, artigos de revista e em palestras. O tema não é nada novo, mas seu destaque é particularmente recente. Em tempos de “tolerância zero”, uma sociedade partida em polos extremistas, opiniões pouco construtivas e muito demolidoras, a empatia é um convite a refletir a diferença.

O termo empatia é corriqueiro, chegou a virar clichê e sua definição por vezes é mal utilizada. Confunde-se, muitas vezes, empatia com a capacidade de se colocar no lugar do outro, que seria encontrar semelhanças de sentimentos diante de situações sofridas da vida. E ai os equívocos podem acontecer: porque empatia não é a busca por semelhanças, mas a busca por diferenças. Quem vai trabalhar de forma bem interessante essa perspectiva é o Dr. Flávio Gikovate. Fica essa indicação para quem quiser aprofundar o assunto.

Mas como podemos entender essa busca pela diferença? Ao nos colocarmos no lugar do outro frente a um problema, nossa tendência é achar que o outro pensa como nós. Mas o outro é um sujeito com uma história, com uma vida, com afetações muito diferentes das nossas. O outro não é uma extensão nossa.

Definir empatia como aquilo que sentiríamos frente a uma situação que o outro esta vivendo e buscar a identificação é de certa forma violento e pode gerar consequências grosseiras.

Se tomamos o outro como um ser diferente de nós, precisamos entender a forma como ele pensa e sente, ou seja, reconhecer e buscar nossas diferenças para que ai possamos de fato “estar no lugar” dele e compreende-lo. E o único modo de exercer a empatia é através da escuta, ouvidos atentos. E hoje parece que todos temos muito mais para falar do que para ouvir. Me parece que no “reino das opiniões”, alguém que empreste os ouvidos é raridade.

Se colocar na situação do outro é muito distinto de se colocar no lugar do outro.  Quando nos colocamos na mesma situação que o outro, tentamos colonizar nossa verdade, reproduzir nosso funcionamento no outro. O sujeito que se coloca na situação, tem muito o que falar e pouca disponíbilidade em ouvir.

Inevitavelmente sentimos irritação com a outra pessoa, que pensa ou age de forma diferente de nós, pois nos parece incompreensível. Projetamos muito e sofremos com nossas próprias projeções. A projeção significa aquilo que esta dentro de nós, que faz eco, se deforma e é colocado no outro, de forma não intencional e muitas vezes não perceptível para o próprio sujeito.

Um psicólogo que não é empático, corre riscos não porque é menos compreensivo com a dor do outro, mas porque pode se identificar com o problema do outro, com a vida do outro, confundir-se com o paciente.

E por isso a empatia é fundamental na clínica. Pois se supõe que o profissional possa ir o mais desprovido de pré-conceitos, com a cabeça mais arejada possível de suas pessoalidades  para poder compreender o outro que sofre. Mas acredito que a empatia não é restrita a clínica. Ela deve circular no laço social. Exercer a empatia é exercer a diferença, a separação das colagens que produzimos. Algo tão necessário nos relacionamentos.  E por isso acredito que a empatia é um desafio diário de cada um de nós. Estar junto de alguém, é diferente de estar misturado com ele. Quando estamos misturados, a diferença é sempre violenta e agressiva.

A empatia pode ser uma luz nessa escuridão que se formou frente ao radicalismo atual, chamado por muitos de “o retorno da idade das trevas.”

Quando ficamos mais tolerantes com a diferença, ela passa a ser menos ofensiva e mais reflexiva. Como outro pensa? Por que pensa diferente de mim? Como posso me solidarizar com aquilo que não combina com minha forma de pensar? Estou despido dos meus pré-conceitos? Estou disponível a ouvir? Quem sabe “essa onda de elocubrações sobre empatia” seja um disfarce de pedido de ajuda de nossa sociedade: mais tolerância.

Desafios! O convite esta lançado a todos.

Eduarda Renaux

Psicóloga Clínica

Bob-Esponja e o infantil no adulto

O desenho Bob-Esponja Calça Quadrada é um programa que “vingou” nessa geração. E se deu certo é porque a história dá algum suporte, mesmo que imaginário, a algo do nosso modo de viver. Não é incomum que adolescentes e adultos gostem da Esponja e até exibam adesivos do desenho em suas mochilas, janelas e cadernos. Os “memes” também são muito presentes utilizando os personagens como apoio, e até, nas telas do cinema ele apareceu. Minha hipótese é que o tamanho sucesso é que Bob-esponja é uma metáfora do infantil.

Aqui se faz importante situar que infantil e infância não são sinônimos. Embora o infantil comece na infância, ele não fica por lá. E essa carísmática Esponja pode nos ajudar a entender como isso funciona.

Bob-Esponja trabalha numa lanchonete cujo o dono, o Siri Cascudo é o símbolo do capitalismo. A ambição incalculável do caranguejo faz alusão a prevalência dos objetos e marcas sobre as relações humanas, algo bem contemporâneo. Mas Bob parece levar numa boa, pois isso que é o brincar na infância, brincar de ser adulto e lidar com isso.

Bob trabalha com um molusco que retrata o adulto frustrado, mal-humorado, obediente por opção, submisso, cuja os ideais da infância que tanto lhe deram trabalho para recalcar, a esponja faz questão de revelar. E por isso a convivência é “mal-dita”. E como o adulto sempre esta ás voltas com o infantil, não por acaso, eles são vizinhos de casa!!

Aqui a primeira metáfora do infantil – não conseguimos separar a vida pessoal da profissional. Pois somos quem somos e nosso infantil vai conosco para onde quer que vamos. O que podemos fazer é trabalha-lo em nós e faze-lo ser menos barulhento, ou seja, menos sintomático.

Essa é outra característica da esponja: ela é muito barulhenta, não passa despercebida. Assim como o infantil em nós. É barulhenta porque tudo absorve e cria uma teoria “extraordinariamente imaginativa” para dar conta do que não compreende. A esponja no mar é como o humano na terra, respira a cultura, esta imersa e inundada pela linguagem. Vale reparar que a esponja retratada no desenho é a esponja tal como conhecemos – a de cozinha. Diferente de todos os outros personagens que são mais fieis aos animais marinhos. E não é por acaso, pois a esponja alude aquele objeto que tudo absorve, excessivamente inflada por aquilo que a rodeia.

Lançados nessa linguagem simbólica, onde não somos mais movidos pelo instinto animal, mas pela nossa história e civilização, a Esponja vem revelar esse desamparo não morando com os pais. Eles até existem, mas poucas vezes dão “as caras” ao universo da pequenina esponja.

O infantil é se deparar com esse constante desaparecimento e aparecimento dos pais, que quando aparecem, surgem para tirar satisfações sobre as escolhas feitas. Os pais do Bob, são os pais da demanda, os pais do infantil. E por isso, na clínica trabalhamos com os “pais do infantil” mesmo no adulto.

O desenho passa a sensação de uma Esponja sem identidade sexual muito bem definida.  O que certamente é o que de mais complexo se apresenta no psiquismo na infância, onde a diferença sexual e a origem dos bebês é um enigma a ser decifrado. Muitas vezes é muito conflituado para os pequenos, e para os grandes também.

Como lidam com essa diferença é o que vai dar bordas a sua personalidade. E por isso a calça quadrada e o riso são as marcas inaugurais do personagem. O infantil acha muita graça daquilo que desconhece, principalmente da diferença sexual. Crianças costumam rir do “pipi”, da falta dele, do beijo dos adultos, do cocô, dos puns, das bundas, de tudo aquilo que pode servir de base para suas curiosidades “infantis”.

Quando Bob-Esponja foi para as telas do cinema, fez jus ao que se propos. Ali a metáfora é do crescimento, como se tornar um adulto.  A trajetória foi cheia de aventuras, perigos, choques de realidade, retirando a onipotência da infância e seu mundo mágico.

bob-esponja

Sim, Bob-esponja que mora num abacaxi e frita hambúrgueres em baixo da água foge da lógica consciente e racional. Mas esta totalmente coerente com a lógica do infantil, que é aquela que nos interessa, provoca e que persiste no adulto. Todos temos o infantil dentro de nós. Mas como fica mais leve quando damos um formato a ele: até podemos tentar enquadrá-lo, porém é acima de tudo maleável e poroso, e por isso, passível de transformação.

 

Eduarda Renaux

 

Os Aromas da Memória

Uma amiga, carinhosamente relembrou que sabia quando eu tinha ido a sua casa pelos rastros de lencinhos nos cômodos. Um colega, em época de clínica-escola, me perguntara uma vez se era eu que deixava um pacote de lenço em cada sala da instituição. No imaginário, os lenços já não eram mais para as lagrimas dos pacientes em sofrimento colocados solidariamente pelos que eram responsáveis pela manutenção do lugar, mas para minha fiel e demandante companheira, a rinite.

Dado esse breve cenário pessoal, alguns podem imaginar que devido a esse eterno congestionamento, meu olfato não deve ser um dos melhores. Mas os cheiros, assim como os lenços, me movem.

Aromas suscitam lembranças. Para esse fenômeno a fisiologia explica a existência do bulbo olfativo que tem intima ligação com a amigdala e o hipocampo, responsáveis pela memória.

Acontece que uma explicação fisiológica se torna pouco útil no cotidiano popular já que são as palavras que atribuem um sentido e um significado que pode nos dar um lugar mais dinâmico no mundo. Fica ao encargo de cada um fazer falar o que essas lembranças dizem de nós.

É muito comum associarmos alguns cheiros com um sentimento de nostalgia. Isso porque é na infância que sentimentos pela primeira vez os diversos cheiros existentes. Os cheiros são tão íntimos que até os perfumes exalam um aroma exclusivo para cada pessoa, nenhum perfume fica igual para cada tipo de pele. A marca é a mesma, mas o cheiro é único e insubstituível.

Quando se trata das narrativas testemunhadas na clínica, esse sentido parece ter uma ligação com o mundo psíquico de forma bem particular. Assim como um sabor, um cheiro verdadeiramente te faz sentir algo. Não só a recordação isolada, mas o lugar histórico que esta recordação suscita.

O corpo é marcado por nossas lembranças. Corpo é memória. Mas nem sempre conseguimos acessar algumas lembranças, pois são responsáveis por um sofrimento intenso, um trauma. Para esse fenômeno, Freud deu o nome de recalque. Algo que precisou ser esquecido, mas que retorna não como forma de lembrança, mas de sintoma. A resolução de um conflito vivido em análise é a difícil tarefa de fazer lembrar, elaborar para aí poder esquecer o que outrora fora insuportável.

Não posso deixar de recordar o caso Freudiano “Miss Lucy” que tratava de uma jovem de 30 anos que perdera o olfato e sofria de alucinações olfativas de pudim queimado e que no decorrer do tratamento passou a sentir o cheiro de fumaça de charutos até a remissão total do sintoma. A resolução desse caso de histeria, só foi possível após várias associações da paciente a partir dos cheiros que alucinava.

O que chama atenção nessa história clínica é a escolha do psicanalista na direção do tratamento: “Resolvi, então, tomar como ponto de partida da análise esse odor de pudim queimado”.

E este foi nosso ponto de partida também quando chegamos no mundo. Diferente de muitos animais que se localizam no espaço pelo que conseguem farejar, o olfato humano parece nos localizar para além do espaço, um tempo e um estado psicológico. Cheiros podem ser bússolas privilegiadas.

Vi num poste da cidade um cartaz que dizia: “Respira o que te inspira”. Acredito que alguns aromas nos inspiram e nos autorizam a viajar para longe, mesmo sem sair do sofá. Respiramos fundo e vamos ainda mais a fundo em nós mesmos.

Eduarda Renaux

Psicóloga Clínica 

Férias de si Mesmo

Quem já não vislumbrou nas férias a solução de muitos problemas? Ou até quem sabe uma folga “da vida”?

Para aqueles que caíram nessa armadilha, a frustração é quase certa. Não adianta fugir da vida, ela te cerca de todas as formas. As preocupações são como inflamações psíquicas, elas te farão reconhecer sua presença no ato mais banal da vida cotidiana. É necessário muita criatividade para distrair uma preocupação, um sofrimento, uma angústia. Algumas pessoas tendem a fazer o contrário, distrair-se com eles.

As angustias e aflições gostam de companhia, gostam de opinião mas não se satisfazem com nenhuma resposta. As preocupações adoram estar no pensamento, porque na ação, deixam de ser preocupação e se tornam solução – mesmo que a solução não ocorra como o planejado. A chegada das férias e do novo ano fazem uma promessa tentadora: é possível zerar tudo, começar de novo.

Mas eis que vem uma importante constatação, férias não são dias dados no final de dezembro e início de janeiro, mas um “estado de espírito”, ou mais tecnicamente, uma posição subjetiva. Não raro no consultório, escuto uma lamentação legítima: “Acabei não descansando, vários problemas”. As brigas permaneceram, as inseguranças escancaradas. Isso porque tendemos a considerar que nossos problemas residem em nossas obrigações, encarnados em uma figura exterior de carrasco, podendo ser um chefe, um professor, um colega, um parceiro, um familiar…. Férias tornam-se um pedido de fuga dessa vida de tantas cobranças. Ainda mais nos dias de hoje, onde tempo é o bem mais valioso: ninguém tem ou se permite ter.

Como é Difícil se atentar que o que nos cansa, muitas vezes, é nós mesmos, o “carrasco” esta dentro e não fora. Exaustos dos monstros internos e do próprio desamparo que habita nosso psíquico, buscamos um alento. Mas para uma cabeça cheia de medos e preocupações não existe espaço para planos e sonhos.

A vida é simples, viver é difícil. A vida esta dada, ela simplesmente existe. O viver implica em um sujeito que ocupe a vida e isso requer trabalho. Não é possível tirar férias de si mesmo pois implicaria na aniquilação do ser. Equivaleria a parar de viver, e para isso não damos o nome de férias. Por isso começar do zero é impossível. Somos fruto da nossa história e do momento de vida que vivemos. Não é calendário que produzirá uma cisão do que somos.

Proponho que tiremos um pouco o imperativo da felicidade da sexta-feira a noite e das férias coletivas do ano que inicia. O peso do domingo a noite e da segunda-feira. O viver é um continuum, cheio de autos e baixos. “Um começo” é a continuidade da vida que conseguimos passar a fazer acontecer de forma diferente. Para isso damos o nome de Mudança. Acredito que esse é o “novo ano” simbólico de nossas vidas: nossas mudanças.

Um ano de muito “novo” para todos nós!

O Porco Espinho e os Balões

Era um vez, um porquinho espinho que chorava desesperadamente por não poder brincar com os balões. Toda vez que tentava chegar perto deles…BUUMM…eles estouravam.

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O guarda florestal resolveu que precisava ajudá-lo de alguma forma e teve uma idéia brilhante:

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Após colocar as inúmeras rolhas em seus espinhos, o porquinho pode alegremente brincar com os balões.

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Essa história, retirada de um livro para crianças, é um valioso ensinamento também para os adultos.
Quantas vezes desejamos aquilo que parece tão incompatível conosco? Nem tudo nos serve como uma luva.

E indo mais além, o que arrasava o porquinho, seus espinhos, era também o que lhe protegia. Uma mesma característica ora é uma força, ora uma fraqueza.  Quando nossos sonhos parecem ir na contra-mão de nossas características, nosso jeito próprio de ser, é fato que precisamos ser mais inventivos. Mas com frequencia desistimos ou seguimos tentando da forma já prevista para o fracasso. No caso do porquinho, querendo brincar, estourava os balões. Sempre. Protegido, mas isolado deles.

Buscamos resultados diferentes utilizando as mesmas ações! E por vezes, já nem tentamos mais. No que implica tentar mais do mesmo, mesmo sabendo que o resultado é o sofrimento?

Se o ser humano é movido pelo prazer e satisfação, como pode o sofrimento ser um fiel companheiro? Sim, Freud Explica e clinica! Este pensador, através de sua experiência clínica, percebeu que sofremos de compulsão a repetição,  tema minuciosamente trabalhado no texto “para além do princípio de prazer”.

Por vezes, no que a consciência sofre, o inconsciente busca sua satisfação. Um exemplo generalista e superficial: Sofro com a sobrecarga, mas necessito da dependência do outro para lidar com minhas próprias inseguranças. É sofrimento mas é também satisfação. “Eu sei que é errado….mas é mais forte do que eu…não consigo mudar”

Nem sempre a solução está a vista e a pronta entrega. E nem sempre querer é poder. O caminho é mais elaborado e teremos que criar nossas rolhas. Nesse lindo conto, existe uma subversão do conceito da rolha. Ela não tapa um buraco, não vem para tamponar uma falta. Mas vem como um algo a mais, uma invenção, um enfrentamento do problema através de um ato criativo na relação com o outro (guarda florestal). Um encontro que transformou o porquinho.

Diferente das rolhas de fuga e anestesiamento – comida, compras, bebida, medicação sem indicação, etc, etc… (Inclusive trabalhado no texto anterior – “Pote de purpurina”). O encontro com o objeto é sempre falho, equívoco. Mas o encontro com o outro pode transformar caminhos.

Mesmo refletindo no “fora” a mudança vem de “dentro”. E como saber a diferença? Ora, uma é mais do mesmo, a outra é única e particular, de fato uma mudança. Todo dia existe a tentação de criar rolhas para o outro que sofre. Mesmo assim sigo apostando na produção que um encontro possibilita.

Então, Desejo muitos balões (desejos), espinhos (características impares) e guardas florestais (bons encontros). Isso já é o suficiente para uma boa história…

Qual será a sua rolha?

Imagens: Livro “O porco espinho e os balões” de Nick Butterwoth