A Neurótica – Pedra de Aylaat

Se a vida não podia ser mais fácil então que Deus lhe desse força para enfrentar o que viesse. “Dai-me força”, era só o que ela conseguia repetir a si mesma quando o pensamento vagava sem direção. Não podia ter certeza se pedia mais força porque desejava que assim fosse, pesada e conflituada ou se reconhecia que se sentia frágil demais para suportar o que a vida ofertava. Tinha uma percepção clara porém distorcida de que os últimos anos haviam cobrado um preço alto demais.

Fazia uma minuciosa avaliação de seu rosto de dia. Já a do corpo era a noite. A lógica seguia da seguinte forma – apenas a noite o corpo já daria evidencias de ter sofrido as alterações de pressão, olhares, temperatura e peso. Já o rosto, era do contrário, toda a marca da dor apareceria pela manhã, pois a noite era o momento que olhava para dentro de si. Do corpo esperava as oscilações de um dia. Do rosto, de uma vida inteira.

A vida não era uma linha reta para ela, e sim curvas onde era impossível antecipar a próxima paisagem. A Neurótica nunca poupou a idealização e a fantasia quando se tratava dessas curvas. Mas não podia percorrer concretamente isso, inibida de qualquer ação.

Não era preguiça, tampouco falta de força, era medo. Considerou que devesse pedir aos céus por coragem. Nessa mesma fração de pensamento se perguntou qual diferença entre esses pedidos que vinha fazendo.

Reconhecer o próprio desejo requer muita coragem. E encontrar coragem dentro de si gera muita força. Mas tem momentos que a força te mantém lá, mesmo onde faz sofrer, onde a paisagem já é prevista. Ela tomava força como o resultado de uma perseverança de que precisa ficar como está  para dignificar a vida. Uma perseverança em manter reta a vida, a inércia diante das escolhas feitas, um apagamento do que o medo apontava durante a noite. Não à toa acordava cansada de uma vida inteira.

Seu medo aparecia justamente quando mudanças pairavam no ar. Recorremos a coragem quando podemos mudar de lugar, atravessar a curva e encarar a nova paisagem, nunca uma escolha fácil, essa de desejar.

“Menos espelhos e mais janelas” refletiu a Neurótica, que já não olhava para os lados para seguir em frente.

Eduarda Renaux

 

 

O MURO DAS PALAVRAS ABAFADAS

“Uma imagem vale mais que mil palavras” nos diz Confúcio, filósofo chinês. Esse dito que já virou mantra popular revela uma verdade mas esconde uma outra versão: uma imagem nos poupa mais de mil palavras. Palavras tão caras, tão difíceis de se encontrar para falar do que se viu, sobre uma experiência que se viveu.

Agora, vou tentar recorrer as minhas mil palavras de direito para falar das imagens que me marcaram feito ferro escaldante, feito navalha nos braços, feito um soco no estômago. Eu até desejaria alguma poesia, porque essa sou eu, acredito profundamente na potência transformadora das palavras na vida de cada um. E a forma como cada um escolhe usar suas mil palavras podem sim resignificar uma imagem em outra coisa que seja possibilitadora, inventiva, transformadora. Mas creio que esse texto não terá uma função de desdobramento de uma realidade mas uma denúncia, um desabafo.

As pessoas me perguntam como foi uma viagem que fiz recentemente. Percebia que inicialmente só conseguia dizer que tinha sido intenso. Mas eu queria falar mais, eu queria que outro quisesse verdadeiramente saber. Eu queria que me perguntassem quando pudéssemos falar e não de passagem na rua. E o que eu sinto é solidão, porque quando a imagem prevalece sobre a palavra, a vivência se cola na imagem, parecendo não precisar se fazer falar para ser decifrada.

IMG_3168

Aonde estive? Israel, Palestina e Jordânia. Mas me ocuparei em falar brevemente sobre a Palestina, que se tornou o estado de Israel em 1948 e desde então vem sofrendo todo o tipo de violência que um povo pode sofrer: moral, cultural, física, geográfica, emocional, psíquica, econômica, social, entre outros. E tudo isso por de trás do muro, na invisibilidade.

Eu nunca vi um país tão militarizado como Israel, isso me chamou profunda atenção. No final dos primeiros quatro dias, infelizmente, já estava quase habituada a ver garotos e garotas (muito jovens) com fuzis e metralhadora andando tranquilamente pelas ruas.

IMG_3156

Passados os quatro dias, cruzamos o muro para ir a Belém que fica em território Palestino. Eu sofri de claustrofobia mesmo estando numa cidade. Toda a Palestina é murada com cerca elétrica e comandadas por militares Israelenses. Não existe nenhuma entrada/saída que seja coordenada pela Palestina. Eu não tenho outro nome para dar a isso que não seja prisão.

Ser expulso e preso na própria casa, ter sua voz abafada e sua causa escondida, é aniquilante subjetivamente. Essas pessoas são sobreviventes e estão no limite do que um ser humano pode atravessar de dor e sofrimento. Todos os muros são intensamente grafitados com essas vozes que só podem sair por imagens. Quem sabe devo concordar com Confúcio, quando não se pode falar, uma imagem pode valer mais que mil palavras. Pois não se trata de palavras poupadas, mas abafadas e silenciadas, sendo assim, valem ouro.

Depois de muitas horas na cidade e arredores, posso afirmar que nada mais fazia sentido para mim. Me lembro de ir na Igreja da natividade em algum momento, mas não lembro de nada daquela igreja. Mas lembro com uma vivacidade surreal da praça que ficava em frente a igreja, onde havia um manifesto dos crimes de guerra cometidos por Israel.

IMG_3148.JPG

Eu queria um spray, eu queria ir no muro, eu queria ficar sem silêncio de luto, eu queria gritar bem alto…Eu queria ir embora e parar de ver tudo aquilo, eu queria ficar e lutar junto e dar um ombro amigo…Eu queria minha ignorância de volta, eu queria nunca ter sido ignorante. Eu queria agradecer por ter vivido, visto e sabido, eu queria me bater por ter escolhido tudo aquilo…

Ou seja, eu não sabia o que queria. E não sei se agora eu sei.

Mas não posso ficar na imagem que carrego todo dia comigo, posso trazer um pouco dessa história para perto, trazer um pouco dessa voz para fora do muro. O PalavrAcolhida vai acolher esse delicado assunto, espero que vocês acolham e que ajudem a dar voz. Vale mencionar que das paisagens mais lindas, as da Palestina foram as mais belas, a mais tocantes e por incrível que possa parecer, mais acolhedoras. Transformar a tensão do conflito em acolhimento, se não é um dom é uma mágica, que atribuo a eles toda minha admiração.

Para finalizar esse primeiro escrito, gostaria de contar como foi nossa saída. Saímos de ônibus e na “fronteira” todos que eram “de fora” ficaram sentados e os Palestinos tiveram que sair do ônibus e prestar contas (ou mostrar suas autorizações) para os militares Israelenses. Pela primeira vez eu experimentei o verdadeiro significado de vergonha. E entendi porque é comumente conhecido o muro que divide Israel e Palestina como o Muro da Vergonha.

Eduarda Renaux

A Neurótica – Quartzo Rosa

 

Tanto a cura como a doença bebem da mesma fonte, o amor. Se o coração fosse bússola, os pontos cardeais seriam as direções que cada um escolhe para amar e ser amado. Num encontro, me encontro no outro. Os amores tão intensamente vividos, que nos marcam a pele feito rugas e cicatrizes.  No olhar, enxergamos a expressão de gente sofrida e também o brilho de quem carrega as paixões ainda vivas, fortes no peito. Os envergonhados sabem o quanto do outro se vê nos olhos, chegam até a evita-los. Quem já não desviou de um olhar, o espelho da alma?

Das nossas águas salgadas brotam as lágrimas, de quem lutou cara a cara com o mar aberto, sentiu o desamparo da falta de terra firme para mirar, diga-se de passagem, a miragem de um outro, de alguém para confiar a vida. Quando a miragem falta, uma solidão tão crua, que esvazia nossos oceanos e chega a nos deixar secos por dentro. O bicho-gente passa a vida transformando desconforto em sofrimento. A lágrima da dor física vai se humanizando, com o tempo, se torna sofrência afetiva, já tão lapidada que chega a ser bela.

“Se cura um amor com outro” diziam para a Neurótica. Mas há de existir um primeiro amor. Engana-se quem pensa que é só de amor romântico, esses de casal, que um travesseiro acolhe as lágrimas. Simples e complicado assim, trata-se de amor, de ser amado, de ser aceito, de sentir-se seguro, de morar no calor do coração do outro.

A Neurótica achava que não sabia amar porque não sentia que seu primeiro encontro com o outro foi desses de espelho da alma. Carregou a cicatriz de se pensar não ser amável o suficiente, de não ter um olhar para olhar. “Meu abrigo não foi um colo, não nasci da água, mas do deserto”. A filha da mãe queria chorar oceanos. Mas sempre se via construindo castelos de areia nos relacionamentos. Precisava de pouco para ruir.

A Neurótica era feita das áridas areias, dos extremos do calor e do frio, de tempos hostis. Feito deserto, a cada sopro toda sua geográfica mudava. Sofria de uma instabilidade horrenda. E por isso temia tanto os ventos da mudança, pois a cada transformação já não podia dizer de si.

Mas os ventos inevitavelmente haviam mudado, sentiu terror, mas também uma curiosidade. Cabe sinalizar que a única barreira possível para combater a hostilidade é a curiosidade. A curiosidade é resistência….é o espelho de um olhar.

Eduarda Renaux

 

 

 

A Neurótica – Turmalina

Quem choraria minha morte? Uma pergunta que a Neurótica sempre se fazia como uma tentativa de medir sua importância nesse mundo, tão cheio e tão ruidoso. Justamente ali onde o outro já não importaria mais. Onde não iria abrir os olhos e vê-los lá, com seus problemas e onipotências. Às vezes não tinha certeza se o Shakespeariano romance “Romeu e Julieta” se tornara uma épica história de amor ou a realização de um desejo macabro: poderia o outro sobreviver sem mim? Pode-se morrer de “brincadeirinha” para assistir essa gloriosa importância?

Descansa em paz o morto porque quem sofre é quem fica. “O inferno são os outros”, já dizia Sartre, moço sábio esse. Mas engana-se quem pensa que é de morte morrida que se inventa um luto.  Existia vida antes da sua chegada ao mundo, essa foi a constatação feita pela Neurótica com cinco anos de idade ao perguntar de onde vinham os bebês. Seus pais não nasceram com ela, tiveram inclusive uma interessante história juntos. O luto do desde sempre e para sempre, do infinito.

Como ousaram ter uma vida feliz sem mim? Sofria a pobre criança desamparada das próprias ilusões. Até a profe da escolinha, já teve outros alunos e terá outros e mais outros depois da Neurótica mirim, golpe sujo, golpe baixo, traição!  O mundo se fez mundo desde sempre, apenas seu mundo começou ali onde nasceu. Que pesado não carregar o mundo nas costas. Que grande dor essa de não ser a única causa e conseqüência da humanidade. Preferia não saber de onde vinham os bebês. Quem sabe por isso tinha sérios problemas para se relacionar. Ali onde essa pergunta lhe retornava mesmo sem saber.

– Tú, tú, tú, tú!!! Não te ocorre que a vida do outro não gira mais em torno do teu umbigo desde que saísse da barriga da tua mãe? Perguntou a voz do outro lado da linha.

As vozes sempre tão certeiras em trazer incômodos. Precisava falar justamente sobre a mãe? Será que as pessoas não entendem que não é por acaso que “ Seu filho da mãe” virou um social lembrete desconfortável? Pobres mães, deveriam inventar algo que as ajudasse nesse fardo. Algo como: Sua mãe de filho! Pior dos xingamentos, riu de si mesma, aliviada com a divisão prática do problema. Mas por alguma razão, ser mãe de filho não ofende. Experimenta ser um filho da mãe?

– Vá ler história antes de criar histórias. A voz importuna pronunciou. O antigo Código Cívil não legitimava filhos fora do casamento, por adoção ou mães solteiras. Ser filho da mãe era ser um bastardo sem direitos. Ponto. E já lhe disse para procurar um psicólogo.

Mãe vitima de uma sociedade machista e patriarcal ou algoz da minha vida? Prefiro minha história inventada. Advogado racional, entende de leis, códigos e não entende de pessoas! Entre seu blábláblá fico com meu mimimi.

Mas de alguma forma se sentia amparada pelo blábláblá regado de pompa, regras e códigos cíveis. Ele choraria minha partida? Me dá trela porque não quer desligar? Desligar é tão diferente de desconectar. Sensação que há tempo não tinha. Desligar é separar. Licença para entrar é tão árduo como a licença para sair. Esse lamento de sair sem saber se é possível voltar. Constatar que a vida dele segue mesmo sem mim…

Eduarda Renaux

A Neurótica – Rodocrosita

Meditação, o caminho para a cura. Foi o que ela leu. Foi também o que ela quis ler. Na rede social, quando paramos para ler um texto, efetivamente fazemos uma escolha rara. Entre as seiscentas e trinta janelas de vizinhos, melhor dizendo, de contatos que ela tinha, eram as fotos, os desabafos, as opiniões, os “textão” que lhe interessavam. A grama do vizinho sempre tão mais verde.

Sentia-se tão infeliz e menosprezada com uma vizinhança tão realizada e segura de si. Já tinha lido e ouvido o velho ditado de que quem vê cara não vê coração, mas nem que fosse por alguns minutos dedicados a uma glória, aquela selfie sensual, naquele momento, naquele segundo, algo tão pleno. Alguém havia sido feliz por um segundo. O pensamento vagava por horas sobre o segundo da felicidade do outro. Seiscentos e trinta vizinhos no celular, na palma da mão. Haja grama, vastidão, devastação!

Tentava decifrar em cada janela, com lentes de aumento para enxergar melhor. Aumentar as coisas sempre foi uma maneira impertinente do ser humano enxergar o que lhe convêm. Pensa que vendo maior, começa a enxergar. Pobre chapeuzinho vermelho, conheceu bem essa miopia e foi devorada. A ilusão é cega ou causa deformidades. Em tempos onde ser invejável é condição, ser feliz é render-se a uma humildade mundana. Mas não importava para onde olhasse, eles estavam lá, tão onipotentes, grandes, disformes.

Deveria divagar menos e meditar mais. Foi o que ela pensou. Foi o que ela leu. A tal cura, curar-se do outro, tão grande, tão irresistível. Acendeu velas brancas que guardava na dispensa em dias de queda de energia, colocou Yanni para tocar, sentou no chão com as pernas cruzadas feito índio, fechou os olhos e se concentrou.

Não posso pensar em nada. Seria a epidemia de depressão na verdade uma epidemia de gente que enxerga demais? Pera, volta. Não pensa em nada. Respira. Ontem assisti no jornal que utilizaram armas biológicas na Síria, que cena de horror! Crianças morrendo de dentro pra fora. Deveria ser proibido divulgar isso. Volta, volta! As vezes também me sinto morrendo de dentro para fora. Volta, volta, volta, volta! Pensa em algo calmante, Coelhinhos brancos, ursos pandas comendo bambu, gramados verdes, algodão doce, torta de vovó. Pensando nisso, será que eu desliguei o forno? Volta, respira. Chega!

Irritou-se com a própria irritação. A meditação foi um fracasso. Sentiu-se desamparada. O silêncio era barulhento demais. Esse ruído que vem de dentro. Não importava o quanto se afastava, eles ainda estavam lá. Onipresentes. Precisava de ajuda, precisava de um outro que lhe ajudasse. Estava incrédula com a própria constatação. A meditação até que foi bem sucedida. Estava a caminho daquilo que não se cura, mas que se pode tratar. As lentes disformes, a medida das coisas.

Pegou o telefone, ali onde o outro a princípio não estava porque até então não existia. Ali onde não poderia espiar, onde teria que pedir licença para entrar….licença para entrar.

Eduarda Renaux

A Esquisita e Destemida e o Homem-Fera

Ou seria sobre A Bela e a Fera?

Veio em tempo e em boa hora. Tem gafes que denunciam tanto o retrocesso que chegam a servir de trampolim para o avanço. O “bela, recatada e do lar” foi tão trágico que alguns que tomavam a luta pela ocupação da mulher no espaço público com nenhum direito a menos como um mimimi tiveram que pegar nas próprias mãos a dimensão do problema e começar se rever. Não tardou para o atual presidente atribuir as mulheres o dom da matemática do lar. De gafe em gafe, voltem para suas casas!

Desculpa, Cinderela: bela, recatada e do lar. Já não podemos deixar de ver o legado de Bela e também de Mulan (esse terá de ser um texto a parte). Nas palavras da própria personagem, “quero mais do que uma vida provinciana”, a letrada da vida não gostava do que lia nos homens. Gostava de um bom romance e até de um príncipe encantado, mas que fosse do seu desejo e que tivesse cara e jeito de gente. Sua condição subjetiva era que apenas poderia amar um homem se este pudesse deixar de ser uma fera.

Sim, desde muito, temos de ver, tratar e respeitar os homens como se fossem feras, que não controlam seus impulsos. Gaston o homem belo e narcisista do vilarejo “apaixonado” por Bela, a vê como uma presa, uma caça. Ele é tão fera quanto a própria Fera por maldição, que fora amaldiçoado por não renunciar seu infantil em prol do crescimento. Era um príncipe egoísta, grosseiro e mimado.

O infantil é a fera indomável que cada um carrega no peito. No filme, o infantil e o homem possuem uma harmonia peculiar e interessante. Os adultos tornaram-se utensílios domésticos na maldição. Nada mais justo quando os adultos se colocam a serviço dos caprichos do príncipe. As feras devem ser cuidadas, mimadas e ter compaixão do que não conseguem controlar, afinal não conseguem conter-se.

Eles traem pois não se controlam, eles estupram pois não se controlam, eles agridem pois não se controlam, eles matam pois não se controlam. A lista segue. E não que mulheres não o façam, mas o tom fica um bocado diferente. E toda a mulher já viveu na pele essa diferença em algum momento de sua vida.

O filme é uma excelente metáfora de que uma mulher ganha espaço nas letras que destemidamente constrói para narrar a sua vida na medida em que os homens vão renunciando as feras em si mesmos. A recíproca é verdadeira. A emancipação de uma mulher só é possível quando ela renúncia o lugar protegido de ser propriedade do homem. De um homem-fera, o único lugar possível para uma mulher é de prisioneira. No filme, mesmo já encantada pela Fera, o casal só é possível quando Bela é libertada. E ela escolhe voltar. Pois não se trata de uma emancipação que supõe um delírio de que não se pode desejar o amor de casal, o lar, a maternidade, mas que as mulheres possam escolher. O destino imposto é uma prisão.

rosa

Agora o obvio virou nebuloso e as certezas viraram dúvidas. Só sendo muito esquisito e destemido para topar essa. A Bela e a Fera desafiam homens e mulheres a quebrar a maldição que nos assombra a tanto tempo. Essa pauta ainda tem muito o que avançar e a cada direito a menos ou retrocesso dos direitos conquistados pelas mulheres em prol do recato, uma pétala de nossa rosa cai. Maldição para ambos os lados!

Eduarda Renaux

A Neurótica – O início

Seu nervosismo já tinha chegado ao limite. Pelo menos era isso que os entes próximos pensavam depois que quebrou alguns itens da casa, bateu o carro por distração e recebeu advertência por má conduta no trabalho. Pelo bem da família e da ordem social, resolveu que tinha que tomar uma atitude.

Na verdade essa atitude não tinha absolutamente nada a ver com o casamento, quem dirá com a família. O Trabalho? Que fossem todos para o inferno. Pensava apenas num mundo sem pessoas. Mas quando abria os olhos, lá estavam eles, os seres humanos, feito carrapatos em cachorro vira-lata. O problema da humanidade é o ser humano e esse segredo nem para o padre poderia revelar. Lhe faltariam bolinhas de terço para rezar os infinitos pai-nosso e ave-maria. Até Deus lhe importunou a vida. E muito.

– Pai, reza comigo essa noite?

– Por que isso agora, minha filha?

– Tenho medo de Deus.

Um arrepio na espinha quando essa conversa lhe passou na cabeça. Devia ter sete anos quando parou de rezar por medo. A onipotência e onipresença divina lhe alteravam o sono, o rendimento escolar, as relações afetivas. Nem sempre queria estar acompanhada, apenas queria o alívio da solidão e gozar da liberdade mundana, sem ser vigiada por anjos e demônios.

O que lhe perturbava tanto? De modo geral, qualquer coisa que envolvesse outra pessoa.  Antes de dormir fechava bem os olhos pedindo o desaparecimento de toda a humanidade. Mas quando abria os olhos, eles estavam ainda todos ali, os outros e seus malditos problemas. Não queria que sofressem, apenas que não lhe importunassem. A presença dos outros aconteciam mesmo quando não estavam ali. Estava sempre acompanhada. Sempre… Sempre! Quando brigava (constantemente), era uma tentativa fracassada para distanciar-se do outro. Através da guerra buscava paz.

Chegou a pensar em buscar um advogado para se defender do ser humano. Propôs:

– Poderias me representar socialmente.

– E como isso funcionaria? Respondeu o advogado.

– Todos que quiserem falar comigo só poderão faze-lo na sua presença ou lhes digo que se dirijam direto a ti. Também quando ficar a ruminar sobre o meu dia e sobre os outros, posso te ligar para me assessorar os pensamentos.

A ela, a ideia pareceu genial. Mas para o coitado, foi um tanto quanto assustador. Não teve escolha e lhe sugeriu um psicólogo. Sentiu-se ofendidíssma com a sugestão de um psiquiatra ou um psicólogo, ou os dois de preferência, como havia aconselhado ele. Se fosse para buscar um terapeuta seria para xingá-lo e torná-lo alvo de suas angustias, culpas, arrependimentos, paranoias, obsessões. Mas isso já fazia de graça com o marido e com tantos outros. Advogado burro! Pensou.

A Neurótica sofria muito, mas quanta complicação trazia para quem convivia. Sabia-se da aproximação da Neurótica de muito longe. Bem na verdade já não tinha muitas pessoas próximas. Quanto mais se afastavam, mais presentes ficavam em sua vida. Não lhe saiam da cabeça. As vezes estar só é estar acompanhado de gente demais. Afinal, o que querem vocês de mim? Agonizava ela.

Afundada no feed do facebook, invejando a ilusão coletiva, um texto lhe saltou os olhos. Foi quando teve uma ideia. Teve uma ideia, mas os outros ainda estavam ali. Apesar dos outros ainda estarem ali, sentiu algo muito próximo de esperança na humanidade, na sua, provavelmente.

Eduarda Renaux

Velório em Festa

A próxima da fila era eu, certamente. A última de minhas amigas de nossa geração havia acabado de falecer de infarto fulminante. Coitada! Me corrijo prontamente em pensamento, coitada nada! Essa sim sabia aproveitar a vida. Tinha 88 anos e posso contar nos dedos seus dias de mal humor. Inclusive tenho uma forte impressão que ainda namorava nos finais de semana o que contribuía muito para sua vitalidade.

Entre um cigarro e outro, tinha um olhar charmoso que até os mais jovens sentiam vontade de conhece-la melhor. Não era das amigas mais ouvintes que eu tinha, mas posso afirmar sem dúvida que os momentos mais intensos foi ela que me permitiu viver.

Ela amava velórios! Não das pessoas desconhecidas, claro! Mas tinha uma estranha filosofia de que a perda a motivava a compreensão do que o falecido havia lhe deixado como legado. Dizia que em vida aproveitamos as pessoas, na morte aproveitamos as lembranças.

Ela pensava que caso não tivesse motivos para agradecer a boa relação com o morto, ia ao velório não para lamentar a perda, mas lamentar o desencontro em vida. Os que não a conheciam podiam jurar que os mais distantes foram os que mais lhe despertaram sofrimento. Como poderia mostrar tamanha tristeza para os distantes e tamanho brilho para os próximos?

Penso que essa era uma possibilidade que apenas ela conseguia usufruir e eu a invejava por isso. Ela ficava matracando durante os enterros, lembrando com alegria cada particularidade que teve com o defunto. Eu achava até graça, pois de alguma forma, ela dava vida ao corpo pálido. Como se com as palavras dela o sangue voltasse a produzir rubor naquela face já sem vida.

Eis outra característica dela que me intrigava, apenas a ela permitíamos que nos enchesse de vergonha em público. Era um vexame atrás do outro. Mas eram os momentos que mais nos sentíamos vivas. Os enterros de cada uma de nós, graças a ela, também eram vergonhosos. Risos, cantorias, falatório. Definitivamente não pegava bem.

Comigo já era diferente, eu chorava, sentia dor, nó na gargante, medo, angústia. Me perguntava como era morrer, o que se sentia, como seria não existir mais. Nesses momentos sofria de uma dor egoísta. Não sabia se lamentava pelo morto ou pela minha própria finitude. Lembrava com frequência de algo que tinha lido da Clarice Lispector: “Quando eu morrer vou sentir tanta falta de mim mesmo”.

Sim, era isso! Eu iria sentir falta de mim, porque sem mim, tudo ao meu redor não faria mais sentido. O mundo não sobreviveria sem a minha presença. Não o meu mundo. Era demais para minha cabeça. O pior da finitude é que você não perde apenas a vida, perde tudo que conhece dela.

Minha amiga prezava muito as lembranças e recentemente havia sido diagnosticada com Mal de Alzheimer grau leve. Tenho certeza que optou fazer o coração parar de funcionar a perder gradativamente tudo que os mortos lhe deixaram. Isso seria como perder uma herança de uma vida inteira numa mesa de cassino. Seria acabar na sarjeta psíquica.

O velório dela foi o único que festejei. Pois ela me permitia fazer coisas que eu sozinha não conseguia. Agora ela não mais existia para celebrar o que eu mesma não conseguia enquanto agonizava em lágrimas. Esse foi seu legado, já não posso mais me envergonhar de sua filosofia, devo encorporá-la em mim.

Me despedi grata e com o sol torrando meu rosto. Não poderia ser diferente, ela não permitiria nem mesmo o céu chorar sua partida. Saí do enterro, fui para a praia e com alegria passei o dia relembrando nossos momentos memoráveis. Sai da fila dos mortos e entrei no laço da vida. Realmente tem relações que só conseguimos dar significado com a partida! Disso ela já sabia…

Obrigada amiga!

Eduarda Renaux

 

 

Um lugar chamado Vó

Algumas avós são mães com açúcar e muito mais….

O tempo que vira sabedoria, cresce feito fermento com o que ensina, deixa muita gente mais doce, macia e porosa. Algumas avós até parecem bolos que falam…

fuxicoQuem não se entregou aos mistérios dos objetos da casa de uma avó? O cinzeiro que vira barco cuja a toalha de renda sob a mesa vira a imensidão do mar. Algumas Avós são lugares da bagunça e da fantasia…

A caixa de costura, a gaveta com fotos preto e branco e até coloridas, os armários e seus segredos. Algumas avós são baús de histórias e mistérios…

Avós são também incensos da alma. basta um aroma para instantaneamente sermos capturados por um tempo vivido. Cada fragrância, um sentimento, uma experiência.

Elas Não criam uma criança, mas tecem uma infância, são artesãs da segunda pele dos netos….quem sabe não se confundem com açúcar mas emprestam tantas doçuras que quem não é bobo, se lambuza!

Eduarda Renaux

Amanhã pode ser outro dia

Jogada no sofá no auge de seus três anos de idade, sem muito entender sobre o desenho que assistia, apenas ria muito com os tombos dos personagens na neve, dos ataques de fúria do Pato Donald que chegava a deixa-lo com as penas vermelhas, dos abraços apertados da Pata “sem nome” e a alegria dos patinhos de uma festa sem fim.

Nesses poucos porém intensos anos de vida o que valia era cada constatação de familiaridade com seu cotidiano, como a raiva quando contrariada, as péssimas tentativas de afofamento dos adultos quando o que se quer é liberdade de ir e vir, e principalmente, o desejo de uma farra sem limite todo dia, o dia todo.

Quando completou seu terceiro aniversário, divertiu-se tanto que pediu aos pais para dormir com o vestido da festa pois não queria que o dia acabasse. Embalada nesse tema, os olhos vidraram no desenho sobre esses três patinhos que por amarem tanto o Natal desejaram que todos os dias fossem dia 25 de dezembro. É comum na infância desejos virarem ordens. De tão desejado, aconteceu: Natal para sempre.

Não tardou para que os patinhos ficassem exaustos e entediados com a festa diária. O que antes era único e por isso especial, virou mesmice. Que sina! No último dia de repetição natalina, os patinhos não infernizaram mais o Pato Donald, aceitaram os afagos apertados da pata, serviram a mesa, convidaram Tio Patinhas para tocar piano. O calendário voltou ao normal, pois essa era a maldição: a página só pode ser virada com o verdadeiro aprendizado.

Aprender é custoso e leva um tempo impreciso. Por vezes ficamos estagnados num mesmo lugar até que dessa prisão se desate o que nos manteve numa infinita paixão pelo mesmo momento.

A repetição é inimiga da novidade, abrigo da identidade, enigma do sofrimento, trilha para a sabedoria.

Como a onda que toma força antes de avançar na areia, fôlego rude comparado a delicadeza do toque com que a água vai avançando ao chão, viemos e voltamos do desconhecido das águas até a segurança da terra firme. Desse vai e vem, inventamos o que fazer com as ondas. Definitivamente se a felicidade virasse rotina, ela se transformaria em alguma outra coisa que não alegria. Os tons vibrantes só se destacam diante dos tons neutros.

No fundo todos podemos ser um pouco “surfistas” com a vida, com a paciência necessária para esperar a melhor onda. Por vezes a pegamos, outrora levamos caldos. A dificuldade dos movimentos fica por conta da sensibilidade adquirida com as vivências e um tanto de criatividade de cada um.

Só é possível celebrar o dia de alegria suportando o dia de luta. Só reconhecemos a valiosa e rara vida confrontando a morte. Não caia como um pato de que o bom mesmo é férias e vida sem fim!

Enxergar e sentir o tempo com menos medo do amanhã…

Amanhã pode ser outro e novo dia!

Eduarda Renaux

Amigo Secreto

Final de ano chegou, nada mais justo que celebrar o tempo que passou. Para facilitar as homenagens e as declarações afetivas, o amigo secreto tornou-se com o passar do tempo uma brincadeira bem vinda.

E é nessa brincadeira que um garoto sentando em seu banquinho quebrado, instalado propositalmente em uma varanda enjambrada de sua casa, ficava ecoando sem parar.Era um garoto tímido, pouco criativo embora muito imaginativo. A confraternização geralmente era um pesadelo. Não sabia falar palavras bonitas a alguém que convivera. Pensava que o amigo secreto, por vezes, era um “amigo por vir”. Um convite à amizade.

Além de suas poucas palavras não lhe ajudarem no momento da apresentação, existia também um sentimento de impotência terrível que lhe cercava as idéias. Sentia-se mais só que o normal. Preferia não se queixar da solidão e assumir seu jeito fechado como uma marca sua.

Nesse mesmo banquinho meio manco, via a si próprio imaginando as pessoas que já cruzaram sua vida. Ele era jovem mas já sentia que tinha vivido tudo que se tinha para viver, sentia-se como um jovem velho garoto.

Queria conseguir falar para cada um que lhe marcou a vida, revelar o sentimento que tinha. Imaginou a colega de trabalho que lhe escutou um desabafo num dia desesperado. Como desejava falar a ela que suas palavras lhe deixaram mais tranquilo naquele momento.

Queria falar para o vizinho que safou sua timidez em uma das vezes que foi em um barzinho do bairro, o quanto era grato a sensibilidade de lhe ajudar nos lugares públicos.

Ansiava por compartilhar para a esposa de um artista que a alegria dela quando o recebia nos sarais da cidade apaziguava sua sensação de sentir-se deslocado.

E assim seguia pensando em várias pessoas que não podia chamar de amigo, mas que assim o eram: amigos secretos.

A amizade não é uma relação que se anuncia num megafone, mas uma lembrança de amparo que apenas alguém sensível é capaz de conceder. Gostava de conviver bem com as pessoas, mas não lhe era possível fortalecer os laços. Sua vida era um eterno amigo secreto que não tinha hora para se revelar. Na sua fantasia até sabia o que falaria, mas temia o que escutaria.

Ninguém entendia muito bem que sua timidez não era vergonha de falar, mas sua impossibilidade de ouvir. Não era egoísmo, apenas uma fragilidade imensa em ter notícias de como sua imagem vinha do outro.

Lembrara na época da escola o pavor que os colegas sentiam quando podiam ver através do formato da embalagem, uma caixa de chocolate garoto ou nestlé. Ninguém desejava chocolates, pois teriam que repartir com os outros. Pouco serventia.

Em meio ao devaneio, lhe ocorreu aceitar que uma caixa de chocolate não é um presente de pouca valia. Ao contrário, é um presente generoso. Um presente cujo o endereço não é apenas um: a gula de um único sujeito. Mas um convite a todos aqueles que desejam usufruir da doçura daquele momento. É a única caixa que ao abrir-se se pode oferecer algo ao outro que não seja a admiração. Cada um leva um pouco desse presente consigo.

De pronto, surge uma voz que vem de longe, lá da calçada: “O que me dizes, garoto?” Mesmo sem ter entendido qual era o convite, por estar imerso no seu devaneio um bocado produtivo, pegou o boné e foi ao encontro do amigo, provavelmente secreto, secretamente importante.

Eduarda Renaux

De Ponto em Ponto

Pelas ruelas que andou, pelas escadarias dos morros que subiu, pelos bancos que sentou, nas ribanceiras que desceu com o pés firmes ao chão, com os filhos pequenos em cada mão, não lhe faltou recurso para carregar dentro de si o que cada experiência lhe proporcionou. A vida era difícil, mas repetia a si mesmo todos os dias que não tinha motivos para reclamar. Mas duvidava se era falta de motivos ou falta de escolha. Vindo dessa mulher, era provável que tivesse motivos, mas essa era sua escolha.

Aprendeu a costurar para vestir os filhos. A aula acontecia no ponto de ônibus da cidade através de uma mulher de coração sensível que lhe ensinava as dicas de costura enquanto ambas esperavam os filhos saírem da escola. Voltava para casa, praticava, estranhava o resultado, mas envergonhava-se de perguntar suas dúvidas. Não eram filhos mal vestidos, apenas vestidos pela mãos ainda pouco habilidosas e envergonhadas. Quem sabe fizesse questão de vestir os filhos com sua costura para poder estar com eles onde fossem. Uma mãe borda nos filhos sua marca para que possam seguir seus caminhos sem que precise estar fisicamente presente. Esses bordados seguem gerações nas redes familiares.

Vinham em sua casa pessoas em fiapos, rasgos de gente. Pessoas cortadas pelas ofensas da vida. A cada palavra dela, um remendo. De costureira de roupa para os filhos, aprendeu a costurar a dor das pessoas na esperança de tempos melhores. Os remendados saiam de lá satisfeitos, como se saíssem com a melhor das malhas costuradas na própria pele. A malha do aconchego, do abrigo, do calor de um bem dizer. Seguindo a linha do aprendizado pela palavra, lembrança que carregava da mulher do coração sensível do ponto de ônibus, ensinou muita gente a costurar suas angustias através dos dizeres e da pronta escuta.

Todo o desamparo é um retalho que não encontra uma linha que o bordeie, não existe o ponto de remendo. Todo o ser humano é um remendado, as grifes escondem as costuras existenciais. E é por isso que dessa vestimenta só sabe dela quem a veste.

Um intelectual lá da França, em um de seus seminários difíceis, da qual a costureira nunca teve acesso a leitura, já dizia o que ela vivia cotidianamente: “O homem é artesão de seus próprios suportes”. Ela era uma mulher artesã de pessoas. As relações eram seus suportes valiosos. Mas não fazia ideia de que era ela o suporte de muita gente.

Resolveu levar suas obras para a vida pública nos quiosques de artesanato da praça da cidade. Falava que havia nascido de novo já na velhice. Estava certa no seu dito, a existência esta lá fora. Mas lá fora é um lugar muito distante, os desprovidos das malhas psíquicas não conseguem alcançar facilmente.

A mulher aprendeu a costurar teoricamente. O aprimoramento veio com a prática. Nada diferente do que já acontece no ensino formal. A diferença era a solidão. Muitas vezes sentiu-se só. “A solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem a si mesmo”, disse Hermann Hesse. Ela estava sempre consigo e por isso sabia tanto de si mesma. Um saber que a deixou sempre bordada por tanta gente, de ponto em ponto, nas malhas da vida.

Eduarda Renaux

Pensante Ambulante

“Quanto custa uma alma tranquila e o sono de um inocente? Falam tanto do poder das cifras e esquecem que poderoso mesmo é o pensamento, que mesmo tão abstrato consegue exercer um poder tão concreto!”, proferiu em voz alta numa praça movimentada da cidade um pensante ambulante e meio moribundo. Cada um que passava e escutava as proféticas palavras, concluía quase da mesma forma, apenas um louco.

“Todos estão fadados a morrer de tanto pensar e penar com a miséria do pensamento. Hoje optamos por pensar em quantidade ao invés de qualidade. Pensamento é como alimento, pode encher-nos a cabeça com porcarias ou nutrir-se com poucas e boas porções de reflexão”. Nesse momento, alguns se interessaram pelo o que o pensante ambulante tinha para dizer, o que encorajou o senhor a continuar seu discurso em voz cada vez mais alta e convicta.

“De território não vive só as zonas de guerra. Cada gente nessa vida há de conquistar seu espaço para viver. Não sem luta que conquistamos o caos da singularidade. Quem aqui conseguiu conquistar seu espaço que não fosse a duras penas, a duras culpas, a duros confrontos? Mas o pensamento é um imposto territorial que a mente cobra, mas esse nenhum ser humano consegue sonegar!” Nesse momento já se formava uma espécie de grupo ao redor, aplausos soltos, videos na internet, alguns admirando e outros protestando a voz incômoda.

Pensamento inflado é como a voz da praça, conteúdo de procedência pouco confiável, ruidosa, insana e incômoda. O ambulante pensante que já não suportava mais o que vinha pensando de toda essa gente que não pensa bem das idéias, estava decidido a tirar as vozes da cabeça.

“Mas os senhores estão mais ocupados a fortalecer os músculos das nádegas e esquecem do músculo cerebral. Acreditam vocês que apenas o corpo tem sede de estética?”.  Ali já estava a multidão, clamando pelo pensante ambulante que fazia as pessoas pararem para ouvir.

“Pensamento não tem sonoridade, mas são as vozes que a mente abriga. Pensamento não tem materialidade, mas ocupa espaço na gente. Pensamento não tem consistência, mas é capaz de paralisar um corpo inteiro. E todos temos a audácia de subestimar os pensamentos?”. A multidão aplaudia, delirava de emoção.

E nesse momento o Senhor calou-se como se mais nada tivesse a dizer. Como se todo o pensamento lhe tivesse vazado pela boca. Sentiu o peito leve e a mente tranquila. A multidão começara a se dissipar e retomar o rumo do dia, motivados pelo grande acontecimento.

Após a 24h da viralização do discurso na rede e do episódio na praça, poucas pessoas lembravam do ocorrido, e permaneciam quase que exatamente como eram. Afinal como já estava advertido o Sr. Pensante, se engana quem acha que vai gestar idéias e mudanças em solo estéril, ali onde só se prolifera os pensamentos automáticos e burocráticos. Por isso escolhia ser ambulante, pois seus pensamentos tinham sede estética e disposição ao movimento.

Eduarda Renaux

 

 

 

Eu vou mas eu volto!

Era filho da curiosidade e da vida. Sem curiosidade provavelmente não buscaria engatinhar explorando o mundo a sua volta, mesmo com um certo desconforto em seus joelhos e palmas da mão. Sem a curiosidade também não se assustaria com os enigmas das letras, com a grandiosidade das frases e com a chatice da gramática. Mas a curiosidade sem dúvida o levou ao desamparo e teve medo de tudo que sua curiosidade o levaria a descobrir. A história aconteceu da seguinte forma:

nerdgirl4Sua brincadeira preferida era ser cientista e seu laboratório secreto consistia em dois guarda-chuvas abertos no quarto com uma manta por cima deles dando a perfeita impressão de uma cabana rústica. Por ser um projeto ultra-mega-hiper secreto, a cabana teria que ser assim: pequena, escondida e de poucos recursos. A imaginação era a única verba que dispunha e o ganho da investigação seria o reconhecimento de toda a humanidade – sua família e um par de amigos que tinha na escola.

Embora seu mundo fosse bem menor do que o mundo o é de verdade, isso pouco importava, afinal alguns adultos apenas aumentam seus guarda-chuvas. O fato era que seu mundo era imenso ali mesmo, embaixo da cabaninha da curiosidade. Junto com os ursinhos e bonecos que na missão estavam, ele decidiu que teria que explorar um pouco mais a sua volta. Saiu da cabana como um herói, olhou para seus colegas de aventura e proferiu um corajoso: “Eu vou! Mas eu volto!!”

Pegou uma embalagem de fita K7, colocou algodões e algumas formiguinhas. Queria entender como as formigas viviam e ponderou que o algodão as deixariam mais confortáveis. Nomeou o projeto de berço das formigas. Ao final do dia, já cansado do experimento, colocou as formigas para dormir, fechando a embalagem. Dia muito difícil para um jovem cientista, mas satisfatório. Acordou cedo pela manhã e se apavorou que não havia feito as tarefas de português e matemática.

Levou anotação na agenda da Dona Maria, uma senhora já cansada da falta de vontade de aprender de seus alunos, depois em casa recebeu algumas palmadas na bunda de seus pais, um casal já cansado por também se acharem um fracasso na educação do filho. Como sabia que a ciência tinha seu preço, após alguns pensamentos de ódio a si mesmo retornou ao seu trabalho de investigação.

Dia 12 de setembro de 1993 fora o dia mais desolador que o pequeno cientista tivera. Abriu a embalagem de fita K7 e lá estavam as formiguinhas sufocadas no algodão. Nenhuma sobrevivera ao sono eterno que foram submetidas. Em lágrimas, abortou o projeto ultra-hiper-mega secreto e correu para sua mãe e questionou o que acontecera com as formigas. A mãe com aquela anotação na agenda ainda engasgada na garganta, tirou força para dar-lhe um colo e explicar que sem ar as formigas morreram, mas que ele não se preocupasse pois no jardim haviam outras formiguinhas.

Pediu a mãe que as acordasse da morte, pois eram aquelas que importavam para ele. A mãe não tinha ideia da proporção que aquela situação tinha para seu filho e tentou explicar de forma suave e desconcertada que não se pode acordar da morte.

Com a fita K7 nas mãos foi para a cama e chorou por algumas horas, já não chorava pelas formigas, mas porque seu experimento lhe levou a descoberta da finitude. Já não sabia mais diferenciar o sono da morte e passou a negar dormir sozinho.

Estava sentado vendo desenho quando uma pomba bateu na janela. Deu água a ela, mas não resistiu aos ferimentos. O irmão mais velho, já sensibilizado de que seu irmãozinho estava passando por dias muito difíceis mas que ninguém entendia bem o porquê, fez uma carinhosa proposta de enterro a pombinha.

Foram ao jardim, cavaram um buraco, colocaram a pombinha, botaram a terra por cima. Inventaram uma oração e o irmão mais velho olhou e enxergou verdadeiramente o sofrimento do irmãozinho e disse: “Agora ela esta no paraíso das pombas”. O ritual seguido das palavras acolheram um pouco a dor. Quis perguntar o que seria o paraíso das pombas e como poder saber se esse paraíso existia. Mas preferiu apenas acreditar para poder se acalmar. Calou a curiosidade para sobreviver.

O conhecimento seria perder o paraíso. Fazer descobertas e continuar sendo curioso é um ato de coragem diário que algumas pessoas escolhem fazer. Existem descobertas insuportáveis que somos obrigados a esquecer para seguir vivendo. Mas elas ficam lá, impressas na malha fina da pele, nos teares do pensamento. Todas as criança são cientistas, exploradoras do mundo, filhas da curiosidade. O cientista já adulto não é filho da inteligência, mas perseverante de ultrapassar a ignorância sem cair no abismo do desamparo da própria descoberta.

O jovem cientista lembrara do que falou para seus colegas de laboratório: “Eu vou, mas eu volto”, mentia sem saber. Quando sua mãe lhe falava isso antes de dormir ou ao deixa-lo na escola, mentia, mas ela fingindo não saber. Lazarenta, pensou ele. Mas ainda instigado pela curiosidade sobre o paraíso das pombas e pela imensurável beleza da imaginação, optou por continuar correndo o risco dessas promessas que não se faz a ninguém, essas de ir e voltar.

E com um ar de maturidade e grandiosidade, olhou os seus bonecos e ursos cobertos pelo abrigo do guarda-chuva, olhou para sua cama e para a janela que denunciava a escuridão da noite e proferiu um sério e firme: Voltei!