CORES-AGEM

“Viver é melhor que sonhar” diria Elis Regina. A vida acontece na vida, passar a vida pensando é como ensaiar a existência. O pensamento é o adversário mais cruel da coragem e o melhor aliado da cautela, que por vezes nos faz recuar. Precisamos constantemente esquecer de tudo que pode dar errado no dia, caso contrário perdemos a possibilidade até de sair de casa. O desamparo e ansiedade se trata disso, o excesso de lembrança que a vida é frágil.

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Viver é melhor que sonhar. Mas sonhar é uma forma de criar fôlego para viver. Sonhar não é pensar. O sonho acontece justamente quando o controle sai da cena, quando dormimos.

Sonhar é melhor que controlar. Mas não passemos a vida dormindo, afinal, viver é melhor que sonhar! Não pensamos em despertar…não é algo racional! Acontece num impulso de agir, de viver.

É tão bonito quanto perigoso despertar do que anda adormecido! A coragem são as cores que agem em nós. Se nos permitirmos sermos um pouco esquecidos e menos adormecidos, é um risco que vale a pena! As cores-agem em nosso favor.

Eduarda Renaux

Me distraio com Borboletas

“Se distrai com qualquer borboleta que passar”, sou dessas. Essa bailarina com asas quando se apresenta tem platéia garantida. E sei que não estou sozinha, bem por isso esta associada à distrações e devaneios.

Seja pela suavidade, pela calma, cores, câmera lenta, elegância, elas não passam despercebias nem mesmo junto as multidões. Mesmo tão frágeis remetem à força. Mesmo suaves nos lembram da potência de uma mudança. Mesmo com asas parecem não ter pressa.

Como admiro as pessoas que parecem borboletas. Elas não precisam se manter em nossas vidas. Só de passarem por nossos caminhos nos dispersamos com elas. Nos entregamos ao presente. Não é necessário nem interagir. E do jeito que chegam, borboleteiam e vão embora. Não questionamos sua chegada e nem ressentimos sua partida….

É interessante como nos sentimos importantes quando tocam em nós. Como se fossemos especiais, escolhidos pela borboleta. Não deixamos ao acaso. Nos sentimos, nem que seja num breve intervalo, amados. Não brigamos quando voam novamente, mas ficamos maravilhados por terem repousado em nós. Aceitamos de forma inspiradora sua liberdade.

Seria um bocado interessante se assim fosse com as pessoas. Respeitando seu compasso, contemplando suas cores, se acalmando com seu ritmo, vibrando com sua aproximação e se inspirando em sua liberdade.

Por mais pessoas-borboletas e menos rinocerontes em cristaleiras. Isso não é uma crítica aos rinocerontes e sim as cristaleiras!

Eduarda Renaux

  

Escolhendo Viver

A borboleta e sua metamorfose nos trás a representação de uma drástica mudança sentida de forma branda e tranquila. Um animal que ao recolher-se passa por uma transformação tão surpreendente que muda seu estado terrestre para ganhar os céus. Já a história da águia, longe da sutileza da borboleta, fala de renovação pela via da dor e da coragem.

Não é uma metamorfose literal, mas tem um efeito quase equivalente, quem sabe uma metamorfose menos acessível ao campo visual e mais significativo ao “dentro”, uma metamorfose interior, subjetiva. Se trata daqueles momentos em que ou você se rasga ou você morre.

Segundo a fábula, a Águia chega em uma fase em que está com as penas pesadas demais lhe prejudicando o voo, o bico torcido demais impedindo que se alimente adequadamente e as unhas imensas prejudicando o equilíbrio. Da forma como a Águia se encontra sua vida esta em risco. Será uma questão de tempo e morrerá precocemente.

Após essa constatação, ela sobe, sozinha, nos mais altos penhascos de pedras pontiagudas e inicia um rito de arrepiar. Ela se arranha, se joga nas pedras, destrói o bico e as unhas, arranca as penas. E depois de passar por essa mutilação, ela aguarda que tudo nasça novamente e segue seu caminho. Esse processo dura 150 dias.  É um ato de coragem, de renovação, de libertação dos excessos que lhe sentenciavam a morte.

Esse rito toca a todos nós, que já munidos das asas de uma borboleta, necessitamos tomar as decisões mais duras numa tentativa desenfreada de cura, de sobrevivência e passar a viver de forma mais plena.

A energia é sempre uma só. É onde vamos direcioná-la que teremos notícias se a mobilizamos para a morte ou para a vida. A dor, a mutilação, a agressividade podem ter mais ligação com a vida do que com a morte, embora elas só existam entrelaçadas uma na outra. Uma dança difícil de identificar quem conduz quem.

É importante atentar-se que esse ato é agressivo mas não auto-destrutivo, pois esse processo tem uma razão de construção. Um despertar para a vida até as últimas consequências. É nesse exato momento que a águia escolhe viver, como se lhe fosse dado uma segunda chance e ela aceita com toda sua coragem e persistência.

Todos possuem um pouco da borboleta e também uma águia dentro de si. Mudamos de corpo, mudamos de posição e por vezes estamos dispostos a dolorosas amputações para seguir nosso voo. O importante é não perder de vista o processo curativo envolvido nesse rito de sofrimento. Algumas decisões de vida exigem coragem pois são muito difíceis, caso contrário, não exigiriam coragem.

A metamorfose psíquica é construir asas a nossa posição frente a vida, é escolher viver, é pura responsabilização. A libertação acontece quando nossa águia entra em harmonia com nossa borboleta. Já li e reli o frase “Vai, e se der medo vai com medo mesmo”, hoje proponho uma inclusão, “Vai, e se doer é porque é ali mesmo”.

Pode não durar 150 dias, mas necessita ser transitório, chega o momento em que precisamos sair do casulo e depois necessitamos sair do penhasco. Em ambos os lugares, vale a pena lembrar, saímos alçando vôo.

Eduarda Renaux

A Neurótica – Mundo da Lua

Quando se esta em apuros qualquer jacaré vira tronco, já dizia o ditado. Mas no caso dela uma lagartixa já estava de bom tamanho. Tinha uma amiga que era super astral. Fazia loucuras com os dentes dos jacarés que encontrava pela vida, não era risco, mas aventura.

Jogada na cama feita feito um saco de ossos, músculos e gorduras alcançou com esforço o celular. Lá uma mensagem da amiga – corre que a Mestre dos Mapas esta na cidade. Tira teu mapa astral para sair dessa foça. Meio dormindo, meio morta, agendou um horário. Afinal, sua parte dormindo ainda era sua parte mais viva que tinha.

Data de nascimento? Perguntou a mulher. Falou a data, com pesar. Lembrou da idade que tinha e ficou infeliz pela eternidade dos segundos.

Hora de nascimento? Seguiu as perguntas. Minha mãe falou que tal hora da tarde, respondeu a Neurótica. Tem certeza? desconfiou a mulher. Senhora, vindo da minha mãe, eu duvido de tudo. Ah, Confirma então, porque isso é muito importante, enfatizou a Senhora. Para a surpresa da Neurótica ao pegar a certidão de nascimento, a mãe tinha razão.

Não te dais bem com tua mãe, né? Perguntou a mulher. Falar de mãe não, não!!! Porque todos os caminhos levam na mãe? Até no caminho dos astros e planetas. Não é mundo que gira em torno da mãe, é o universo! Pensou a Neurótica.

Aguardou uns instantes entre olhares enigmáticos.

– Tens o resultado, é grave? Perguntou a Neurótica. Deu câncer, falou a Senhora. Ah meu deus!!!!! Se apavorou a Neurótica

-Olha guria….ia falando a Senhora. A Neurótica amou ser chamada de guria, até esqueceu a data de nascimento, o signo e ascendente.

-Lua em câncer é tipo, emoção na emoção. Mas obvio que tudo tem seu lado luz e sombra, assim como a lua. Você é empática e acolhedora mas….e assim seguiu a Senhora com as explicações. Mas a Neurótica não ouvia mais nada, só o eco da palavra câncer.

– Da de trocar de lua? Perguntou a Neurótica. Não, respondeu a mulher. Mas veja minha jovem…deixa eu lhe explicar, seguiu a Senhora.

“Minha jovem?!!!!”. Essa mulher esta tentando me seduzir, pensou a Neurótica. Será que gostou de mim? Ela tem seu charme. Seguiu no devaneio. Passou mal de emoção. Numa rota desesperada de fuga, A Neurótica pediu licença para sair.

Estava com uma paixão “plutônica”, já pensando em sua aliança do tamanho dos anéis de saturno. Nas “terras” hostis do amor, feito Júpiter, é melhor ter cautela.

A Senhora tentou detê-la. “Amada, ainda falta ver as casas, falta tudo, tem muita coisa para ver.”

Agora a Neurótica tinha certeza! A Senhora a amava, tão certo quanto a chegada do homem a lua. “Para o mundo um passo, mas para ela um salto de humanidade”. Correu para ligar para amiga aventureira e contar o ocorrido, estava em êxtase. A amiga desanimada ouviu pacientemente. Mas resolveu não colocar lenha na fogueira, a situação já estava quente feito mercúrio.

Sentiu uma animação que há tempo não sentia. No fundo sabia que era delirante, mas queria saborear cada momento. Sentia uma beleza de Vênus. Porque toda a mulher é terra, é fertilidade, é criação. Toda a mulher é água, emoção. Toda a mulher é fogo, sonhadora, visionária, movida pela paixão. E toda a mulher é ar, razão, guerreira. Toda a mulher é coração e intuição.

Pela primeira vez em muitos anos, através de outra mulher, sentiu-se ainda mais mulher. Sentiu vontade de ligar para a mãe e falar de sua gestação e de seu nascimento. E pela primeira vez não falaram de doença e nem drama.

Vai ver esse câncer não é tão grave assim, era apenas em sua fantasia inicial. Mas nesse  mundo da Lua, encontrou seu mapa, encontrou seu lado astral.

Eduarda Renaux

 

 

 

Já sei!

Onde foi que nos perdemos e que passamos a acreditar que inteligência é nota boa ou falar bonito?  Os conceitos de inteligência emocional, resiliência desconstroem a ideia de que ser intelectual é ser inteligente. Inteligência é a possibilidade que temos de criar saídas diante das dificuldades que aparecem no cotidiano. Inteligência e criatividade estão muito ligadas, pois elas não são mecânicas, são subjetivas e singulares. Existe uma diferença crucial entre reproduzir conhecimento e buscar dentro de si o que se sabe.

Uma das cenas que mais me encanta na clínica com crianças é a forma como elas associam livremente através de perguntas difíceis que convocam os adultos a serem criativos e inteligentes o suficientes para responder de forma clara e simples o que estamos acostumados a transformar em complexo e rebuscado. “De onde vem os bebês? Para onde vão os mortos?”. Não se trata de ler uma cartilha de reprodução sexual, tampouco de discursar a obra de um filósofo que teoriza a morte.

E para criar respostas e soluções as crianças não deixam por menos e pronunciam o famoso “Já sei!” ou “tive uma ideia”. A brincadeira esta a pleno vapor e assim que uma problemática aparece a criança se antecipa e afirma “Já sei! E se….fizéssemos tal coisa”. Parece tão obvio, mas não é.

O adulto perde muito essa posição de permitir-se afirmar que sabe, que não precisa ir no livro, na sala de aula ou perguntar ao mestre, mas de acessar algo dentro de si. Sem medo ou vergonha de deixar vir, deixar aparecer, deixar revelar. A verdade é que sabemos muito sem saber que sabemos. E bloqueamos de diversas formas o acesso a esse saber. Freud diz que temos acesso a essa sabedoria velada através dos sonhos, dos chistes, dos atos falhos e da livre associação.

A vergonha e o medo são afetamentos particularmente muito presentes na vida do adulto, que vacila diante do que sabe. A criança sabe, o adulto duvida. A criança cria, inventa. O adulto recua, alimenta a insegurança. Enquanto a criança diz que sabe, o adulto diz que não sabe. O “já sei” é desejoso, é emoção, é ato. O “não sei” é inseguro, é racionalização, é engasgo.

Nesse ano que se inicia, que possamos reconhecer o que sabemos, menos teóricos e mais experimentais, mais viventes. Isso pode ser um bocado inteligente. Para isso, Haja sonhos, lapsos, falhas e livre vivência.

Eduarda Renaux

 

 

 

 

 

 

 

Deprimidos no Natal

Desde muito crianças, aprendemos as palavrinhas mágicas para acessar o mundo do outro. Ainda que alguns defendam que é questão de boa educação, não deixa de ser uma forma de amolecer um coração, pedindo com carinho para poder entrar. A mágica acontece quando aprendemos a usar as palavras:  Por favor e Obrigado. Já diria o dito popular, a questão não é o que fala mas como fala. O obrigado e o Por favor transforma “o que fala” em “como fala”.

Então essas palavrinhas podem fazer toda a diferença na relação – por mais momentânea que seja – com alguém. Hoje minha pergunta é: Pode existir alguma magia no uso da palavra com aqueles que estão deprimidos? O final do ano é falado como o período das festividades, das celebrações. Mas a quem está mais para clima de velório do que de festa. Não é novidade, e até mesmo muitos irão olhar para dentro de si e perceber uma melancolia ou uma indiferença a esta data.

Seja porque entes queridos morreram e a data lembra uma união familiar, seja porque a data remete a uma religião e o sujeito não tem uma crença que justifique essa celebração. Seja porque a festa tornou-se um atrativo comercial para alimentar ainda mais o consumo, trazendo uma sensação de indisposição com a data. Mas os deprimidos estão ali, lembrando que nem tudo é festa. Existe um mal-estar.

Tem pequenos gestos que serão quase que mágicos com aqueles que estão mais para as lágrimas de melancolia do que de alegria. Embora não seja adepta a tópicos, desculpem, por favor, mas não achei outro recurso.

VOCÊ NÃO ENTENDE – Sim. Você está muito bem-intencionado em ajudar o ente querido, o amigo do coração, a parceria do dia-a-dia. Mas tem algo que você precisa saber, assim como a gravidade impossibilita que se chova para cima, é impossível você entender o que o outro está passando ou sentindo. Então dizer que entende pode chegar a ficar ofensivo, e se você pegar um deprimido raivoso pela frente, levará um “corridão” sim. Pois bem, partindo do princípio que você não entende, a única possibilidade é limpar os ouvidos e uma disposição honesta e sincera de escutar, querer saber. Caso não esteja com vontade, não existe nenhum problema, é de seu todo direito. Mas então vamos deixar o deprimido elaborar sua tristeza sem essa interferência que é bem-intencionada mas sem uma real intenção de ajuda.

SAIBA QUE ESCUTAR É SUPORTAR O MAL-ESTAR – Tem algumas frases que chegam a parecer muros linguísticos. Eles não servem para outra coisa que não calar a pessoa. Frases como: “Você tem que ser forte”, “Vai passar”, “é assim mesmo”, não são contraindicadas desde que você tenha se disposto a verdadeiramente ouvir o outro. Essas frases sem uma escuta, sem um contexto, um ouvido atento ou um ombro caloroso, são apenas defesas em não querer ouvir. A mensagem fica invertida. Ao invés de passar a ideia de acolhimento, passa a mensagem de “fique bem para que eu posso ficar bem também”. Tenha em mente que numa sociedade onde a felicidade é lei, a tristeza é um mal-estar que tem que estar disposto a encarar de frente, sem muros e sem a pretensão de tapar a boca do outro.

O OBJETIVO NÃO É DEIXAR O OUTRO FELIZ – Ajudar não significa fazer o outro sair da tristeza, mas se mostrar presente e de livre escuta. Ouvir possui um alcance muito maior do que a fala em si. Evite conselhos e valorize o quanto sua presença pode fazer toda a diferença.  O maior presente para esse Natal não está na prateleira de uma loja e não custa nenhuma cifra.  E nem por isso ficou mais fácil ou barato. Ajudar quem está precisando custa e exige muito subjetivamente. Então pense bem se você tem como custear essa função. Para isso leve em conta:

SE VOCÊ NÃO ESTA BEM, SUPORTE QUE NÃO ÉS A PESSOA ADEQUADA PARA AJUDAR NESSE MOMENTO. Quando não se está bem não tomamos decisão e também não podemos ter a pretensão de ajudar o outro. Inclusive, é uma boa oportunidade de ser honesto consigo próprio e reconhecer que precisas elaborar uma tristeza tanto quanto o outro. Então para os heróis e heroínas de plantão, fiquem atentos a si mesmos antes de salvarem a humanidade.

Eu vi muitas mensagens lindas hoje, de amor, de união, de paz e de caridade. Mas escondidos na sombra da beleza dessas mensagens, estão os entristecidos. E a minha certeza de que não são a exceção. Não podemos entende-los, dar-lhes a felicidade. Mas podemos não esconde-los, os trazendo para outra luz que não os dos pisca-pisca. Podemos retirar-lhes a rolha da boca, através de uma presença efetiva e ouvidos aquecidos. Às vezes é nas orelhas que residem os melhores colos. Assim também acontece a magia do Natal.

Por favor, acolham essas palavras!

Obrigada!

Eduarda Renaux

A Neurótica – Pedra da Lua

Enquanto ouvia “Total Eclipse of the heart” da diva Bonnie Tyler, sentia o cheiro da infância no carro velho dos pais. Pedia para repetir a música a viagem toda, mesmo sem entender uma palavra de inglês. Não era romântica, tampouco dramática, mas a música era a trilha sonora perfeita para seus pensamentos. Quais eram? Provavelmente o quinquagésimo oitavo amor nos seus oito anos de idade. Mas não, não era romântica e tampouco dramática.

Furou a fila da puberdade e chegou na adolescência com antecedência, o azul do sol abruptamente se tornou o preto da noite, feito eclipse. A cor preta tinha sabor de infância perdida, disfarce dos enlutados.

Tem gente que conta primaveras, ela contava luas. Não poderia esperar todas as outras estações para florescer. Mas tinha fase que esperaria, tinha fase que não. Dependia da lua e da próxima menstruação.

Pegava a palavra, arrumava um amor, bagunçava a vida e seguia para a próxima poesia. Quando foi guardar o que viveu, cabia tudo no bolso. Quilômetros de vida desperdiçada, deduziu. Que fase!

Emprego novo, lua nova. Tagarelou silêncios, organizou a casa e seguiu para a próxima planilha. Foi guardar a vivência desse período e entulhou as gavetas. Só podia ser enfim um passo na vida, cautelosamente ponderou.

Passadas algumas estações, não tinha mais aroma, sabor, formato. Até tinha, mas a infância se tornou tempo e não mais aroma, o preto era cor e não tinha sabor, palavra não contagiava, não se pegava, apenas uso pontual da comunicação.

O que tinha acabado então era a poesia. Essa de fazer as coisas caberem no bolso.

Não dependia mais da lua, mas de todas as outras coisas. As importantíssimas pendências descartáveis cotidianas. Feito gavetas abarrotadas de burocracias, dessas que  ninguém abre até o dono virar estrela no céu.

Precisava mudar o disco, pensou. Logo em seguida a trilha sonora voltou na lembrança. Com muito riso estranhou sua paixão pela nada dramática e romântica música “Total eclipse of the heart”. Drama e humor, luz e sombra, dança de gente estranha que pisa no pé do outro,  ri em velório e chora em casamento.

A partir dali, quando estava perdida passou a confiar na trilha sonora que escolhia, porque trilha é o som do caminho….basta escutar!

Eduarda Renaux 

Viva o Luto – Descansa em Paz

Viver é perder. A cada não que nos é dito, a cada privação,  nos preparamos para as grandes perdas que teremos no caminho. Pessoas que foram poupadas de perder, muito protegidas das frustrações, vão tendo dificuldades bem evidentes de lidar com essa dor.  Quando pensamos em perdas, associamos a coisas mais concretas ou palpáveis. Perda de alguém, de um emprego, um  divórcio. Mas existe um tipo de perda mais abstrata, trata-se dos desaparecidos.

Vou nomear dois tipos de desaparecidos: O ente querido que desapareceu (seja por tragédia, acidente ou sem explicação, o sujeito sumiu e o corpo nunca foi encontrado), e também o ser amado, que se foi, mesmo ele estando vivo e ao lado. Na primeira circunstância, o desaparecido vira uma miragem no deserto, uma proximidade ilusória, um oásis que não se alcança. Já na segunda condição, é como estar sedento dentro de um rio impróprio para o banho. A água esta lá, mas não há o que fazer com ela, além de deseja-la como um dia já foi, límpida e pura.

Relacionamentos podem acabar por tragédia, por desgaste, por morte, por amadurecimento e também por mudanças gradativas que descaracterizam o amado de quem um dia foi. E ele era amado pelo que foi e não pelo que se tornou, inicia-se uma saga do amor “zumbi”. Vasculha-se em todos os lugares aquela pessoa em vão. A recíproca também é verdadeira, quando nossas mudanças foram tantas que já não é possível reconhecer-se naquela forma de amar.

O grande conflito de famílias que possuem um ente desaparecido é que se supõe que esta vivo, a esperança torna o luto impossível. Ali a ausência produz uma série de fantasias angustiantes. Já em relacionamentos onde o desaparecido é metafórico pois a presença física se mantém, a dificuldade esta na assimilação da perda. Do desaparecimento, prevalece a fantasia, o ressentimento, a esperança. Acabar com a esperança é reconhecer que ela estava em Pandora, o jarro de todos os males do mundo.

Freud, no belíssimo texto Luto e Melancolia, escreve que toda a perda é narcísica, ou seja, é o que de nós se perdeu com o objeto perdido que dói. Aceitar perder é aceitar perder-se em alguma parte e construir algo novo em si mesmo. Viver é perder. Viver é perder-se. Perder-se é se reencontrar de outro modo.

Após o atravessamento do luto algo se cria, uma versão diferente de nós aparece. Mas é preciso ver o morto para enterrá-lo, tirá-lo da condição de desaparecido.  Nomear o que essa perda significa é uma forma de materializa-la, em forma de palavra, de história.

Matar a esperança não é desistência, mas insistência de se reinventar apesar de uma perda…é insistir na vida, é transformar esperança em saudade! É também poder descansar em paz…os vivos também precisam…

Eduarda Renaux

 

 

A Neurótica – Pedra do Sol

Um sol de cegar os olhos! Sentada na praça, tão atordoada quanto a multidão que ali passava. Mas não era isso que justificava sua cegueira daquele dia. Se era olhar cego ou vago, nem Cristo sabia. Ela se mantinha sentada sem saber bem no que reparava, tudo e nada lhe chamavam a atenção. Lhe faltava corpo.

Existe uma angústia que não se nomeia quando o pensamento parece não ter direção ou intenção. A claridade ofuscava a clareza das idéias, mas também, clareava as idéias obscuras. E o conceito de existência sufocou o peito, engessada na definição crua de que de coração e respiração que se faz do corpo uma vida. Essa foi a primeira anotação que fez no pedaço de papel que trouxe consigo: “Fazem um corpo viver, mas não garantem a vida.”

Ela era multidão, ela era a dor de cada peito e a respiração pesada de cada angústia. Mas também era o sorriso fácil e o frio na barriga, e até samba no pé. E foi assim, tal qual uma mãe que vai nomeando cada parte de seu bebê para dar-lhe um corpo linguareiro, que a Neurótica conseguiu ser mais que um coração e um pulmão. Dando com a língua nos dentes, safou-se de ser Psicótica e manter-se Neurótica. Ela era cara de pau para lidar com situações extremas mas fazia corpo mole com aquilo que não parecia urgente de resolver.

Ela era mão boba quando estava com um amor engatado, sangue nos olhos quando sentia-se desafiada e o calcanhar de Aquiles daquela antiga paixão. Era também dedo duro do chefe e costas quentes de muita gente. Por vezes, falava pelos cotovelos e metia o nariz onde não era chamada. Defendia com unhas e dentes uma vitória, mas parecia ser feita de açúcar quando fisgada por uma boa história.

“De caco em caco construo meu mosaico”, prosseguiu escrevendo. De palavra em palavra, construo um corpo. Ela já não era só multidão, mas a identificação com a particularidade de cada um que passava. Ela não mais só existia, ela era vida. E podia a compor como queria….

Ser,

Vida,

Ser vida,

Servida…..

Do que lhe dá vida!

E o que se escolhe na vida para dar vida a vida vai fazer toda a diferença para a vida que se tem.

Eduarda Renaux

Manejo das Importâncias

Não existe ato que não seja impulsivo, até pensar muito sobre algo é uma impulsividade. Somos eternos imprudentes. As significações vão aparecendo depois, naquele passo para trás para poder ver de fora. Engana-se quem pensa que avaliamos a vivência pelo que foi bom ou ruim, mas pelo que foi importante. Quem consegue viver só de memória boa não deve ter boa memória.

Lembro-me de uma criança que ao desenhar suas amigas, me falava da colega que lhe infernizava a vida, justamente a “bendita” que ela desenhou por primeiro. E é isso que vai fazer sentido em algum momento da vida, o manejo das importâncias. Tem tanta coisa que é importante e não é prioridade. Não se faz sofrimento apenas com tragédia, sofremos também por enormes miudezas cotidianas.

Tem tanta gente que é acontecimento num dia e uma brisa no outro. Tem os que viram pedra no sapato por uma vida. Tem gente que é tropeço, tem quem é caminho, tem quem é parada, abrigo, janela, tormenta. Tem os que floreiam a gente para sempre. Nos contamos sempre através do outro, através das pessoas que nos cercam.

Nesse manejo das importâncias entra o manejo de quem consideramos importante. Isso fala muito de nós, isso só fala de nós. A vida é a conjugação na primeira pessoa do plural. Quem desenhamos por primeiro, quem toma o nosso tempo, nosso pensamento, nossa fala enquanto vamos desenhando nosso quadro da vida?

De todos os conflitos do cotidiano, é sobre as pessoas que mais vale a pena se perguntar. De alguma forma, dependendo do contexto, o ser humano é paisagem. Confunde-se com o lugar, com as coisas, camuflado na multidão.  Uma parcela de angústia nos arremessa a essa sensação de mobília da cena, quem se dá conta disso tem trabalho redobrado para se tornar gente de novo.

Em contextos de multidão, onde o olhar é muito mais predominante do que as palavras, podemos ser tocados por essa sensação. Mas assim como a pequena das canetinhas do início desse texto nos ensina, vale a pena falar enquanto brinca ou falar do que se brinca. Não apenas olhe. Fale, conheça alguém pelo genuíno interesse de saber do outro. Porque uma boa dose de palavras nos preserva, a linguagem nos humaniza. Um ato corajoso, e claro, impulsivo. É nessa impulsividade que acontece o manejo das importâncias, sejam elas boas ou ruins….

Eduarda Renaux

A Neurótica – Turquesa

A Neurótica lembrou de uma lembrança que nunca aconteceu. Mas desejou tanto essa cena que virou verdade, e de vez em quando é assim, lembrava de um futuro que já tinha vivido.

Passado, presente, futuro, sua cronologia é outra e ela brinca de confundir as estações. Sente calor ao lembrar do futuro inverno ao lado do seu primeiro amor. Sente o perfume da plantação de jasmim que sabe que não poderá ter no próximo outono. Ela dança em uma cantada, caminha olhando para baixo para não ser interpretada, se pergunta se é mulher formada na turbulência do avião.

Ela sofre da melhor das doenças, uma vontade exagerada de viver, chega a se colocar em risco. Quando o risco deixou de ser emoção e virou perigo de verdade, ficou com medo exagerado de morrer. Culpou a humanidade por isso. Foi para os trilhos da pior estação. Embarcou em cruel segurança. Angustiada com a vida que ficava para trás. A vida e seus riscos, roubados com seu café com leite, onde o risco era de brincadeirinha, não conta na conta.

Em troca a segurança e um padrão, um único caminho, passou a viver de um futuro inventado onde era corajosa de novo. E ela foi, mas esqueceu, esqueceu dessa verdade enquanto lembrava de uma mentira.

Se perdeu novamente, saiu do trilho seguro que não a segurava mais. Achou tão romântico ver os trilhos do trem, já tinha esquecido como eles eram, feito escadas horizontais. Tem outros jeitos de subir na vida! Lembrou que não gostava de leite, manteve o café com quatro gotas cancerígenas de adoçante.

Agora é por conta e risco. A morte é certa, a vida é incerta. A vida é a doida que sussurra no ouvido da morte e não o contrário e por isso a vida é um sopro. O maior risco da vida é viver. Confundir essa estação será a pior das doenças, essa de ser um padrão.

A amiga que percebeu que a Neurótica já estava quieta demais fazia uns dois minutos lhe deu um cutucão. “Ei, no que esta pensando?”. A Neurótica se assustou e se aliviou com a pergunta. Sempre um alívio ser noticiada de que pensamento é privado, enquanto o silêncio é público. “Estava pensando que queria comprar uma bicicleta”. A amiga retrucou de que achava muito perigoso porque não tinha muita ciclovia na cidade. A Neurótica sorriu e seguiu, “era exatamente nisso que eu estava pensando”.

Eduarda Renaux

A Neurótica – Jade

Trocou de roupa quatro vezes, inventou alguns defeitos em cada uma das composições, deitou na cama como se preferisse vestir-se com o lençol a qualquer item do armário. Uma mulher começa a sair de casa muito antes de seu compromisso, quem sabe um ranço histórico, já que as mulheres sempre fantasiavam muito mais sua saída de casa pois não podiam ocupar o espaço público.

No espelho, ensaio de perfil, de frente, de costas olhando para trás, mãos nos cabelos, braços cruzados, pernas cruzadas, forçando uma gargalhada, semblante de seriedade, leve sorriso no canto da boca. Cabelo solto, preso, trança, coque, arrumadamente desarrumado. Após inúmeras tentativas, saiu de casa propositalmente e calculadamente como se não tivesse tomado mais que cinco minutos para se embelezar. E mais, saiu de casa tão cansada como se estivesse fora o dia inteiro.  A imaginação cansa fisicamente!

Uma rasteirinha, uma saia de renda simples, uma blusa básica, um colar com sementes de açaí, uma maquiagem cotidiana e um cabelo propositalmente indisciplinado que levou horas para ficar como desejava. A amiga que lhe esperava no lado de fora indignou-se como a Neurótica podia ficar tão autêntica com qualquer coisa que vestisse, e chegou até a comentar o fato com ela. A Neurótica que é neurótica mas não é tola, forçou a gargalhada que já tinha ensaiado no espelho e retribuiu o elogio com a mentira que lhe convinha, de que havia deixado para se arrumar nos últimos minutos.

A Neurótica fazia uma entrega total de si mesma, como se só pudesse ser apreciada pelo outro e não por si mesma. Viu a si própria murchar feito flor em vaso dezenas de vezes. Tão bela e radiante nos primeiros dias e tão intragável no decorrer de pouco tempo. Ela era flor em vaso e queria ser um jardim.

Para ela, quando se planta uma rosa, ela ficará linda pelo tempo que quiser, pois estará lá viva, criando raízes e desabrochando, diferente a cada estação. Quando a podamos para colocar na água sua beleza é momentânea, pois estará desde o início decapitada, sua beleza é verdadeira mas sua vida é uma ilusão, tão morta quanto a flor de plástico. Quando encontrava pessoas que desejavam encontros pontuais, sentia-se rosa cortada, os espinhos chegavam a arranhar a garganta.

A amiga achava que a Neurótica era muito atrasada para seu tempo, que deveria poder tirar proveito das passageiras lindezas da vida. E que como mulher, sua terra pertencia a si própria. O corpo é terra, regado de água, é vida que pulsa de dentro e não de fora. Mas a Neurótica embora percebesse alguma coerência nessa fala não sabia diferenciar quando estava podada ou em terra firme.

Ela investia muito tempo em parecer que não se importava, como se quisesse se defender que a cortassem, a matassem afogada, virada em espinho. Mas a amiga, foi mais certeira que o armário, a vestimenta de palavras a vestiu tão bem para o momento. Para variar as melhores vestimentas estão na rua e não são de tecido. E pela primeira vez apreciou e entendeu a importância do convívio com alguém. Ficou com vontade de pedir a mão da garota em amizade. Cogitou pedir, mas novamente temeu ser podada por isso.

O empoderamento de si mesma diluiria a necessidade de tantos ensaios para montar um personagem. Assim como as rosas em vasos, esses personagens criam beleza provisoriamente, pois é para isso que servem, feito festa a fantasia, para serem vividos e aproveitados no sopro. A magia se vai assim que a festa termina. Mas o brilho valeu cada segundo.

Era nesse sopro que se desmontava e não conseguia se recompor, pois lhe faltavam sementes, flores extras. Afinal, com quantas rosas se fazem um jardim e um coração?

Eduarda Renaux

 

Copo Meio Vazio

Junto comigo, na sala de espera do hospital havia um senhor que iria operar o joelho, primeira anestesia geral da vida daquele homem. Eu, com supostamente metade de sua idade celebrava meu quinto aniversário dessa anestesia que simula muito bem a morte, a força entrega de quem resiste em querer viver. Ele estava muito nervoso com a demora, com o atraso de seu procedimento. Ali como eu imaginava ganhar em experiência, lhe disse: “se preocupe quando o hospital avaliar que não possas esperar, que não tenhas mais tempo. Quanto mais esperas, teu caso se mostra mais brando do que dessa gente que tem má sorte na saúde.” Ele me respondeu que essa mania de ver copo meio vazio sempre o fizera mal. Só que vinha coisas ruins na cabeça.

Me pus a pensar no copo meio vazio, respirando fundo o ar aromatizado de drama que certamente colocam em cada hospital. Pois quem esta em hospital, esta com o copo meio vazio. Vazio de palavra, de fantasia, de imaginação, de história.

Tua vida é o bocado de exames que carregas nas mãos. Teu histórico é se tens alergias, hipertensão, diabetes, depressão. Teu tipo sanguíneo é o mais próximo que você chega sobre o significado dessa palavra. Tua roupa é um uniforme, pouco digno por sinal. Sim, teu corpo esta quase reduzido a copo vazio, puro corpo, pura matéria.

No andar do hospital contava também a maternidade, o choro de cada bebê que nascia lembrava o milagre da vida. Mas era também aquele choro que remetia ao desamparo que esquecemos desde tão cedo. O trabalho de nos encher o corpo com palavra e alegria, entusiasmada recepção. Tanta história desde a descoberta da gestação e tantas outras por vir. Não poderia ser choro de medo, mas de alegria, de quem goza de um copo cheio, que pode ser passado de mão em mão para que todos possam degustar a maravilha que é um por vir, uma história que se inicia.

Mas hospital é lugar de sofrência, nascença e também de renascença, mesmo com diferentes anestesias. É aposta de vida nova de quem já tinha desaprendido que a vida podia ser melhor. Embora rodeado dessa atmosfera de mal aventurados, esquecemos que na sala de emergência existe um sopro de vida, existe um resgate daquilo que se perdeu, um desejo de resistir a ser copo vazio.

Mesmo os desafortunados que não podem esperar, desejam tornar-se novamente o milagre da vida. Recuperar-se é colar os cacos, é humanizar-se aos poucos, é encher-se novamente ali onde as palavras são rasas. A recuperação é mais que a certeza da sobrevivência, é tornar-se você novamente, tempo mais trabalhoso esse de se encontrar dentro de si próprio, sabendo que vais te encontrar diferente do que eras.

Eduarda Renaux

Sem Parteira

Pode parecer normal para a maioria, mas a gente desacredita que passa boa parte da vida feito mito grego. Diz o mito, que em princípio tínhamos quatro braços, quatro pernas, todos os sexos. Fomos repartidos e desde então ficamos buscando nossa metade perdida durante a vida.

O mito pode parecer bizarro, mas a grosso modo, não deixa de ser um tanto parecido com a realidade da mulher grávida. Mesmo homens que não podem ter essa experiência de carregar uma vida no ventre, já estiveram um dia nele, já tiveram sua metade separada de si. Embora a mulher grávida seja uma analogia literal, essa simbiose ocorre mesmo com corpos separados fisicamente, sem nos darmos conta da anomalia que nos metemos.

Ouço com curiosa frequência, crianças me perguntando como os mamíferos fazem para ter filhotes na floresta ou nos oceanos, onde não existem médicos. Quando você as ajuda a entender o que acontece, vem uma perplexidade, essa surpresa de ser uma parte visceral do outro, feito o mito que perdeu sua metade.

Se manter eternamente no ventre é transformar o milagre da vida em morte. E ocupar a própria vida é também um tipo de nascimento, separar-se um pouco do outro, deixar de ser uma extensão. Duas subjetividades não podem ocupar o mesmo lugar, alguém terá que se sacrificar, terá que se anular, terá que deixar de existir, tal qual o bebê que não nasce.

No campo do amor, manter a singularidade pode ser insuportável, pois doem como uma mutilação do corpo. Qualquer tentativa de separação simbólica é sentida como um corte, andar com duas pernas parecem insuficientes. Essa dor do corte fala da dor de onde existe um excesso, quem sabe essas pernas e braços extras. Onde não podemos criar, nos excedemos. Sufocamos em nós mesmos, sufocamos o outro. São aqueles que ficam grávidos uma vida toda, por vezes, desconfortáveis com o tamanho da barriga na hora de dormir, dos chutes, complicações nas costas, mas enfim, aprendem a se incomodar sem se importar.

Tem também quem aceita ter braços e pernas separados um do outro e seguem com as dificuldades que são próprias de quem deseja preservar a si mesmo dessa sedução de fazer dois, um só. Seguem inventando e reinventando, criando o relacionamento. Uma trabalheira sem fim. Isso não significa que não gere uma boa dose de sofrimento e conflito, advirto qualquer tipo de idealização.

E existem aqueles que a separação é literal, silenciosamente entram em trabalho de parto, nascem e sobrevivem, mesmo sentindo-se na floresta, nessa experiência que chega a afetar o corpo, onde não existe parteira de casais.

Mancos de duas pernas, partem em direção a vida.

Eduarda Renaux