O Vespeiro

Ando atenta às polêmicas. Ando atenta às opiniões estabelecidas, rígidas. Ando atenta às trocas de ofensas devido às diferenças. Ando atenta aos críticos e mensageiros do apocalipse. Mas ando calada, não quero mexer no vespeiro.

E por que não? Porque quem tem a crença estabelecida é surdo, é cego, mas não é mudo. É surdo porque só ouve as opiniões que fortalecem seu ponto de vista. É cego porque só enxerga os fatos que lhe dão razão. Mas não é mudo porque anuncia aos sete ventos seu discurso revolto, e não medirá palavras para destituir aquele que ousa pensar e então verbalizar o diferente.

De fato, há certos temas com os quais não se mexe. Argumentos até a exaustão e você é vencido pelo cansaço. Desculpe Senhor (a), era apenas uma opinião!

Me pego boquiaberta com aqueles que se sensibilizam com a morte, mas desejam que morram aqueles que não sentem o mesmo. Tem momentos em que seu sangue ferverá, você esboçará uma resposta. Mas em vespeiro não se mexe, apaga-se letra por letra.

Para falar, o outro tem que estar disposto a ouvir. Se não, salve-salve os monólogos!

Após apagar letra por letra, sigo letra após letra, esboçando um devaneio de quem escolheu não mexer no vespeiro e ainda assim sair da mudez.

Apostas que valem um Futuro

Nosso papel enquanto geração esta ligado desde um sentido mais amplo, onde fazemos parte de uma sociedade, e como agentes sociais, temos o dever de promover a diferença em meio as repetições mortíferas que testemunhamos no nosso mundo. A pobreza, a poluição, os abusos, a violência. Todos nós temos alguma ligação com isso e um papel de intervenção.

Num sentido mais específico, estamos também, inseridos em uma família, carregamos o sobrenome que nos antecede. Nossa história começou muito antes de nosso nascimento e não acabará no dia de nossa morte. Por isso, os filhos são a promessa da imortalidade, pois sabemos que as próximas gerações irão carregar as marcas que deixamos, os desejos não realizados.

Fazer parte de uma geração não é simples, carregamos muitas vezes fardos pesados e histórias difíceis. Não raro os filmes que mais lotam as bilheterias e premiações de cinema são baseadas em histórias de superação. Algumas ficcionais e outras embasadas em fatos reais. Na minha opinião ambas se equivalem, pois toda a ficção carrega verdades e toda história real é também uma ficção.

Nossas histórias são atravessadas por uma série de fantasias e versões, mas nem por isso menos verdadeiras. Os fatos batem com a realidade? Tratam-se de recordações não muito confiáveis? Pouco importa! Operam em nós como se fossem o que há de mais verdadeiro. Algumas marcas são tão doloridas que somos acometidos pela sensação de que são insuperáveis. Sentimo-nos aprisionados pelas impressões que deixaram.

E por isso nada melhor do que tomar emprestado as histórias que gostaríamos de viver. Através da tela do cinema, deslizar na vida. Se existe um elo comum nessas histórias, diria que não reside apenas na força de vontade do protagonista que tanto sofre. Mas na aposta que alguém fez nesse personagem. Exemplo: O papel do Fonoaudiólogo no filme “O discurso do Rei”; O papel da torcedora fanática no jovem jogador de futebol americano no filme “Um sonho possível”; ou até mesmo o burrinho na vida do Shrek. Afinal, não esqueçamos que o Burrinho sempre duvidou dessa “panca” de mau que o Ogro encarnava, ou seja, de burro não tinha nada…

Um filme em cartaz do momento é Cloud Atlas, na versão em português “A viagem”. Simpatizo com o título original. E só tenho uma palavra a dizer: assistam! Para aqueles acostumados aos 100 minutos habituais e confortáveis de filme, preparem os ânimos e disposição pois “A viagem” conta com exatos 180 minutos.

O filme condensa passado, presente e futuro em torno de uma mesma problemática: Quando fazemos do outro o objeto de nossas necessidades. O tema é antigo, atual e tem perspectivas para continuar moderno por muito tempo. Mas a reflexão sobre a prevalência de uma raça superior e os abusos que frequentemente testemunhamos, deixo para uma próxima.

Vou me deter a frase que marcou meus pensamentos durante as duas últimas semanas: “Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculadas a outras, passadas e presentes. E de cada crime e cada ato generoso nosso nasce o futuro.”

O ato de generosidade citado, em minha leitura, se trata das apostas que decidimos fazer ou não nas pessoas. Esse texto não será sobre aquele que sofre, mas sobre pessoas que frente ao sofrimento ou condição vulnerável do outro, investem em uma possível mudança, um caminho diferente. E exatamente por isso, é dado a chance de esse alguém renascer e fundar um futuro.

Para o suposto jovenzinho fraco que sempre se percebe sem condição de enfrentar as dificuldades da vida, o que vale é passar-lhe a mão na cabeça ou dar-lhe outro lugar? Dar-lhe coragem para enfrentar e não incentivar ainda mais seu medo. E a menina, que vai mal na escola, rotulada de “tolinha” pelos próximos? Será mesmo frágil cognitivamente ou de tão desinvestida não consegue vislumbrar um futuro diferente para si?

Me pergunto quantos estudantes foram salvos por colegas de classe que viram neles algo que ninguém mais enxergava. Fala-se tanto de Bullyng, mas colegas de sala não apenas rebaixam, mas também apostam. Assim como aqueles professores que mais nos marcaram.

O ato generoso, desse modo, não esta apenas nas doações para o abrigo do bairro. O ato generoso pode ser emergencial dentro de casa, no vizinho, nas panelinhas de quinta-feira, no local de trabalho.

As vezes tenho a impressão de que subestimamos as pessoas, achamos que elas não possuem recurso ou possibilidade de reinventar-se. Devem ficar desde onde pararam. Mas quem sabe precisem de um incentivo, de um novo olhar, de uma diferença e não de alguém que faça por elas. Ou seja: Apostar na possibilidade que cada um tem de dar conta de sua própria vida e por vezes iluminar isso quando estiver escurecido, isso é ato  que pode fazer nascer um futuro para alguém.

Para os que possuem a convicção de que apostar é proteger, diria que a vida não irá proteger o filho, o amigo, o pai, o irmão protegido. O que seremos quando crescermos? Não seremos apenas uma profissão, espera-se que mesmo diante de falhas e dificuldades, sejamos grandes. E tornar-se grande num lugar diminuído é particularmente difícil

Acredito que somos capazes de mudar a direção de muitas vidas, basta nos atentarmos a isso.

Não me siga, Eu também estou Perdido

As férias escolares são tão duradouras que poucos alunos chegam ao primeiro dia de aula sem aquele sentimento de saudade e expectativa. Rever os amigos, conhecer os novos professores, a nova sala de aula, as novas disciplinas, e principalmente, ver a concretude de seu avanço na vida. Afinal não se trata apenas de um novo ano, mas uma nova série que carrega um novo lugar na multidão escolar.

Os jovenzinhos ficam mais próximos de ser adolescentes ou até mesmo adultos. Com frequência se goza dos baixinhos que estão nas turmas anteriores, e assim consecutivamente. Os parâmetros de que esta se desenvolvendo ou se aproximando de algum lugar é mais palpável. Há quem inveje isso nos dias de hoje…

Existia um tempo em que a possibilidade de escolha era para poucos ou para quase ninguém. O casamento já estava arranjado até mesmo antes dos noivos nascerem. Ao primeiro filho cabia a profissão de padre, ao segundo de médico. Se explodisse uma guerra, nenhum homem escapava. As mulheres se ocupavam da maternidade. Tudo era limitado, inclusive a classe social. O destino estava selado por Deus, pelo padre, pelo pai, pelo professor, pelo chefe.

Esse cenário nada nos parece familiar hoje. Temos autonomia de escolher desde as pequenas coisas da vida até as mais significativas. Criamos a nós mesmos constantemente. Mas como nada vem sem consequência, o fato de gozarmos de muita liberdade faz com que recaia sobre os nossos ombros o peso do sucesso e fracasso de nossas escolhas.

Se podemos ser aquilo que queremos, como nos sentimos quando não gostamos do que somos? Provavelmente os fracassados do agenciamento da própria vida. O problema não mora na liberdade, mas sim na representação de que liberdade significa felicidade imediata. Mas escolher também significa frustrações, arrependimentos, renúncias, paciência em suportar o tempo que as coisas levam.

As possibilidades de escolha hoje são tão vastas que o cenário mudou. A questão não esta na liberdade, mas no que escolher. Não raro, ouço pessoas absurdamente desesperadas por perguntar o que deveriam fazer, que caminho seguir. Sentem-se desamparadas. É a famosa frase: Não me siga, eu também estou perdido. De modo geral, todos sentem um pouco esse mal-estar.

Por que o ano novo pode ser especialmente importante nos nossos tempos? Acredito que para quem esta perdido, a virada de ano pode significar um ponto de referência. Balanços do ano, metas para o próximo. E ai tudo e qualquer coisa esta valendo…

Na maioria das vezes pensamos muito mais nas mudanças de hábitos do que nas mudanças em nós mesmos. E porque isso pode ser complicado? Porque a ordem esta um tanto quanto inversa. A partir do momento que mudamos nossa posição frente as situações, a mudança de hábito vira uma consequência que não requer muito esforço. Então antes de fazer planos para as mudanças de hábitos e comportamentos, acho que vale nos questionarmos da importância deles na nossa vida. E isso é trabalho não só para um ano, mas para o tempo que levar. Mas nada impede que esse ano seja seu começo…

Adoramos celebrar a virado do ano, mas a bem da verdade é que ficamos horrorizados com o novo! Pois assusta…mudanças requerem romper com algo antigo e produzir algo diferente. E do diferente temos pouca experiência, é necessário recomeçar. Quantas oportunidades não topamos por medo do que a novidade irá exigir. Pedir um prato diferente ou ir no garantido? Por isso, muitas vezes, perder-se é se encontrar pois possibilita desconstruir-se e se remontar de outra forma.

Mesmo com maior autonomia, tornar-se protagonista e autor da própria vida nos dias de hoje continua sendo um desafio. Num mundo nada pessoalizado, o que vale é o terceirizado. Queremos um especialista que nos diga o que fazer, que nos diga como educar os filhos. Um olhar de fora, pode mostrar aquilo que não queremos ver, é sedutor transferir o trabalho para um outro. Mas como é saboroso quando nos beneficiamos dos olhares, construindo por si próprio o caminho. Não se trata de seguir, mas autorizar-se a caminhar.

Desejar felicidade para esse ano que se inicia? Eu desejo bússolas. Que possamos nos orientar a partir de nossa bagagem, história, ideais. Mesmo com duras quedas no caminho. Pois só tropeça e cai quem caminha. Quem caminha, sai do lugar.